4.2.20

Entre rasteiras e rasteiros não muda só uma letra


Dias confusos virão aí para quem alguma vez achou que, quando se chegava a lugares de poder, era porque se tinha um determinado nível. Claro que não estou a pensar naquela atitude típica de quem se esvai em sangue azul, ou azulado, ou seja mesmo só um snob. O snob é o grau obtido “sabe-se lá porquê”, tradução muito livre e cómica que ouvi sobre o título atribuído “honoris causa”. E que bem aplicado é a certos casos! Os snobs são, para mim, os últimos e mais fundamentalistas marxistas, os que julgam que a explicação da máquina do Mundo está nas classes. Mas adiante.

Toda a gente que já teve alguma actividade na Política, mais do que só o importante e político gesto imprescindível de votar para participar, não terá dúvidas de que, nesse mundo, para além da inteligência é necessária muita resistência. Nos dias que correm, estou em crer que para alguns dos que estão atentos ao que se passa na Política, e que é só com quem consigo ter uma conversa em que sinta que estamos mesmo a trocar impressões e opiniões, a resistência será a de não cair na lama em que novos líderes partidários, mesmo de velhos partidos, se vão movendo.

As boas estratégias e tácticas político-partidárias sempre viveram da pequena e cirúrgica rasteira que se pregava a adversários ou inimigos. Nem que fosse não fazer nada, com pose e elevação, e deixá-los espetarem-se sozinhos depois de tropeçarem nos próprios pés. Mas isso parece chão que já deu uvas. O que está a dar é mesmo chegar ao nível baixo de cultura política dos cidadãos e deixá-los lá. Deixá-los, não. Convencê-los a ficarem lá, contentes com o seu descontentamento, através de argumentos rasteiros, em discursos rápidos e fluidíssimos, que soam tão clarividentes como “a lógica da batata” e que os fazem sentirem-se ali bem, enquanto eles caminham em ombros no seu percurso de grandes líderes. Mas rasteirinhos, rasteirinhos.

Por outro lado, aos que detêm o poder no contra-poder também já ouvi discursos a pedirem já só uma palavrinha ... de afecto, talvez. O que me parece uma forma de contestação assim a dar para o chamado romance cor-de-rosa e, lá está, com um discurso também muito rasteirinho. Como nunca, parece-me cada vez mais útil, para além das entrelinhas, começar-se por ler mesmo as linhas com que nos vão cosendo os destinos do País.


