8.11.16

Orçamentos

Orçamentos são documentos que servem para gerir o dinheiro que se tem na aplicação daquilo que se faz ou quer fazer. Quando se quer fazer mais do que o dinheiro que se tem ou se pensa vir a ter, há que ir buscar fora, pedindo emprestado e contraindo dívida que, de uma maneira ou de outra, tem de se prever como pagar. Nesta gestão, é importante saber quanto dinheiro se tem e se quer ter para fazer uso dele e, acima de tudo quando se gere o dinheiro de todos os que contribuem pagando taxas e impostos, onde é que se vai usar o dinheiro revertendo em benefício desses todos. Tirando isto, um orçamento de um organismo público e sem fins lucrativos, é um instrumento de alta precisão na área dos números e das contas, que implica que no final, entre os ganhos e as despesas, tenha que dar zero. Se não der para cima, há quem opte por redistribuir à última hora em actividades ou materiais que, não tendo sido necessários naquele período, possam talvez vir a sê-lo no período seguinte. Se não der para baixo, ou seja se afinal nem com dinheiro próprio nem com emprestado consigo fazer face a todas as despesas, haverá quem fique sem ser pago ou projectos que não chegam a avançar ou concluir-se nesse ano. Há depois toda uma série de formas para resolver estas questões, tirando de um lado e pondo do outro, imaginando mais ganhos sabe-se lá onde, e as contas lá se fazem para dar, imagine-se, o tal zero.
Um orçamento torna-se, no sector dos assuntos da política, a metáfora das boas contas. Aprovar um orçamento é poder governar aplicando, então, os dinheiros da maneira como se propôs. Chumbar um orçamento significa ter de ir gerindo mês a mês a mesma quantidade de dinheiro do período antecedente, sem perspectivar para além do mês seguinte. Chumbar um orçamento torna-se, em termos práticos, no retirar sem ser pela eleição democrática a possibilidade de quem está no governo governar. E, por tudo isto, discute-se o orçamento que se quer aprovado para se dizer que se está a ser rigoroso, cumpridor, transparente, certinho. Ora isto é o máximo que se pode dizer de um governante ou candidato a tal!
Mostrar as contas certinhas ou acusar de que as mesmas nunca passarão a “prova dos nove” - numa linguagem que o cidadão comum (aquele mesmo a quem vão servir os resultados de aplicação dessas continhas) dificilmente entenderá e sobre a qual parece que se podem fazer tantas leituras como as de uma obra-prima literária - é o mesmo que dizer que se discute o orçamento para se discutir a capacidade de quem o apresenta. Como se as contas e as verbas, em linguagem de números arrumados em rubricas, fossem a tradução de auscultações ao que está bem ou mal na vida daqueles para quem se gere. E quando a auscultação também se faz nas urnas, para além de um trabalho diário que deve ser o de qualquer político a tempo inteiro, na governação ou na oposição, sobretudo o eleito mas também o nomeado para cumprir o que os escrutinados pelo voto se comprometeram a fazer, então percebemos que a discussão pública de um orçamento, que pode ter momentos de discussão interna nada fáceis, é o momento de palco, arena ou ringue, do combate aceso entre adversários ou, como também acontece, entre todos, mesmo adversários entre si, contra um outro que é o alvo a abater.
Em toda a minha vida já votei vários orçamentos, mas os oito orçamentos municipais que já levo em cima, e que até no meu mundo académico corresponderiam a uma licenciatura com mestrado integrado mais parte do curso de doutoramento, retiraram-me qualquer veleidade em sentir-me uma licenciada em tal. Frequentei mas não obtive um grau que deixo para ser exercido a quem tenha a pasta e a equipa das finanças. E foi também por isso que aprendi nos sete anos que levo de vereadora que, no último dia deste mês de Outubro, votei o orçamento municipal de Évora afirmando, e cito-me: «Avaliar um orçamento acaba por ser avaliar uma proposta que, obviamente, nunca se pautará por intenções que não sejam benévolas, até mesmo quando não se concretizam.» Para terminar dizendo que iríamos «mais uma vez, dar o benefício da dúvida ao orçamento deste ano abstendo-nos. Contrariar por contrariar um orçamento seria só protestar por protestar, o que não faz parte da nossa postura, e não deve obstaculizar, por só mais um ano, e um ano de eleições, a que a CDU cumpra todas as melhorias a que se propôs e que prometeu aos Eborenses.».

