9.10.18

Quem são os eleitores de Bolsonaro?

O processo eleitoral no Brasil vai a meio e reduzido a dois candidatos. A surpresa foi relativa. Os dois que passaram à segunda volta, tão distantes e desequilibrados nas votações, o que deixa muito pouca margem para reviravoltas, integram Partidos de campos ideológicos diametralmente opostos. O centro, no Brasil, já se esvaziou. O País irmão na Língua mantém-se há séculos como uma nação caracterizada por profundas desigualdades sociais, tão mais evidentes e chocantes quanto maiores são os avanços civilizacionais nas sociedades ocidentais com que se relaciona. Estes são os factos, julgo que indiscutíveis.

Os que fazem parte da minha rede de conhecimentos votarão, creio, contra Bolsonaro mais do que no candidato do PT. Não porque não reconheçam que foi com Lula e Dilma que o País conheceu o melhor e maior salto qualitativo nas condições de vida do Povo brasileiro, mas porque não se consideram da extrema-esquerda. Aliás, ambas as legislaturas destes dois Trabalhistas se revelaram pouco alinhadas, em termos práticos, com o discurso populista de extrema esquerda: tudo a toda a gente e os ricos que paguem as crises. E o Povo acabou por não lhes achar graça e, talvez por isso mesmo, porque governar não pode ser assim. Nem num País que gera tanta riqueza como o Brasil. E a Venezuela, já agora. Quanto ao facto de os dois se terem visto a braços com a Justiça, um deles condenado e preso, relembro que deste lado do Atlântico um concelho tido como o que tem mais massa crítica entre os recenseados, também elegeu um condenado com pena cumprida.

Mas voltando ao discurso, desta feita o populista da extrema-direita de Bolsonaro: este parece não enganar ninguém quanto à violência que promete. E é isso que se torna verdadeiramente assustador. É que o homem promete acabar liminarmente com pessoas, executando, expatriando ou usando outra qualquer forma de desintegração. E como justificação para cortar pela raíz todos os males. O que para xenófobos nacionalistas e candidatos a elitistas de diversas margens, os “wanna be” portanto, se justifica pela promessa de se caminhar para uma espécie de nova ordem. Imaculada, asséptica, próspera... como não existe em lado nenhum, muito menos em regimes ditatoriais e fascistas. Nesses até podem mostrar-se fachadas com todos esses adjectivos. Mas para o Povo disso tirar frutos? Ou seja, para todos?!

É nos momentos de eleições livres e democráticas que esse Povo pode escolher governantes como Bolsonaro. E, de repente, visto assim de longe e pela lente da Comunicação Social (e esta, mostra ou cria imagens?) parece que meio-mundo no Brasil embarca numa espécie de Carnaval fora de horas, disfarçando-se de gente a quem só a bandidagem - pobres, negros e homossexuais no topo - parece empatar-lhes as vidinhas. E lá vemos o Povo, aquele que até beneficiou com o avanço social dos outros tais governos, o mesmo que também gritou “Fora Temer!”, depois de dizer “Tchau quirida!”, o mesmo Povo - ou será outro Povo? - que até parece que, tendo os benefícios chegado a ele, escusam de continuar a chegar aos que vêm depois. Como diziam os outros do lado de cá: “o Povo pá? O Povo quer dinheiro para comprar um carro novo!” Será este o Povo injustiçado em nome de quem um dos extremos luta? Ou o Povo que se deixa embalar por quem lhe sussurra ao ouvido que deixará, imagine-se, de ser Povo?

2.10.18

Cá no Faroeste


Temos assistido a episódios que resultam em crimes, veredictos, morte que, num certo imaginário livresco ou cinéfilo , parecem transformar este país ocidental da Europa numa espécie de Faroeste. Falo do roubo de Tancos, da atitude dos juízes que absolveram violadores no Porto e da morte planeada do triatleta no Ribatejo. Roubos, violações, assassinatos, tudo isso, nós sabemos, que a ficção apenas vai buscar à realidade. Existem. Mas existem também, nas sociedades organizadas e contemporâneas, instituições que, pela sua acção, não apenas e só punitiva, servem para prevenir, de forma exemplar e regrada, esses actos que põem em causa o bem estar social.

Ora, no caso de Tancos parece que assistimos a um extremoso zelo em manter intocável uma “vaca sagrada” que é a instituição militar; no caso do Porto, a uma arbitrariedade com pouco uso do bom-senso por parte de membros de topo da Justiça ; e no caso do Ribatejo, a uma frieza de uma assassina, ainda que por julgar, perante câmaras e microfones da Comunicação Social, como se esta se prestasse, contaminando o imaginário contemporâneo, a constituir-se como uma eficaz testemunha abonatória.