28.1.20

Nos bastidores de uma Capital da Cultura


Está a fazer um ano que a CME oficializou a candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. As reacções, quando há quase três anos se começou a falar nisso, foram várias, do “já ganhámos” ao “deixa-me rir”, passando pelo “olha que boa ideia, deixa lá apoiar não vá parecer que não sou pró Évora”. Faço esta crónica agora, porque não quero esperar por uma eventual derrota para bater no que já está morto, prática useira e vezeira na mesquinhez de muito cidadão.
A entrega das candidaturas é em 2021 e a decisão final será conhecida em 2022, pelo que este ano será o último completo em que cada Cidade dará tudo por tudo para mostrar o melhor de si, no que à Cultura diz respeito. Os critérios a avaliar são “a contribuição para a estratégia a longo prazo, a dimensão europeia do projecto, o conteúdo cultural e artístico, a capacidade de realização, o impacto e a gestão”, pelo que tenho lido na CS. Na avaliação do impacto que esta iniciativa tem na vida cultural dos seus habitantes deverá, pois, ser tão ou mais importante que o impacto económico de uma Cidade que acolherá muitos eventos e visitantes, o que mexe com os negócios: gente a dormir, a comer, a comprar. Não há como não desejar isso tudo para um lugar que queira mesmo... tudo isso. Será que os Eborenses querem? Devem querer, pois em todas as candidaturas às últimas eleições autárquicas o assunto foi abordado.
O que me leva, então, a duvidar da vitória desta candidatura é, de facto, ela - e sobretudo todo o executivo municipal eborense e orgulhosamente alentejano que tem, a vários níveis, uma visão monopolista do capital cultural português - não contar com a realidade. Está, a parte maioritária do Executivo, antes a usá-la como oportunidade para investir numa área evitando ser acusado de estar a “dar circo quando era preciso pão”.
O meu pessimismo relativamente a esta candidatura, para além da escala de que já falei noutra crónica lá muito para trás[i], prende-se com a pouca adesão dos cidadãos de Évora a iniciativas culturais, o que deixa pelo menos três critérios em risco. Os caros ouvintes avaliarão quais são, se pensarem um pouco sobre o que é a vida cultural em Évora.
Não falo da monumentalidade do Centro Histórico ou no pitoresco das ruas e recantos, nem na lindíssima paisagem alentejana, na magnífica gastronomia, doçaria e vinho, que são mesmo do melhor que há no Mundo. Não falo do espectáculo na Praça onde, obviamente, se confunde o espectador interessado com o cidadão que vai dar uma volta até à cidade. Não falo do cinema de centro comercial, mas de público que, havendo um cineclube, insistia em que em Évora não havia cinema. Não falo sequer das comemorações do 25 de Abril com o seu fogo-de-artifício que, felizmente, parecem aguentar, em tempo e modo, o advérbio “sempre”. Falo de um teatro municipal que não consegue ter um programa razoável de espectáculos que circulam pelo resto do país, por razões que já soube serem em tempos politico-partidárias e que, francamente, ao fim de seis anos, só entendo como uma incapacidade de atrair propostas. Falo na existência de apenas uma livraria que seja mesmo só uma livraria. Falo em eventos que têm pouco público, umas vezes porque sim, mas outras vezes porque só se divulga entre poucos e não faz falta quem prefere estar noutro evento ali ao lado, à mesma hora. Porque estamos habituados a estar sossegados em casa e se é para sair é para ir, já agora, ali a Lisboa ao festival X ou ao espectáculo Y. Podemos mesmo ter uma agenda diversificada, que não deixaremos de ouvir que “não se passa nada em Évora”. Uma dúzia de anos, com uma meia-dúzia de cabecilhas a enfiar este refrão na cabeça dos Eborenses fez mossa. Já passaram meia-dúzia de anos e a coisa não está fácil de reverter a favor do que é preciso para ter uma certa cultura numa cidade que a possa tornar Cultural, assim com maiúscula: conhecer e valorizar o seu capital humano acrescentando-o com o património dos que cá se instalam, por cá passam, recebendo todos sem rótulos sobranceiros de “denominação de origem controlada” ou cómico-insultuosos de “não ser de cá”. Era tão bom que Évora ganhasse e a Europa toda em peso viesse cá meter o bedelho em 2027! Isso é que eu gostava mesmo.
Até para a semana.

21.1.20

125 anos de Biblioteca Pública

Os 125 anos que passaram democraticamente sobre várias bibliotecas envelhecem-nas de forma diferente. A biblioteca a que dedico esta crónica, e que festeja 125 anos, é fora do Alentejo, até de Portugal: é a Biblioteca Pública de Nova York. Não toda pública uma vez que é gerida por entidade privada sem fins lucrativos. Para começar o ano desta comemoração, provavelmente fruto do trabalho de alguns dos seus três mil e muitos funcionários especializados nestas contabilidades de rankings, publicou uma lista dos 10 mais requisitados livros de sempre, com uma adenda de honra. O que me mereceu motivo para vos falar deste assunto, a partir de Évora, foram as conclusões curtas e claras que puderam ser retiradas deste aparentemente leve exercício de comunicação e publicidade de rankings, que tanta gente desmerece; mas também foi a divertida e entusiasmante história da menção honrosa desta lista, para a qual um colega com quem interajo na minha rede de amigos no Facebook me alertou[1]. (É que cada um tem a rede social que merece e eu aprendo muito com a minha, mesmo não tendo lido o único livro de autoajuda deste ranking que, veja-se, data de 1936 e anuncia o título que trata de como fazer amigos e influenciar pessoas. Talvez os utilizadores das Redes Sociais não se dêem conta de que frequentá-las é qualquer coisa como poder dizer que se os amigos são a família que escolhemos, então os membros da nossa rede social são aqueles com quem escolhemos conviver socialmente, quando há distância e sossego para esse convívio.) 
Das conclusões publicitadas, destaco estas: os livros mais curtos circulam mais e os mais longos ficam nas casas dos leitores durante mais tempo, com mais renovações de empréstimos; como não têm livros só em inglês mas traduzidos ou originais de outras línguas, quanto mais idiomas mais empréstimos; quanto mais tempo os livros se mantêm em listas de aconselhamento para leitura nas escolas, mais leitores têm; assim como os que recebem mais prémios, os que tratam assuntos mais globais e menos locais, mais universais mas também os que tratam assuntos de que se fala mais fora do mundo dos livros, todos estes saem mais das estantes. Parecem, pois, lançadas as dicas para fazer clássicos desempoeirados e dar a perceber a quem ainda não o conseguiu, o que também é a Literatura.
A outra curiosidade é a escolha para menção honrosa de uma obra que parece ter adulterado este Top 10. Trata-se de uma obra também para público infanto-juvenil, como seis das que figuram no ranking selecto de leituras, que tendo sido publicada em 1947 só em 1972 foi adquirida pela Biblioteca e passou a morar em Manhattan, e nos polos por onde a PLNY se espalha, para ser lido à borla pelos seus cidadãos. Goodnight Moon de Margaret Wise Brown não entrou nos catálogos desta importante biblioteca porque uma, sim uma, bibliotecária, a que era responsável pelo sector infanto-juvenil, embirrou com o livro, escrito num estilo mais progressista de uma corrente que nascia noutro bairro da Grande Maçã. Anne Carroll Moore de seu nome, exerceu entre 1906 e 1952 e conhecer a sua história parece valer muito a pena. A importância que teve quer na promoção da leitura, quer na influência da vida comercial deste e de outros livros e gerações dos leitores que frequentaram aquela biblioteca, contribui para tornar mais verosímil a ideia de que a vida ou morte de uma andorinha pode trazer ou levar a Primavera. Parece um enredo de ficção, com traços de ironia poética, mas não é. Foram vidas, de pessoas e instituições. E umas fazem outras, em muitas áreas.

