13.6.17

O truque Salomé

Um pouco por todo o país, cidades, vilas e aldeias, vão nascendo os enfeites da época. Ao lado do cartaz personalizado da empresa imobiliária, alinham-se outros com as poses não menos apelativas, em princípio, das candidatas e candidatos aos diferentes lugares dos órgãos que vão a preencher nas próximas eleições.
As eleições são, ao mesmo tempo, a semana da recepção ao caloiro e da queima das fitas, comparação que quem vive em cidades médias onde há universidades, entenderá bem melhor do que quem vive em cidades universitárias ou nas outras que não têm instituições de ensino superior de espécie alguma. Faço a distinção entre cidades com universidade ou politécnico das que são cidades universitárias, porque mesmo ao fim de muitas décadas, e em alguns casos séculos, nem todos os cidadãos convivem bem com essas instituições que lhes alimentam a vida social e, não menos importante, a económica. E como as Cidades são o resultado do conjunto dos seus Cidadãos, há que identificá-las com aquilo com o que os Cidadãos se identificam. Em Évora, por exemplo, a Universidade não será certamente, ainda, o elemento agregador colectivo do eborense comum que lhe permita intitular-se cidade universitária. Já em Coimbra, creio, não se pode afirmar o mesmo. Mas adiante, que a crónica é sobre cartazes e não sobre universidades.
A espessura das mensagens que se transmitem em cartazes de pendurar ao sol e à lua, como sabemos, não pode desejar-se muita. É o slogan curto que fica, que evoca, ou desequivoca, ou equivoca campanhas com safras melhores ou piores. É a micro-mensagem tantas vezes engolida como um grumo de laranja no sumo do fruto espremido, apenas visível à lupa de quem tenha por gosto ou obrigação procurar os sentidos mais subliminares.
A Salomé Castanheira, candidata à presidência de uma Junta de Freguesia em Águeda, profissional do assunto (não assunto de juntas de freguesia, mas de comunicação com as massas e respectivo ramo do marketing!), já começou a dar cartas, ou melhor cartazes, que logo deram também que falar. Ao apresentar fotografias individuais de gente comum com sorrisos, que se nos apresentam com o seu nome próprio mas que nos pedem, dizendo ainda assim que é uma opção nossa, para os tratarmos por Salomé, a candidata deles. O truque está engraçado e mesmo podendo ser sinónimo de outro slogan, contorna o seu efeito negativo, já que o “Somos todos” qualquer coisa é fruto de outra realidade negra, demasiado presente nos dias que correm.
Se o slogan “Somos todos” qualquer coisa é uma reacção ao terror que se passou, não me deixa menos margem para especular nos mesmo tons cinzentos o “Podem-me chamar Salomé” das autárquicas em Águeda. Tratando-se de uma iniciante nas lides - novata ou noviça que, ainda assim, como ela própria diz na sua reacção ao efeito viral da gramática propagandística que escolheu, será “só” presidente de Junta – a identificação dos seus fregueses com ela não é já só uma reacção, mas uma projecção. Eu cá se fosse aos fregueses daquela parte de Águeda pensava mesmo bem antes de deixar que me tratassem por Salomé... É que a mais famosa das “Salomés” que conheço mora no Novo Testamento e é apontada como responsável pela execução do profeta João Baptista ao seduzir, com danças e meneios, o velho tetrarca Herodes.  Ai Salomé, Salomé! o mal que nos deixaste ficar a nós, também mulheres...
Atenção, pois, aos meneios e sorrisos e truques propagandísticos e não se deixem levar a brincar à Democracia. Que nada disto vos impeça de querer saber para escolher e de saber exactamente a quem vão pedir que vos preste contas.