Se é característico da contemporaneidade o alarde público como instrumento de incentivo à vigilância do cumprimento de regras, sobretudo dos poderes públicos, parece que o uso alargado desses instrumentos da Democracia corre em velocidades e habilidades diferentes por quem os usa. É que nem as “vacas”, militares ou judiciais, poderão manter-se “sagradas” só porque sim, num dos extremos, nem os “direitos de antena” estão isentos de cumprir um dever de não atentar contra a inteligência de quem são os destinatários das peças noticiosas, confundindo o bom uso que delas se possa fazer. E não, não estou a defender uma outra forma de censura. Estou a falar do que deve ser mantido com a discrição útil para que as denúncias tenham peso real, para que uma banalização não implique uma sacralização da bugiganga, voltando à velha questão das boa e má moedas.

Os excessos, fora das paixões que são os lugares onde estes podem acontecer, e até aí dentro de limites mas fora de falsos moralismos, os excessos podem conduzir-nos a esta ideia de um Faroeste sem lugar certo. Do excesso de zelo ao excesso de complacência, resultando um em perseguição e outro em bandalheira, vemos ainda assim neste jardim à beira mar plantado, acontecerem casos que deles resultam. E isso não é nada saudável para a Democracia.

25.9.18

O triste boicote à Cidade Educadora

Évora voltou a ser falada na Comunicação Social pelas piores razões. A Cidade património da humanidade, o território livre de armas nucleares, a candidata a Capital Europeia da Cultura, a Cidade Educadora, na semana de reabertura das escolas às crianças em Portugal fechou tacticamente três escolas. Isto porque a Câmara Municipal permitiu que os seus trabalhadores com funções de auxiliares de educação não fossem para todas as escolas onde deveriam estar, sabendo nós todos que se o óptimo é inimigo do bom, o zero é o pior mesmo perante o insuficiente. E se durante as férias escolares, estes funcionários da Câmara provavelmente também servem para trabalhar noutros equipamentos e eventos municipais, em caso de crise o contrário também seria uma possibilidade.

Aquilo que sucedeu na primeira abertura de ano lectivo da responsabilidade da actual Vereadora do pelouro, face a uma situação que, não sendo nova, está longe de ser a pior dos últimos nove anos, tempo de vida do contrato de transferência de competências na área, exigia gestão. Como exigiu nos anteriores dois mandatos, de cores partidárias diferentes, mas em que o esforço de cooperação e diálogo, e que tempos foram de adversidades várias!, valeram inícios e anos lectivos relativamente tranquilos. E o rácio era outro, mais apertado, bem como maiores eram, quer o número de crianças nas escolas, quer, por exemplo, o número de escolas básicas abertas em freguesias rurais (se não me falham a memória e as fontes disponíveis ao público, em 2009 eram 10, em 2018 são 7). Afinal, nesta primeira prova de esforço, o que se viu por parte de quem tem a responsabilidade municipal no assunto foi uma espécie de “assim não vale, vamos desistir”.

Os que julgam que o que provocou o encerramento dessas escolas foi uma inevitabilidade, desenganem-se. Até porque, como todos já sabemos, para os Comunistas as inevitabilidades não existem e, como tal, escusam de combater com essa arma que repudiam os que se vêem, perante uma inevitabilidade, na necessidade de reorganização e adaptação de forma a prejudicar o menos possível a maior parte dos cidadãos. Este arranque de ano lectivo foi toda uma jogada de um plano maior que é a não aceitação liminar, e por isso sem negociações, da descentralização. Esta é uma importante fase da Democracia portuguesa – e se ela o é para os que defendem o poder Local! – que está em discussão de forma a vigorar a partir de 2021, ano em que serão as próximas eleições autárquicas.

