7.7.20

Os Próximos

Termina esta temporada de crónicas da DianaFM e partimos para férias. O I Grande Confinamento Mundial, que nos manteve, de formas diferentes, próximos de uns e longe de tantos, marcou-as. A situação inédita, de caso de vida ou morte, levou naturalmente a isso. E a muito mais. Destacaria a vitória da incoerência. Ou melhor, da incoerência como outro nome para “desculpas”, esfarrapando-as.

Fomos tratando vários assuntos a propósito do tema da pandemia, tema incerto e gerador de incertezas, audácias, arrogâncias, coragens e asneiras. Hoje deixar-vos-ei uma reflexão sobre a proximidade, talvez até para que se perceba como a tal incoerência é tão pandémica há tanto tempo e pode, por isso, causar danos a quem a descubra com surpresa e não se resolva com ela.

Ao contrário da incoerência, a proximidade é uma noção de contornos positivos. “Do bem”, diríamos para sermos melhor entendidos. Mas será sempre assim? Vamos conhecendo as suas possíveis definições e os contextos do seu uso ao longo das nossas vidas. Ou das vidas de alguns. Mais do que a demagoga proximidade alardeada por políticos de ambições locais ou paroquianas, que são na sua esmagadora maioria sinónimo de cunhas e jeitinhos, interessa-me agora a proximidade entre concidadãos. Mais: entre almas que se conhecem, pelo menos de nome, reciprocamente. Interessa-me, para terminar esta série de crónicas tão marcada pela intimidade do lar, a proximidade dos que chamamos família, amigos, colegas e conhecidos. Assim, dos teoricamente mais próximos aos mais afastados.

O I Grande Confinamento mostrou também quão relativa é essa proximidade. Dos que, pelos laços familiares ou outros (os jovens em Erasmus, por exemplo), estiveram juntos confinados, terá havido os mais ou os menos ansiosos por desconfinar juntos, ou a adiar o mais tempo possível voltarem a cruzar-se numa qualquer esquina. E a proximidade da família pode ter ganho outro significado, nessa procura do reencontro. É que há os familiares tipo empresa de eventos, que exercem a proximidade em baptizados, casamentos, aniversários e funerais, o que não é pior mas de quem não se podia esperar muito nestes tempos. No lado oposto, há os familiares que sempre foram de longe, que multiplicaram as videocalls, os grupos de chat, os telefonemas fora do horário habitual, como se tivessem estado sempre juntos antes, porque de facto estavam. E foi também com a tecnologia que se pode ter descoberto que conhecidos se tornaram mais colegas de ocupações e gostos comuns, já que do zoom à troca de e-mails foi um instantinho. Poderá ter havido colegas que estreitaram laços e se consideram agora amigos, pois as sessões ao vivo vieram multiplicar a vontade de manter o contacto que afinal nos mostrou a falta que faziam as conversas de corredor ou do bar. E, sobretudo, podemos ter descoberto os amigos que nos faziam muito mais falta do que só o encontro eventual e cíclico. Enfim, distinguiram-se, nessa presença conquistada ao Grande Confinamento, outras proximidades que se revelaram afastamentos: os conhecidos que só merecem o grau básico do civismo de um cumprimento, felizmente agora ao abrigo da “etiqueta”; os colegas que dispensam o contacto que ocupe espaço e tempo para além do necessário, roubando-os ao que realmente importa; as amizades que se revelaram com prazo de validade curto e feitas de matéria facilmente perecível; os familiares de uma genética tão ténue como uma árvore genealógica desenhada para um TPC pateta ou uma cabotina busca de um pedigree perdido.

Talvez estas observações e possibilidades sejam resultado de incertezas ou de audácia arrogante na análise simplista de coisas complexas que nem a oportunidade de retiro, para pensar, chegou. Só o tempo, como com o caminho do Corona vírus, e quase tudo o resto, o dirá. Para já, desejo o melhor Verão possível a todos - familiares, amigos, colegas, conhecidos e os nada disto que me acompanharam - e que os próximos (falo dos textos de crónicas agora) nos encontrem de saúde e com bons ares. Até lá.

