22.9.20

Os Trapos

 Falar do fim da vida, a partir das coordenadas em que a taxa de suicídios foi sempre macabra imagem de marca, não nos transforma nos maiores especialistas em como lidar com as soluções para quem vê esse fim aproximar-se. Mas pode ajudar. Torna-nos mais íntimos do que é essa realidade. Embora falar de fim de vida não signifique falar só de idosos, mas de todos quantos a têm ameaçada: seja pela doença, pela guerra ou pela fragilidade social. Coisas que roem. Com excepção da natural velhice, estas situações são complexas, com causas várias e difíceis, senão de prever, sobretudo de resolver.


Envelhecer, mesmo sendo natural e desejável, desperta muitas vezes as outras condições da doença e das dificuldades em continuar integrado na sociedade. (A vida é ela própria uma actividade de risco com prognóstico certo de morte, o que podia desafiar-nos para a aproveitarmos melhor. Porque nem sempre é possível, tantas vezes, perante a contrariedade exclamamos: é a vida! Mas exclamações não são desculpas, são o fim da linha de quem fez para que esse fim fosse o mais longe possível.)

Vivermos em lugares onde estas fragilidades são a realidade pode levar-nos a uma frieza que choca os que, à distância, têm delas visões adocicadas e românticas (no sentido de histórias com heróis que salvam e em que vai ficar tudo bem). Vulgarmente até dizemos que estes dão bitaites, são treinadores de bancada, para quem é fácil falar, porque não jogam, e só se interessam pela equipa do seu clube. Quando a desgraça sobe ao palco, incomoda, choca, e mobiliza durante o tempo do espectáculo, para depois a devolver aos mesmos de sempre: os que governam o todo, os que gerem os casos, os que vivem dos casos. E nestes há instituições que integram sistemas: são os que vivem para os casos. Aqueles cujo fim é plantar e regar uma árvore da qual nem sequer sabem se terão oportunidade de receber a sombra. Aqueles que terão de estar também atentos às dinâmicas do envelhecimento: os novos idosos, diferentes dos velhos idosos. Para que, em vez de ouvirmos que “velhos são os trapos”, passemos a procurar que se lhes diga que “qualquer trapinho lhes fica bem”. A eles e a todos os que precisarem de um apoio extra para viverem, com dignidade, muito mais tempo.

Para tentarmos mitigar as dificuldades em cumprir esta tendência, tão crescente quanto a idade média de vida, também vamos ter todos de começar a pensar mais cedo em nós próprios. É que os outros serão aqueles a quem, numa determinada altura, acabaremos por ter de nos entregar. Os outros somos nós, hoje, a tratar dos nossos mais velhos. Não vale a pena tratarmos o assunto só com... paninhos quentes. Poderemos pelo menos tentar não nos tornarmos a nós próprios gente mais difícil e escolher melhor as linhas com que nos cosemos.

15.9.20

Contra o que RÓI

 De volta às crónicas, renovo o agradecimento à DianaFm pelo convite que me permite dar-vos a ouvir e a ler a minha opinião.

2020 é ano que ficará na História pelas razões que normalmente assistem a essa marcação na linha do Tempo e que certos indivíduos, pateticamente, ambicionam, multiplicando-se em habilidades várias.

Mas são as guerras e as desgraças naturais, a par das descobertas científicas, que confrontam a Humanidade e a obrigam a crescer. São factos que se constituem como balizas para se contar o que já fomos, permitindo-nos acautelar, no que for possível, o que seremos.

Em simultâneo, nestes seis meses do meio do ano, assistimos ao nascimento de uma pandemia que abalou vários sistemas que tínhamos como confortáveis mas, pelos vistos, frágeis; assistimos ao ressurgimento dos ímpetos racistas com respostas reciprocamente violentas; assistimos ao reerguer do discurso do fascismo, rebocado por um espírito contestário mais destrutivo do que colaborativo, como isco para solução fácil de problemas trabalhosos. Trabalhosas são as muitas arestas com que a Democracia se depara, por ter de contar com a participação de todos, e cujo limar depende mais do indivíduo com carácter empático, do que daquele que, à volta do seu umbigo, apenas quer ter a vidinha arrumada, normalmente com jeitinhos de fazer inveja ao próximo.