E foi uma jogada que mexeu no que talvez seja, a par da saúde que todos temos e desejamos ter para sobreviver, o que mais influência tem no desenvolvimento de um País, uma região, um concelho: a educação. Tratou-se de um boicote para exigir um bónus acima da lei que tantas outras autarquias, até com iguais dificuldades, cumprem, pondo o seu empenho no bom funcionamento das suas escolas naquilo que delas isso dependa. O boicote é um tipo de actuação com uma história que data do século XIX, quando um gestor de terras que não eram suas resolve comportar-se como um tirano com os que ali trabalhavam, em nome de uma boa gestão dessas propriedades, e estes se recusam a servi-lo, votando-o ao ostracismo e, claro, fazendo com que a situação dessas terras ficasse ainda pior. Esta forma de luta foi depois usada para causas onde o interesse colectivo se punha em primeiro plano, não sem óbvias privações para quem boicota, e servindo actualmente sobretudo para combater monopólios, ou seja interesses financeiros lesivos do bem-estar social. O boicote é uma forma extrema de luta que, banalizada e pondo em causa instituições geridas por dinheiros públicos, se torna perigosa para uma sociedade democrática. Para além de, por isso mesmo, ser consequentemente uma atitude deseducativa que promove o descompromisso, interrompe a procura de alternativas equilibradas e desmotiva aqueles que mais do que investirem no capital de queixa se poderiam dedicar a procurar soluções para o que motiva a queixa. E tudo isto se passou numa Cidade que se quer continuar a dizer Educadora. Não espero nada de bom de exemplos de desgovernos de proximidade como estes, já que é pelo exemplo daqueles com quem se convive que melhor se educa.

18.9.18

Do Verão com frugalidade

É com muito gosto que retomo o convívio com os ouvintes (e leitores) da Rádio Diana em mais uma edição das Crónicas de Opinião. Este ano não me impus uma linha rígida para reflectir convosco sobre o que nos, ou me, vai marcando o passar do Tempo. Vou, com a vossa licença, deixar fluir.
O Verão passou-me sem que conseguisse espaço de evasão, com uma incapacidade alheia a vontade própria de me desligar de factos e notícias que foram acontecendo. Hoje, para começar, aflorarei uma meia-dúzia. A eles voltarei seguramente, ou porque se prolongarão, ou porque se repetirão, ou porque deles outros factos e notícias hão-de nascer. Vou fazer uma espécie de balanço de alguns dos que, na pausa, realço como positivos ou negativos. Pensei que havia de encontrar, nos dois lados, igual número de assuntos que versassem sobre o que gostei ou não. Não consegui, e os primeiros dobram os segundos. Afinal, há que saber, de quando em vez, seguir um natural instinto sem o contrariar, e humanamente reclamar mais do que elogiar. Começo pelo que foi negativo, para depois terminar com as notas positivas.

1. Porque o mundo não pára para ir de férias, as tragédias continuaram a acontecer, com especial relevo para as da época: os incêndios. Se o assunto é mau, não posso deixar de pensar que, apesar de tudo e entendendo revoltas várias, foi menos mau não termos de chorar as mortes que os incêndios podem causar. 2. Porque ir de férias também pode implicar dar férias a outros, não posso deixar de sentir uma certa “vergonha alheia” pela figura que o Presidente da República fez questão de fazer durante o que chamou as suas férias. O que, no meu entender, não é a mesma coisa que ir de férias para um sítio – a Manta Rota, por exemplo, ou o Vau - e ter a comunicação social a “cobrir” rotinas privadas. De um PR exige-se uma certa gravitas, por muito que ser popular seja um programa político disfarçado de naturalidade. 3. Porque não se pode exigir de todos os outros, sem complacência nem direito a justificações, e se crucifiquem pelos seus erros e incoerências, ao abrigo de uma não sei bem que impunidade, o caso de Ricardo Robles – cordeiro sacrificial de um colectivo tão populista como o programa de férias da individualidade anterior -  não deixa de ser mais uma acha para alimentar a fogueira injusta onde se queimam, afinal sem excepções e com algumas mortes simbólicas, todos os políticos. 4. Porque do ridículo também se podem tirar muitos motivos de reflexão, assinalo a contestação ao Festival do Caracol de Loures levada a cabo por um grupo de gente que, não sei se por semelhança com o miolo do caracol ou com a aparente arrumadinha postura do invertebrado, resolveu fazer o seu “numerozinho”.

De positivo, realço a dignidade dos comentadores de ciclismo da nossa praça, já que ouvi muito do Tour de França e da Volta a Portugal, uma superioridade que cresce quando se assiste ao nível tão baixo a que o comentário de futebol chegou por parte dos que se aperaltam para ir à TV. Aliás, com eles contrasta também o nível de civismo dos jogadores que, numa perspectiva histórica, quem joga à bola vai tendo. Força rapaziada!, sejam rapazes ou raparigas quem faz rolar a bola. E, para terminar, falo-vos de uma reportagem que só apanhei uma vez na TV em que se mostrava como o novo director de serviços das Urgências do Hospital de Faro – aquelas que pareciam um cenário de filme de guerra – pôs fim ao caos e as coisas correm normalmente, como seria de desejar. Tão normalmente que, como tudo o resto que assim é, nem é digno de notícia. Ou de imitação por parte de outros, já agora.