30.6.20

A lição de Eneias e a exaustão pela COVID19

Ensinou-me um dos melhores académicos portugueses especialista em Estudos Clássicos, Frederico Lourenço, que a lição da vida de Eneias, o herói da epopeia latina Eneida, é que o importante para levarmos uma vida sábia não é termos o que queremos, mas querermos o que temos. Está bom de ver que só um herói consegue viver tranquilamente de acordo com tal princípio, até porque tudo à nossa volta parece empurrar-nos para desejarmos até o impossível. Além de que estes tempos mais próximos são e serão tudo menos tranquilos. Se a lição de Eneias nos pode fazer parecer uns conformadinhos sem sal, viver de acordo com a pressão contemporânea vai certamente continuar a transformar-nos em stressadinhos com muitas frustrações.

Toda a conversa sobre os jovens e a sua supostamente exclusividade de inconsciência no desconfinar é bem prova de que passamos a vida a arranjar desculpas. Ou, outro exemplo, as reacções ao estilo “guerras do alecrim e da mangerona”, com um pitada de Eça, para pôr na capital de um país a fonte de todos os males. Se não fosse um assunto sério, até dava vontade de experimentar uma cerca a Lisboa por 15 dias e ver “como elas mordiam”...

Isto parte da reacção à constante procura da culpa. Mesmo que seja só para disfarçar que, afinal, ela vai ter mesmo de morrer solteira, se não quisermos ter lá parte. E tem também alguma coisa a ver com as vozes e os ruídos concorrerem entre si para que quem tem de decidir decida. Uma consequência da Democracia, o mais trabalhoso dos sistemas de governo experimentado, o que mais nos faz termos o que queremos, mas também nos responsabiliza para cuidarmos do que temos.

Quando leio e oiço o que se diz de tanto mal sobre as possibilidades de algumas das práticas a que a pandemia nos obrigou, quase me esqueço do quão mal se dizia do que e como era antes. É um bom exercício, e não apenas de um nem sempre bem entendido conformismo.

Resumindo, usamos mal o que temos ao querermos logo o que não podemos ter. Vem um vírus e não somos capazes de dizer que a melhor alternativa ao castigo é sermos habilidosos em dar a volta à situação. Claro que cumprindo regras que custam quase tanto como castigos, mas a que nos habituaremos se, em vez do ruído em que muitos se empenham, ouvirmos as vozes de quem tenha pelo menos um objectivo: que se isto nos correr bem a nós, também lhes correrá bem a eles. É preciso é que corra mesmo bem! Não é fácil, nem está garantido, porque ainda assim os imponderáveis são muitos. De qualquer modo, em caso de vida ou morte, apetece-me mais obedecer em Democracia a quem represente instituições, do que armar-me em contestatária do sistema. Conseguiria dizer das instituições o que Frederico Lourenço dizia do herói de Virgílio, há dias, numa rede social: “Muitas outras coisas me fazem gostar de Eneias – pelo menos nos primeiros cantos do poema. Gosto da falta de egoísmo dele. Gosto da preocupação com o pai e com o filho. Gosto do modo como finge estar feliz perante os outros refugiados troianos, para não os contaminar com a sua infelicidade. Gosto da maneira como Eneias consegue ser (como se diz em inglês) «selfless» em vez de «selfish». Consigo solidarizar-me com alguém que vive em prol de algo que ele considera estar acima dele. O grande problema, claro, é a natureza desse «algo».”

23.6.20

Se não fosse a falta que faz...

Esta seria a semana que, em Évora, a Feira de São João estaria a “bombar” em pleno. Será, ao que consta, a terceira vez que nos quinhentos anos de existência ela não se realiza, novamente por questões de saúde pública como terá sido na primeira pestilenta vez, diz que rezam os arquivos. Para mim seria a trigésima Feira, numerozinho redondo a marcar o número de anos que levo a contribuir para a demografia do concelho e da região.

A Feira vai fazer falta a muita gente. Aos que com ela faziam negócio e aos que nela negociavam; mas também aos que nela faziam do ócio um lugar comum, sem lista de convidados a reservar o direito de admissão. Enfim, para todos, ainda que mais para os alguns com uns euros para gastar, e para os que se reencontram pelo menos uma vez por ano, em regresso esporádico à terra natal.