E tudo isto com a Ciência a provar ao resto do Mundo que sim, que a dúvida, a tentativa e o erro estão-lhe humildemente na base, por muito que quem a combata faça do erro a poeira com que cega crédulos, e que estes se transformem instantaneamente em arrogantes sabichões para quem o remédio está em eliminar quem não creia.

É contra o que nos rói - acrónimo também do racismo, do ódio e da intolerância; é contra o que parece ter apanhado boleia da frustrante pandemia para fazer emergir do pântano esses instintos que para vingarem, têm de se vingar em alguém, que me baterei com as palavras que vos vou deixando por aqui. E que nestes dias se revestem do enorme desgosto de ver a Évora das três culturas - judaica, islâmica e cristã-, a Évora Património da Humanidade, a Évora candidata a Capital da Cultura, poder ser cenário de quem se congrega contra a diversidade, contra o Conhecimento, contra o que é a construção humanitária e a troca pelo pseudo-solução instantânea como quem troca o ensopado feito a preceito pela sopa de pacote. O que, como todos sabemos, só engana quem ignora como isso se faz ou, por outro lado, quem sabe que poderá ficar com o ensopado que os outros se contentarão, enganados, com a sopa de pacote.

É contra tudo o que rói que continuo a usar da palavra, também aqui. 

7.7.20

Os Próximos

Termina esta temporada de crónicas da DianaFM e partimos para férias. O I Grande Confinamento Mundial, que nos manteve, de formas diferentes, próximos de uns e longe de tantos, marcou-as. A situação inédita, de caso de vida ou morte, levou naturalmente a isso. E a muito mais. Destacaria a vitória da incoerência. Ou melhor, da incoerência como outro nome para “desculpas”, esfarrapando-as.

Fomos tratando vários assuntos a propósito do tema da pandemia, tema incerto e gerador de incertezas, audácias, arrogâncias, coragens e asneiras. Hoje deixar-vos-ei uma reflexão sobre a proximidade, talvez até para que se perceba como a tal incoerência é tão pandémica há tanto tempo e pode, por isso, causar danos a quem a descubra com surpresa e não se resolva com ela.

Ao contrário da incoerência, a proximidade é uma noção de contornos positivos. “Do bem”, diríamos para sermos melhor entendidos. Mas será sempre assim? Vamos conhecendo as suas possíveis definições e os contextos do seu uso ao longo das nossas vidas. Ou das vidas de alguns. Mais do que a demagoga proximidade alardeada por políticos de ambições locais ou paroquianas, que são na sua esmagadora maioria sinónimo de cunhas e jeitinhos, interessa-me agora a proximidade entre concidadãos. Mais: entre almas que se conhecem, pelo menos de nome, reciprocamente. Interessa-me, para terminar esta série de crónicas tão marcada pela intimidade do lar, a proximidade dos que chamamos família, amigos, colegas e conhecidos. Assim, dos teoricamente mais próximos aos mais afastados.

O I Grande Confinamento mostrou também quão relativa é essa proximidade. Dos que, pelos laços familiares ou outros (os jovens em Erasmus, por exemplo), estiveram juntos confinados, terá havido os mais ou os menos ansiosos por desconfinar juntos, ou a adiar o mais tempo possível voltarem a cruzar-se numa qualquer esquina. E a proximidade da família pode ter ganho outro significado, nessa procura do reencontro. É que há os familiares tipo empresa de eventos, que exercem a proximidade em baptizados, casamentos, aniversários e funerais, o que não é pior mas de quem não se podia esperar muito nestes tempos. No lado oposto, há os familiares que sempre foram de longe, que multiplicaram as videocalls, os grupos de chat, os telefonemas fora do horário habitual, como se tivessem estado sempre juntos antes, porque de facto estavam. E foi também com a tecnologia que se pode ter descoberto que conhecidos se tornaram mais colegas de ocupações e gostos comuns, já que do zoom à troca de e-mails foi um instantinho. Poderá ter havido colegas que estreitaram laços e se consideram agora amigos, pois as sessões ao vivo vieram multiplicar a vontade de manter o contacto que afinal nos mostrou a falta que faziam as conversas de corredor ou do bar. E, sobretudo, podemos ter descoberto os amigos que nos faziam muito mais falta do que só o encontro eventual e cíclico. Enfim, distinguiram-se, nessa presença conquistada ao Grande Confinamento, outras proximidades que se revelaram afastamentos: os conhecidos que só merecem o grau básico do civismo de um cumprimento, felizmente agora ao abrigo da “etiqueta”; os colegas que dispensam o contacto que ocupe espaço e tempo para além do necessário, roubando-os ao que realmente importa; as amizades que se revelaram com prazo de validade curto e feitas de matéria facilmente perecível; os familiares de uma genética tão ténue como uma árvore genealógica desenhada para um TPC pateta ou uma cabotina busca de um pedigree perdido.