14.1.20

Aquilo que é impactante é aquilo que é o top



Ora bem: esta é a expressão que parece vir a substituir o pobre autoritário, e por isso ridículo em tantas ocasiões, “É assim” na expressão de argumentos em conversas mais ou menos formais. Começar a crónica que intitulo “Aquilo que é impactante é aquilo que é o top” pode parecer que quero fugir ao tema político do orçamento, ao cíclico terror sempre anunciado de um dos sempiternos geo-conflitos mundiais, ao horror dos incêndios na Austrália sem SIRESP para culpar mas com alterações climáticas a que se continuam a fazer orelhas moucas nos lugares cimeiros dos destinos políticos do Planeta. Pode parecer que quero fugir a isto tudo e mais algumas coisas, mas não. É apenas pegar nestes e noutros assuntos por um outro lado. E é voltar aos media como instrumento, instituição e fim em si mesmos na sociedade contemporânea.

Oiço muito a Comunicação Social para me manter a par das notícias e conhecer opiniões e contraditório sobre as mesmas, optando por ignorar a maioria das vezes as imagens. Percebo que os meios audiovisuais sofram muito mais agora com a necessidade de usar o que se chama no jargão “encher chouriços”. O truque de manter o microfone com som quando a imagem não mexe para evitar que o público “saia da sala” leva a conversas pouco interessantes, por vezes a roçar o “lá-lá-lá” das cantigas com falta letra e sem que esse refrão reduzido seja portador de sentido e, como tal, não redundante.

Verifico é que a redundante e irritante expressão “aquilo que é”, nas suas variações de pessoa, género e número, tomou de assalto o discurso captado pelos microfones. E proferido por gente com níveis de habilitações e, alguns com posições relevantes, que me levam a pensar que quem a usa julga tratar-se de um factor distintivo no requinte do uso da língua. Não é. Pode não significar ignorância ou pobreza de vocabulário, claro, como o repetir de certos adjetivos, mas sim um tique de pouco à-vontade ou nervosismo, o que para alguns pode ser compreensível e será para muitos, corrigível. Já o que tem correcção mais difícil é quem pense que é mais do que os outros por enrolar com as palavras quem quer ouvi-lo ou ouvi-la. Isso acontece também com o uso para tudo e mais alguma coisa dos tais adjectivos, normalmente na moda e a parecer modernos ou eruditos como ,respectivamente, “top” e “impactante”.

O que é que isto tem a ver com o OE2020, o conflito no Irão ou as alterações climáticas? Alguma coisa tem, certamente. O facto, pelo menos, de ser através dos mass media e da Comunicação Social que tomamos conhecimento e formamos opinião sobre o que vai pelo Mundo. E que se não usarmos algum tempo a pensar até sobre a forma como isso que vai pelo Mundo chega até nós, exercitando o nosso espírito crítico, talvez acabemos a usar sem nos darmos conta a opinião de outros que acham que têm mais jeito para a dar. Acham e parece que têm, quando ouvimos estas virais formas de expressão na boca de toda a gente, desculpem-me a generalização provavelmente injusta. Às vezes, os sintomas de casos graves chegam com estranhos e aparentemente insignificantes sinais.