6.6.17

Adoptar

Este ano, em Portugal, acordámos no Dia da Criança com a notícia de que, em 2016, 40 crianças em regime de pré-adopção foram devolvidas aos cuidados do Estado. Não sabemos os motivos, claro está, e esquecemos de perspectivar os números, porque nem que fosse uma só criança o motivo para a tristeza privada de cada um já seria suficiente. Mas no plano do público, importa talvez referir que, nessas condições de pré-adopção, se encontravam mais de 350 crianças. Aquelas 40 crianças não podem fazer de um só alguém um Ali Babá ou o seu irmão ganancioso... Houve mais de 300 que fizeram com que famílias ganhassem crianças (e obrigações, e dores de cabeça, e condicionantes várias) e que crianças tivessem novas famílias que, desta vez sim, as desejavam (e de quem receberão mimos e ordens, regras e cuidados, alegrias e tristezas). No plano privado, também parece que a idade das crianças devolvidas parece inflacionar o choque e acicatar os ânimos de tantos casais à espera de um bebé feito por outros mas destinado exactamente a estes pacientes pais, e restante família e amigos, que, não tenhamos dúvidas (ou teremos?), os recebem sempre de braços abertos. Como se as situações que despoletam o conflito que leva à devolução não fossem tão ou mais traumatizantes em crianças mais crescidas... E como se adoptar uma criança, mesmo quando ela nos sai de dentro, fosse fácil, instintivo, óbvio e portador de uma constante felicidade mútua.
Adopção é sinónimo de acolhimento e aceitação, para além de ser um processo, também judicial, que se define pela aceitação espontânea de alguém como filho, respeitando condições juridicamente definidas. É quando o Estado se substitui à Natureza e faz nascer numa família uma criança. Mas como o Estado não é a Natureza, a quem respeitamos iras e fenómenos, caprichos e desastres, os processos têm de ser cuidadosos, criteriosos, dependentes de uma ideia de culpa onde não deve haver lugar a erros que, tantas vezes, aceitamos à Natureza, inclusive atribuindo-lhe uma vontade divina e não lendo precipitadamente o erro como pena aplicada aos seres humanos. Os contos e as lendas é que fazem bem esses curto-circuitos entre o divino e o humano e a explicação mágica do imprevisto infeliz. (E parece-me, já agora, que o tal Trump, nem no mês do Dia Mundial do Ambiente, se coibiu de escrever o seu próprio conto de fadas e ignorar que há coisas da Natureza que são mesmo responsabilidade do ser humano que, quer queiramos quer não, faz parte dela... mas adiante.)
A devolução daquelas 40 crianças não tem só de dizer mal de alguém ou de alguma instituição. É a prova de que nem todos estão preparados para ser pais e isso assume-se. E até mesmo os que cumprem os deveres exigidos para se ter direito a ser pai, biológica ou legalmente, o fazem tantas vezes com erros. São os seus erros e as suas crianças, e só o crime ou o Tempo poderão alterar essa condição. Devolver uma criança é assumir a incapacidade ou o erro de se querer ser mãe ou pai. Quando se aguenta até à autonomia essa obrigação, devolvemo-los, melhor ou pior, à sua própria Vida. Quando se tem um filho porque sim, ou por descuido, ou por amor (a outro ou a si próprio), ou por instinto hormonal, ou por tradição, ou por obrigação, em todos os casos, há sempre um período de pré-adopção que é o prelúdio do que desejamos que seja uma vida melhor. Quero acreditar que, quando o Estado recebe estas crianças devolvidas, está só a evitar que tenham uma vida pior. Ainda pior. 

30.5.17

O código de Manchester

Estou quase a acreditar num milagre. Incrédula rendida que sou perante todas as razões tão bem montadas que justificam a existência de uma entidade superior que nos comanda a Vida, oiço-as com atenção quando dizem respeito ao uso que fazemos de um livre-arbítrio que nos terá sido concedido a todos, nós os seres humanos, indiscriminadamente. O livre-arbítrio é o espaço e o tempo que, nessas narrativas e seus comentários, uma qualquer entidade superior nos concedeu para que nós, os seres racionais, pudéssemos, dentro das nossas impostas e fatais limitações, escolher como utilizar o nosso tempo em Vida e o caminho que lhe vamos dando. Fácil acreditar nisto, quando se percebe o que isto quer dizer: que “não adianta olhar para o Céu com muita Fé e pouca luta”, como diz o cantor poeta com nome próprio de anjo.
O que qualquer religião faz neste universo de que conhecemos uma parte tão pequenina, mas tão valiosa, é uma tentativa de regular a Vida que cada um de nós nela vive. E como o fazem de formas tão várias mas tão irrepreensíveis nos textos que as constituem e que são o fundamento de cada uma delas! Mesmo aquelas cujo texto circula ancestralmente num suporte apenas feito da memória que passa de boca em boca e que as outras, as dos livros e das instituições bem organizadas, tantas vezes chamam seitas, confundindo-as com o sempre presente nas suas próprias crenças tão documentadas, com o fanatismo.
Esta semana não podia deixar de falar em Manchester. E dessa noite de massacre, onde sobretudo o de crianças e jovens nos choca mais, parti para uma noite já com alguns anos (corria talvez o ano de 1999) em que de Timor nos chegavam as imagens da fuga de famílias, durante a noite, para as montanhas e em que uma criança, ao cair, se controlava num choro mudo. Tão diferente do que estamos habituados a ouvir às nossas crianças quando fazem um simples arranhão... Uma prova de que mesmo pequeninos nos habituamos a tudo, infelizmente até àquilo que está mal, faz sofrer e não devia ser uma fatalidade designada por uma entidade superior que nos comandaria a Vida. Vamos aprendendo um novo código.
É um código de sobrevivência o que se continuou a escrever em Manchester. Um código que reage ao outro código, o que também vem nas narrativas fundadoras de qualquer religião ao lado da crença que dá muito mais valor ao que encontraremos depois da Vida do que durante a Vida. Um código de resistência a roçar a banalização, este que aprendemos. Mas um código que coopera com os outros, os das instituições, se calhar com prazo de validade, pois vamos tendendo, perigosamente, a perder a confiança com a persistência dos massacres. Uma cooperação que não pode fazer delas, das instituições, uma entidade igual àquela entidade superior em que alguns, muitos, crêem. Mas cooperar passará também por cada indivíduo, em lugares e tempos vários e com forças diferentes, fazer parte delas, dessas instituições. E a isso também se costuma chamar Política ou Cidadania. 
Estou quase a acreditar num milagre que não é bonito de imaginar, nem transmite fé, nem esperança, embora aconteça, felizmente, muito mais vezes do que certos acontecimentos, inaugurais ou actuais, em que alguns nos querem fazer acreditar, e que relatam em tão bem construídas, demasiadas vezes treslidas, narrativas. É o milagre de encontrar quem use o livre-arbítrio, a que eu gosto também de chamar inteligência, para fazer o que qualquer entidade criadora superior, a existir, deverá ter como desígnio para as suas criaturas: valorizar toda esta Vida que conhecemos, a nossa mas também, e tanto, a dos outros.