2.11.16

Santinhos

Uma vez que a crónica vai para o ar no dia de Todos-os-Santos, ocorreu-me que aqui estaria uma palavra também já caída em certos usos no domínio da metáfora. Os preceitos canónicos dizem que, de morto a santo, têm de decorrer alguns anos, se bem que o prazo tenha vindo a encolher com a velocidade furiosa pela qual os tempos contemporâneos se pautam e, em menos de um ai, vi gente que foi da televisão ao panteão.
Fora ou dentro da religião, o santo é e será sempre sinónimo de puro, perfeito, incorruptível, verdadeiro, autêntico, sincero, imaculado, impecável, perfeito, e por aí fora. E quer-me também parecer que, ou se acumulam os adjectivos ou, tenham paciência (de santo até!) e é-se apenas uma meia-dose de santo. Bem ou mal servida, vai depender do tempo que convivamos com tal personagem e percebamos se essa parte não é compensada por outra, a que cai no domínio oposto, e que talvez seja a dos endemoninhados.
Quando o termo se transforma em metáfora vai por aí fora a dessacralizar-se até à banalidade e, por vezes, ganha até o carinhoso diminutivo. E não se iludam porque quem chama outro ou outra de santo ou santinha é porque o milagre – com muitas aspas – foi em seu benefício próprio e não para bem da humanidade. Mais do que virtudes heroicas em geral, o santinho fez-me foi um grande favor.
Claro que também aplicamos o termo às crianças, sem modos interesseiros em princípio. Mas até aí quem de facto sai a lucrar parece ser quem tem de conviver com esse tipo de cachopos. E aliás, quando usado com ironia, chamar a um adulto santinho ou santinha é um tudo nada insultuoso. Sendo que, no feminino, sobe, em certas circunstâncias, uns escalões na régua do escárnio e maldizer. 

Beatificação natural, diria, é a que no entanto sucede quando os que nos são próximos e de quem gostamos mesmo muito partem para sempre. Que, enfim, é muito tempo mas onde todos acabaremos por chegar. É a beatificação da memória selectiva, a que é filtrada pelo coração que é a parte do corpo onde guardamos todas as emoções e onde também guardamos os corações que pararam. Para sempre. Sem ironias e com a dor que nos faz às vezes esquecer que afinal é tudo só uma metáfora, isso do lugar que é o coração. 

25.10.16

Reality show(s)?

Na semana que passou marcou-me a perseguição policial “à filme” no mundo rural português. Mas também certas intervenções de quem por obrigação profere opinião em público através da apreciação de um dos documentos mais labiríntico que deve haver na administração pública, inflamando o que, se se concretizassem boatos, podia ter sido um descalabro mas afinal não foi. Às palavras da ministra Francisca Van Dunem fui buscar o mote para esta crónica que fala de realidade e de show e do que acontece quando as duas palavras se juntam.
O reality-show é um género televisivo que vai buscar partes à informação e ao entretenimento, ao drama e ao documentário, à ficção e à realidade. O termo, aplicou-o a senhora ministra ao que não devia ser a forma como está a ser tratado o caso da “fuga de Pedro Dias”, já que o conceito se estendeu e, actualmente, parece tornar-se metáfora de tudo o que tendo a ver com a realidade não deixa de ser apresentado como um espectáculo de entretenimento. No fundo, na metaforização do conceito passa-se um pouco o inverso do que acontece efectivamente num reality-show, onde se cria a ilusão de o espectador participar mesmo e não ficar apenas de fora passivamente. No uso metafórico, é quando o que é mostrado do domínio do privado ou do restrito é como se fosse público e servisse para assistirmos de camarote, testemunhas não participantes.
O sucesso de audiências dos reality-show será também consequência do facto de o cidadão anónimo se ver retratado no ecrã da televisão onde, até há um par de décadas pelo menos, só apareciam especialistas, políticos ou celebridades. É que o que atrai neste tipo de programa de televisão é a imagem de uma autenticidade e genuinidade, em que os que ocupam o ecrã sejam eles próprios e ganhem a simpatia dos que do outro lado com eles se identifiquem e até possam, em alguns casos, interferir no próprio programa. Este é um modelo em que outros, como os de opinião pública, vão buscar por vezes inspiração, com a participação em antena chamada aberta. No fundo, os reality-show são um elogio da banalidade.
Se devidamente classificados e confinados a determinados horários ou canais de televisão, não nos sentimos apanhados por este tipo de programa se com ele nos cruzarmos. Triste é quando os assuntos que merecem discussão séria – e um orçamento é-o para os partidos e para as instituições e indivíduos, tal como a justiça na morte de homem tem de ser para uma sociedade civilizada – são tratados por gente que o devia entender assim mesmo, como assunto sério, se de um reality-show se tratasse.
Não falo dos comentários em redes sociais, que ainda valem o que valem. Falo de declarações de gente eleita ou escolhida para esclarecer cidadãos, com conhecimento privilegiado que deveria ter, em assuntos sérios e que afinal entra na mesma onda de uma popular genuinidade que não o é realmente. Este estilo reality-show, a estender-se a outros campos que não o da TV entretenimento, vem afinal confirmar que as estatísticas, os comentários, as análises e as entrevistas não chegam para se explicar o mundo em que vivemos e usa-se esta espécie de proximidade por cabo ou TDT para apregoar a vida e as emoções das pessoas, as desilusões e as ambições, partilhando sentimentos sobre assuntos sérios como se de raciocínios em rascunho se tratassem e tentando entrar, de forma popularucha, nessas “comunidades de compaixão” que são os telespectadores de reality-shows. Não sei o que será pior: se um reality-show se o show da realidade de alguns responsáveis por esclarecer a opinião pública? Não fosse o interesse nacional ridiculamente colado numa outra metáfora, e estava quase a pedir que viesse o diabo escolher…

