12.11.13

Quem escreve e quem lê

Albert Camus fez cem anos na semana passada. Leitores e comentadores festejaram, a Academia também. Foi um escritor e filósofo francês, nascido na Argélia, premiado com o Nobel em 1957 e que teve intervenção política. Foi dirigente comunista, expulso depois do partido, e acabou anarquista. Era um pied-noir, o equivalente francês ao conceito português de “retornado”, o que significa para o caso que foi dos que não teve uma vida fácil. Disse um dia que "Quem escreve de um modo claro tem leitores. Quem escreve de um modo obscuro, comentadores." Primeira conclusão: qualquer escritor a quem festejem o centenário tem de ter, por estes parâmetros de Camus, esses dois lados, o claro e o obscuro.

Nesta semana que passou, fomos também brindados (oiçam a ironia, por favor) com o comentário, de alguém que escreve, sobre a reação popular à austeridade. Dessa pessoa não estou à espera que se assinalem, pela sua obra, os cem anos, nem tão pouco considero que tenha tido, ou venha a ter alguma vez, alguma intervenção política, apesar do comentário claramente colado a uma certa direita. E, no entanto, se há quem escreva e tenha leitores em Portugal, é esta pessoa. Como tem, está bom de ver, comentadores que eu já os vi e ouvi, sim senhora. O interessante é precisamente que os comentários, a sério, que se têm feito sobre os seus livros se prendem muito mais com o fenómeno não da sua clareza, mas de outro adjetivo, que Camus nunca poderia ter imaginado, acho eu com poucas certezas, e que é o adjetivo “light”. O “light” está para os livros, como o “pimba está para as canções, sendo que esta é a melhor e mais rápida definição por analogia que me parece, assim de repente, fácil de dar a entender.

 Não vou dissertar aqui sobre as qualidades de Camus, que sob a marca talvez mais consensual do existencialismo tratou grandes questões do indivíduo, da sociedade e da humanidade; ou sobre as banalidades de MRP, como por agora tem sido conhecida no meio a tal pessoa que escreve, de seu nome artístico Margarida Rebelo Pinto. E eu até sou daquelas que acha que mais facilmente se salva para a boa leitura um leitor da MRP do que um não leitor. Com muito trabalho, é certo, mas antes ler MRP que não ler nada. Mas adiante.


Quero apenas salientar o facto de que as leituras literárias não são unívocas, ou seja de sentido único, porque também as obras literárias não simplificam o emaranhado complexo que é a vida, de que também falam; que os muitos leitores se conquistam pela clareza da escrita, e não pelo simplismo, e os bons leitores pela capacidade de nessa clareza encontrarem a profundidade que nela existe e que, por isso, desperta o comentário, mesmo na forma de reflexão individual. Finalmente, salientar que bons leitores de livros, aqueles que se interrogam sobre o que leem, são normalmente bons leitores da realidade que os circunda. E quem leu MRP, como já fiz (ok, um livro e meio, porque dou o benefício da dúvida aos autores de best-sellers e senão não poderia estar aqui a falar assim), perceberá que a única leitura que ela poderia fazer foi aquela que fez, através dos olhos de uma elite alienada, cuja dureza da vida não passa pela sobrevivência nos moldes que a civilização atual deveria proporcionar. Talvez aqueles que nesse mundo cor-de-rosa retratado por MRP encontram a evasão possível à dureza do dia-a-dia, percebam a soberba de quem, mesmo não tendo nem sabendo dar melhor, lhes dá daquilo como se estivesse a atirar pérolas a porcos. 

