Do fundo da infância, várias figurações dos medos atávicos parecem reconstruir-se não apenas no adulto, como na fatia da sociedade mais chamada a entender o funcionamento da máquina social. O homem do saco, o papão, ou outras personagens com que se ameaça a criancinha que não come a sopa ou se precipita para a asneira, sem mais delongas em explicações racionais e educativas, parece ter encarnado no Novo Banco. De repente, quando tudo o que diz respeito a dinheiros parece explicadinho, até na imprevisibilidade que uma certa lógica poderia evitar, salta o papão do Novo Banco, o homem que nos mete num saco e nos faz desaparecer do mundo tranquilo a que não parecíamos estar a dar o valor suficiente.
Do latim cor (coração) "de cor e salteado": conhecer algo perfeitamente. Do latim color (cor) sensação produzida nos olhos por ondas eletromagnéticas de uma certa frequência.
20.10.20
O homem do saco
13.10.20
O cansaço
Resistir, em tempos de guerra, de crise, de dor, é também não nos deixarmos vencer pelo cansaço. Tal como permitirmos que nos tratem de uma doença, como em princípio queremos, é sermos, e sabermos que somos, pacientes. Ao fim destes oito meses (meses, senhores, não são anos, não é 14-18, nem 39-45!) e com o que ainda falta até que a pandemia morra, das duas, uma: ou ajudamos a acabar com o vírus-culpado e seguimos a táctica acordada por quem tem de, e escolhemos para, governar; ou desculpamo-lo, deixamo-lo seguir o seu rumo sem remorsos, e não nos podemos queixar mais dele. Já temos um vírus, poupemo-nos à doença do cansaço de primeiro mundo, por favor.
6.10.20
Rentrée académica
Ora bolas, que o borrifo fez-me perceber que nesta crónica lá me fugiu o dedo para a ficção!... Mas estarei sempre disponível para contribuir no sentido de também esta, e não só a malfadada em que parece estarmos a viver, ficção se tornar realidade.
29.9.20
Um dos dilemas sociais
O documentário que está a passar numa rede de comunicação e entretenimento privada, originalmente intitulado “Social Dilemma”, está a ser muito falado. Até, ou talvez por isso, nos que não usam as redes sociais ou, no outro extremo, que frequentemente nelas se esvaziam em confidências. E quando digo “falado” retomo a diferença, não assim tão subtil nem com novidade, entre “falar” e “dizer”. São desabafos, suspiros, exclamações: enfim, o que se “conversa” com muros, com a almofada ou de mãos postas ao céu. Tinha até muita curiosidade em saber se quem o faz, com o coração apertado perante o horror de se sentir invadido cada vez que partilha um pôr-do-sol, um acepipe ou um gatinho fofo, não será o mesmo que aplaude a ousadia do hacker Rui Pinto em devassar para, ao que parece, desmascarar a corrupção...