Talvez estas observações e possibilidades sejam resultado de incertezas ou de audácia arrogante na análise simplista de coisas complexas que nem a oportunidade de retiro, para pensar, chegou. Só o tempo, como com o caminho do Corona vírus, e quase tudo o resto, o dirá. Para já, desejo o melhor Verão possível a todos - familiares, amigos, colegas, conhecidos e os nada disto que me acompanharam - e que os próximos (falo dos textos de crónicas agora) nos encontrem de saúde e com bons ares. Até lá.

30.6.20

A lição de Eneias e a exaustão pela COVID19

Ensinou-me um dos melhores académicos portugueses especialista em Estudos Clássicos, Frederico Lourenço, que a lição da vida de Eneias, o herói da epopeia latina Eneida, é que o importante para levarmos uma vida sábia não é termos o que queremos, mas querermos o que temos. Está bom de ver que só um herói consegue viver tranquilamente de acordo com tal princípio, até porque tudo à nossa volta parece empurrar-nos para desejarmos até o impossível. Além de que estes tempos mais próximos são e serão tudo menos tranquilos. Se a lição de Eneias nos pode fazer parecer uns conformadinhos sem sal, viver de acordo com a pressão contemporânea vai certamente continuar a transformar-nos em stressadinhos com muitas frustrações.

Toda a conversa sobre os jovens e a sua supostamente exclusividade de inconsciência no desconfinar é bem prova de que passamos a vida a arranjar desculpas. Ou, outro exemplo, as reacções ao estilo “guerras do alecrim e da mangerona”, com um pitada de Eça, para pôr na capital de um país a fonte de todos os males. Se não fosse um assunto sério, até dava vontade de experimentar uma cerca a Lisboa por 15 dias e ver “como elas mordiam”...

Isto parte da reacção à constante procura da culpa. Mesmo que seja só para disfarçar que, afinal, ela vai ter mesmo de morrer solteira, se não quisermos ter lá parte. E tem também alguma coisa a ver com as vozes e os ruídos concorrerem entre si para que quem tem de decidir decida. Uma consequência da Democracia, o mais trabalhoso dos sistemas de governo experimentado, o que mais nos faz termos o que queremos, mas também nos responsabiliza para cuidarmos do que temos.

Quando leio e oiço o que se diz de tanto mal sobre as possibilidades de algumas das práticas a que a pandemia nos obrigou, quase me esqueço do quão mal se dizia do que e como era antes. É um bom exercício, e não apenas de um nem sempre bem entendido conformismo.

Resumindo, usamos mal o que temos ao querermos logo o que não podemos ter. Vem um vírus e não somos capazes de dizer que a melhor alternativa ao castigo é sermos habilidosos em dar a volta à situação. Claro que cumprindo regras que custam quase tanto como castigos, mas a que nos habituaremos se, em vez do ruído em que muitos se empenham, ouvirmos as vozes de quem tenha pelo menos um objectivo: que se isto nos correr bem a nós, também lhes correrá bem a eles. É preciso é que corra mesmo bem! Não é fácil, nem está garantido, porque ainda assim os imponderáveis são muitos. De qualquer modo, em caso de vida ou morte, apetece-me mais obedecer em Democracia a quem represente instituições, do que armar-me em contestatária do sistema. Conseguiria dizer das instituições o que Frederico Lourenço dizia do herói de Virgílio, há dias, numa rede social: “Muitas outras coisas me fazem gostar de Eneias – pelo menos nos primeiros cantos do poema. Gosto da falta de egoísmo dele. Gosto da preocupação com o pai e com o filho. Gosto do modo como finge estar feliz perante os outros refugiados troianos, para não os contaminar com a sua infelicidade. Gosto da maneira como Eneias consegue ser (como se diz em inglês) «selfless» em vez de «selfish». Consigo solidarizar-me com alguém que vive em prol de algo que ele considera estar acima dele. O grande problema, claro, é a natureza desse «algo».”