7.11.13

Descarrilhar

"A minha única diferença em relação a um homem louco é que eu não sou louco!" terá dito Salvador Dali. Invoco a loucura a propósito do extemporâneo caso Bárbara vs Carrilho que, com uns contornos bem mais leves que julguei que acabaria por assumir quando das primeiras “notícias de última hora”, poderia ter sido o caso e a “novela” da silly season 2013. Ficou para o Outono. E quer-me parecer que à semelhança do que não é feito na altura própria, chamemos-lhe assim apesar de a exploração pública da vida íntima, consentida entenda-se, ser um tema de gosto duvidoso que normalmente me deixa indiferente, parece ter vindo agora, em modo serôdio, dar os seus frutos de uma forma ainda mais espetacular, e que, essa sim, não me deixou, nem deixa, indiferente.
Não me deixa indiferente por se tratar de mais um caso de violência doméstica que envolve crianças e cuja mediatização afetará seguramente ainda mais a vida presente e futura dessas crianças. Não me deixa indiferente, não por se tratar de figuras mediáticas ou de elites sociais, já que a violência, sabemo-lo, não é monopólio de pobres, ignorantes ou grupos socialmente fragilizados. Não me deixa indiferente sobretudo porque surge associado a alguém cujo património intelectual e a formação académica não me deixaria prever, não o caso de violência (todos conhecemos casos tão inesperados e que muito nos chocam), mas a forma como é trazido na primeira pessoa a público. O despudor da conversa fez-me perder o respeito que tinha pelo académico, muito embora pudesse não o ter já pela pessoa de Carrilho. Como pessoa não o conheci para o poder julgar, mas agora já posso. E posso dar razão àqueles que pela postura que o ex-ministro teve na vida político-partidária já me tinham expressado as suas desconfianças e que eu sempre relevei pelo respeito ao seu exercício da pasta da Cultura e à sua produção académica.   
Poderia falar da vergonha. Poderia mesmo falar até do presumível crime, legitimamente, porque o caso é aí mesmo, nessa instância, que está. Mas prefiro falar de loucura, aquela que a voz do povo contrapõe à da sabedoria, transformando-as não em opostos mas em sobrepostos. E se a dose poderia ser equilibrada, tanto de louco como de sábio ou de génio, este disparate que o ex-ministro fez o favor de vir fazer a quem nunca lhe reconheceu valor pelo lado do seu capital intelectual, veio também agora fazer-me ter muito pouca vontade de continuar a reconhecê-lo enquanto sábio.
Muitas vezes a loucura de figuras públicas tem um lado histriónico que desaparece fora do raio dos holofotes, como aliás acontece com outras características que são sobrevalorizadas por quem só as conhece enquanto figuras públicas. Umas vezes pelo que delas dizem, outras pela postura que em público assumem. É sempre um receio que tenho, este de conhecer um pouco melhor alguém por quem nutro alguma admiração. Tal como não me deixa indiferente, nem nego, essa aproximação de alguém por quem, pelo contrário, não sinto grandes simpatias. Há boas e más surpresas.

Neste caso, estou convicta de que dificilmente qualquer outra conversa ou tentativa de mostrar esse outro lado de sábio, me fará esquecer a baixeza das declarações de Carrilho, e não o “diz que disse” ou o “terá feito”, que num período de vida que seguramente o abalou como abala tantos e tantas, teve esse momento em que a máscara caiu para irremediavelmente não conseguir ser recolocada e cumprir a função que até ali teria cumprido. É que se, como acontece à mulher de César, não basta sê-lo há que parece-lo, aqui Carrilho mostrou bem quem é.

29.10.13

Aceitação

A páginas tantas, Shakespeare n’ As Alegres Comadres de Windsor, uma peça que Verdi adaptou para a sua última ópera Falstaff, escreve a seguinte máxima: "Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer." A aceitação parece, aqui e assim, uma espécie de inevitabilidade. Ora não é que eu não acredite em inevitabilidades, por muito que todos os dias me esforce por que sejam as menos possíveis, mas recuso-me a que toda a aceitação o seja. Depois de muito analisadas as razões e os motivos e as histórias e os feitios, se calhar, as aceitações acabam mesmo por ser, no fundo, no fundo, a atitude possível, provável, expetável até, mas não a única saída. Há também o aceitar-se porque se quer.
Toda esta conversa não tem a ver com o slogan “Não há becos sem saída!” do movimento «Que se lixe a troika», ou com o OE para 2014, ou com as manifestações, ou com as greves que se anunciam. Na verdade, tem a ver com o facto local de me ter tornado, de novo mas ao contrário, vereadora da Câmara Municipal de Évora. Para os ouvintes mais distraídos, cá vai um esclarecimento rápido: estando em terceiro lugar na lista que apenas elegeu dois vereadores, na oposição, com a renúncia do primeiro da lista, havia que assumir a função de vereadora da oposição. A crónica tem, então, a ver com a aceitação, mas para mostrar o outro lado mais solar, e menos de todo-conformado, que o conceito possa ter e que o torna sinónimo de resignação.
O que é engraçado é que na língua portuguesa (e não só), a resignação é também a não-aceitação de um determinado cargo, ou seja a renúncia, o que não deixa de ser curioso para o caso em concreto: quem resignou levou a que outra aceitasse. O contexto muda o sentido da palavra, como as circunstâncias influenciam as atuações. No que resignação é o contrário de aceitação, há quem veja fuga, no que é sinónimo acaba por ser um deixar-se estar numa determinada situação, que não se desejou, que não se prevê mudar e para a qual nem sequer se foi candidato.
Com uma maioria absoluta, quem governa pode vir a ter na oposição um elemento de legitimação da sua governação, e daí um dos interesses possíveis para que as medidas sejam as mais consensuais. Mas parece ser absolutamente indiferente, para os destinos dos governados, que a oposição seja a favor ou contra determinadas propostas que um governo em maioria absoluta faça. O que não quer, no entanto, dizer que o que uma maioria absoluta aprove e uma oposição minoria condene, acabe por ser do agrado de uma grande parte, pelo menos a mais ruidosa, da maioria dos cidadãos. E afinal parece que sempre falo do OE e das manifs…
Quando a participação dos cidadãos em dia de eleições, por ação ou omissão, produz uma maioria absoluta, permite a quem se submeteu ao escrutínio aplicar todo o seu programa de governo. Acho até que o princípio revela maturidade por parte dos eleitores que o fazem conscientemente, como a revelam os eleitos com acordos pré ou pós eleitorais, que tenham programas de governo com muitas afinidades. O que é já estranho é que apresentando um programa que tem como principal objetivo romper com o passado, se insista que se quer governar com gente que vem desse tempo.