18.10.16

Uma questão de calçado

Esta crónica é sobre a questão táxis vs Uber e companhia, um assunto que aquece aqui agora, que já pôs outras capitais de pernas para o ar e que revela vários problemas da contemporaneidade, por um lado, e da fragilidade intergeracional de algumas mentalidades, inclusivamente colectivas. Formar opinião sobre este assunto, como de resto com outros que nos dizem tangencialmente respeito, implica “calçarmos os sapatos do outro”, uma metáfora comum, por vezes até poética, sem deixar de ser política.
O que assistimos numa suposta marcha-lenta de taxistas da passada semana foi a uma dupla sabotagem. Uma sabotagem ao trabalho de uma empresa exclusivamente privada, com fins lucrativos e sem benefícios próprios das que prestam serviço público, e que ao contrário dos táxis segue as regras do mercado, tão desregrado. Foi uma sabotagem com agressões reais a funcionários das empresas Uber ou Cabify no aeroporto Humberto Delgado. A outra sabotagem foi uma auto-sabotagem. Uma marcha que tinha um determinado percurso preparado dentro das regras, viu-se sabotada pelos marchantes que revelaram, no mínimo e para não repetir o que não devia ter nunca saído da boca de gente que lida com público, uma profunda ignorância sobre as regras básicas da cidadania, quer estas se refiram a comportamentos em sociedade quer da forma como actuam as corporações, os seus representantes e defensores nos órgãos próprios, em regimes não ditatoriais nem monopolistas.
Pareceu-me que mais do que a marcha-lenta, simbólica em várias formas de contestação que pretendam reunir simpatizantes com as causas, ficará para o futuro o efeito desta auto-sabotagem. Talvez até leve a alterações no relacionamento dos que, por várias razões e com interesses diferentes, se puseram à partida e de forma irredutível do lado dos que, afinal, só conseguiram passar a ideia de quererem continuar a ser um monopólio. E sim falo de um partido político que oscila entre princípios que umas vezes, sobretudo quando está no poder, flexibiliza e, noutros, quando representa uma espécie de acionista de quem interessa manter a quota, se mostra tão firme. Uma bota que vou querer ver como vai descalçar.
De volta ao calçado, então, importa recordar que a palavra sabotagem vem precisamente de um movimento de contestação que, para lá de todo o direito que num estado livre e democrático é até saudável que se possa manifestar, revela uma desadequação ao que, no fundo, é mesmo o interesse geral de acompanhar o progresso da humanidade, em nome de uma instalada posição conquistada. Sabotagem vem da palavra francesa sabot que designa precisamente um tipo de calçado, as socas de madeira. Os episódios que lhe deram origem têm uma interessante semelhança, com a relativa distância do tempo, com os desta marcha-lenta. É que na Europa Central da revolução industrial os trabalhadores oriundos das zonas rurais que foram trabalhar para as fábricas e se aperceberam de que a máquina iria substituir o trabalho braçal para que estavam preparados e onde ganhavam em competência usavam as suas socas de madeira para encravar as máquinas e parar a produção. Assuntos assim tratados com os pés normalmente não têm grande efeito para os que os praticam. A não ser no futebol, claro, mas até aí é preciso usar bem a cabeça.