Vai fazer falta aos que dependiam em parte dela para se mostrarem aos outros, em acções de divulgação ou propaganda, lado a lado, em pé de igualdade no acesso a serem expositores por uma dezena de dias, embora havendo sempre mais matéria de alguma queixa do que motivo de louvor à entidade promotora. Também vai fazer falta aos que são pelas tradições, tal como fará aos que estão fartos do que é sempre a mesma coisa e lá vão, religiosamente, mais um ano acrescentar juros ao capital de queixa.

Alívio mesmo, deve ser só para dois segmentos deste velho mercado do feirar: o alívio dos que abominam este tipo de evento, ainda para mais a empatar o dia-a-dia; e o alívio dos que vão poupar uns milhares e muita mão-de-obra e hora extraordinária a distribuir, sem serem acusados de terem feito mal em suspender o evento (é a saúde, povo de Évora, é a saúde!), nem poderem dizer que a culpa é, como estaria bom de ver mais uma vez, do governo central. Uma chamada “win-win situation” onde, como nos altifalantes dos carrosséis e carrinhos de choque também se pode ouvir, quando apregoam: “As meninas não pagam! Não pagam, mas também não andam!” Enfim, se não fosse a falta que faz, para muitos, a Feira de São João não fazia falta nenhuma.

16.6.20

À Nação valente nem sempre, nem nunca

Lá fez o PR o gosto ao dedo organizando, da maneira que quis a mais exemplar das exemplares, a cerimónia oficial do 10 de Junho deste ano bizarro e sem graça de 2020. O ano em que se comemorou pela centésima vez o Dia. Quis que fosse simbólica e não fez senão, com isso, repetir exactamente o que são todas as cerimónias comemorativas: simbólicas. Lá se estragou mais um bocadinho o uso do adjectivo. É que não foi particularmente simbólica da data mas, parece-me, muito mais simbólica deste PR.

Marcelo quis tanto, na sua magistratura, fazer comemorações no território que adjectivou como espiritual de Portugal, mas a Covid19 veio, cheia de “toupet”, estragar-lhe a festa. Quase parecendo remeter a Metrópole à sua condição contemporânea e civilizada em que já não há cá colónias fantasmagóricas a evocar. Eu sei, eu sei que o princípio é não esquecer os Portugueses que criaram comunidades fora do território-mãe, de onde tiveram de, ou quiseram, sair, mas também me apeteceu fazer o meu “simbologismo espirituoso”. A coisa pôs-se-me a jeito. Teria sido na África do Sul, a do longo apartheid, e na Madeira, que amiúde reclama, em surdina e quando dá jeito, uma vontade independentista que tem tanto que se lhe diga.

A cerimónia valeu pelo rico e pedagógico discurso do Poeta clérigo, como também era previsível. A Covid veio confiná-la a um espaço simbolicamente perfeito: o mosteiro, lugar de recato, à beira do rio que foi cais dos que conseguiram daqui sair. No ano de 2020 em que Portugal tinha ao leme das comemorações do seu centésimo dia nacional um PR superstar, o super-herói da sociedade do espectáculo em que vivemos, assistimos à vanglória de quem, perante a contrariedade, habilmente tudo faz para manter o papel principal. A tempestuosa pandemia, o palco monástico, o discurso culto e humanista de José Tolentino de Mendonça (o melhor dos que tenho memória até hoje) de acesso difícil fora de certas elites, sem palmas. Tudo isto deu ao PR, por interposta pessoa, a oportunidade de brilhar como o melhor organizador de uma comemoração, que sempre quis popular, sem Povo. O melhor organizador de uma comemoração que pouco dirá aos que representam, da forma mais boçal, o Povo de que o PR se alimenta com as selfies e os insalubres beijinhos. A provar que se festeja por, pelo menos, três motivos: para não esquecer uma data precisa- o que não foi o caso; para alegrar os convidados - o que também não aconteceu; ou para enaltecer o anfitrião, provando que ele é que sabe como é que as coisas se fazem. Não foi de valente, mas serviu-lhe.