Com muito entusiasmo, até pelas muitas descobertas a fazer, nada tendo por isso a ver com a passividade da tal outra aceitação, à oposição cumpre acompanhar e fiscalizar o governo, se este cumpre ou não o prometido e programado, bem como, e não menos importante, os caminhos que se tomarão para lá chegar. Cumpre, ainda assim, tentar implementar, no possível, o seu programa sendo certo que o que está mal é para mudar, mas para melhor. Esse trabalho é, sim, inevitável! É que se assim não for, na ilusão de um “todos” uniforme que não existe, e quando constantemente se afirmou essa diferença, se acaba por dar razão à indiferença daqueles que exclamam “nem lá vou, são todos iguais” ou “para quê se lá ficam todos?”.

22.10.13

Blasfémia

O escritor americano Mark Twain é dos mais presentes em compilações de citações, e também daqueles que mais humor põe nas suas sentenças, muitas delas retiradas de romances e novelas. Terá escrito um dia que "se estiver zangado, conte até cem; se estiver mesmo muito zangado, blasfeme."
A blasfémia é também coisa do sagrado, ou por outra, é coisa contra o sagrado. Mas nos tempos de ciberespaço que atravessamos, a blasfémia é, ou podia ser, apenas o grau mais elevado de quem se ofende porque se sente alvo de crítica, contestação, insulto ou difamação. Assim, em diferentes graus que arrumo em crescendo, numa escala muito minha. Crítica, contestação, insulto, difamação.
Se a crítica e a contestação me parecem naturais, e por isso quando somos alvo delas podemos ficar apenas um-bocado-chateados-mas-adiante, já o insulto e a difamação são uma blasfémia para quem deles é vítima. Só uma raiva ou um descontrolo muito grandes fazem com que uma crítica ou uma contestação se transformem em insulto ou em difamação. Mas começa a acontecer de forma cada vez mais frequente e a vários níveis.
A escalada da violência verbal, em espaço público, começou no momento em que dizer a alguém que está a mentir e não ser punido por uma acusação que se prove não ser verdade passou a dar muito trabalho e, por isso, chegar o encolher de ombros, ou a explicação que não querem ouvir ou, lamentavelmente, dar uma resposta a descer ao nível. Aqui chegados, até se deu azo a que não se distinga quem mentiu mesmo, de quem apenas tomou uma decisão com consequências que se prevêem de desfechos diferentes por quem ofende e por quem é ofendido. E o insulto passa a servir não apenas para desmascarar, deixando de ser insulto e passando a acusação, mas simplesmente como forma baixa de contestação. 
A blasfémia dessacralizou-se na mesma medida em que o insulto se popularizou. E acho que foi um direito que se conquistou, considerar-se blasfémia o que é dirigido a pessoas e não a deuses. O insulto popularizou-se tanto que se massificou e tem os seus momentos de explosão em manifestações que também seguem essa “lei”, chamemos-lhe assim, de proporções. Quanto mais o grupo ou a multidão se compõe de gente que individualmente se sente atacada, maior é a agressão verbal. Por isso também as manifestações têm sido não as da ordem, a dos sempre zangados com tudo e todos, e que deviam contar até cem, para passaram a ser momentos de catarse em que o desespero se alivia na blasfémia.
E aqui acode-me um outro inglês, o poeta Ralph Hodgson, que terá afirmado que "as blasfémias proferidas em estado de angústia valem o mesmo que as orações." É o perdão em tempos de angústia.

Até para a semana.