Do latim cor (coração) "de cor e salteado": conhecer algo perfeitamente. Do latim color (cor) sensação produzida nos olhos por ondas eletromagnéticas de uma certa frequência.
19.12.23
Despedida
12.12.23
Qual era a dúvida?
O ambiente político e jornalístico está irrespirável. A comunicação social veio sobretudo mostrar mais, mas também terá, como qualquer outra corporação, a sua parte no assunto: o sangue e o lodo vendem bem.
Ao fim de décadas envolvida em meios políticos, com uma vivência em ambientes frequentados por pessoas oriundas de estratos sociais bem diferentes, e sobretudo de relações de proximidade não hierarquizadas, o que vivemos agora traz-me, afinal e só, a pergunta: qual era a dúvida?
Qual era a dúvida que, desde sempre num mundo em que o bem-estar e a prosperidade colectivos vêm, com sorte, em segundo lugar e cada um anda é a tratar do seu jardim, tenhamos chegado aqui?
Qual era a dúvida que, num jogo social em que por todo o lado se julga que quem não é bom para si, não é bom para os outros e não projecta poder, não nos traria aqui? (Lá diz o ditado popular: quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte.)
Qual era a dúvida que, no negócio das relações, os poderosos que não fazem jeitinhos aos que também têm o seu poder noutras áreas, não contribuem para que a cunha se transforme em chantagem (pistolão, como dizem no Brasil é muito mais adequado) e tenhamos chegado aqui? (Quem nunca ouviu que se fosse preciso ia chamar a CMTV?)
Ao fim de 50 anos, o que conquistámos foi também, com a Democracia, a oportunidade de muitos mais, para além das elites de poucos, imitarem os seus comportamentos. A definição de elite ganhou, na prática, declinações que, pelo menos, não nos deveriam deixar dúvidas sobre o porquê de vivermos o tráfico de influências como um sistema transversal. Ou há dúvidas que assim seja?
Há soluções definitivas? Ou é como as dividas dos governos que se vão gerindo? A mim resta-me ir tendo a consciência de que é assim e dos riscos que corro. E depois, lidar. Sem idolatrias, sem esperar por figuras salvíficas, mas com a oportunidade que não desperdiçarei de escolher, com a tal consciência, princípios, ideologias, avaliação de provas que me quiserem mostrar. Ou há dúvidas que é melhor termos o poder do voto para o usar do que ficarmos sentados em casa à espera? Ou ir lá convencidos de que chega votar para protestar e não para governar?
Para onde vamos, com este caminho? Não faço ideia, mas não tinha grandes dúvidas que chegaríamos aqui. E que nos habituaremos a isto, como a tudo. E, acima de tudo, tento não me esquecer de passados, mais distantes ou mais recentes. Se a desgraça dos outros não consola, o que vemos no Mundo aos 75 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos mostra-nos que não estamos sós. E que a esperança se serve em doses muito pequeninas.
5.12.23
O preço do azeite
28.11.23
Há poesia enquanto esperamos…
Quando a contemporaneidade ocidental nos traz, pela via da Democracia, o direito a reclamar aos Estados igualdade de oportunidades, rapidamente se percebe, olhando à nossa volta, que esse é ainda um direito “em construção”. Para além de que os direitos equivalem a deveres, quanto mais não seja de prestação de contas pelo seu usufruto. Este da “igualdade de oportunidades” é, pois,um desígnio difícil de exercer, pelo que não fará mal exercitá-lo noutros domínios: por exemplo, o das palavras, o de ler e ouvir sobre assuntos de Política, actividade para a grande maioria dos cidadãos bastante aborrecida.
Mas o domínio do discurso e, consequentemente, da comunicação, talvez seja aquele em que exercemos de forma mais acessível, essa igualdade com direitos, e sem deveres ainda em prática instituída. Coisa que acontece há relativamente pouco tempo, diria que desde o advento das redes sociais, onde quem as frequente pode dizer praticamente tudo sobre todos. Fazendo-o , ou ouvindo fazer, ensaia-se pelo uso das palavras as acções, ou pelo menos as intenções de acção. E muitas são reveladoras de carácter e propaladoras de ideologias ou formas de gerir e viver em comunidade de quem as produz, apoia ou contra-argumenta.
As palavras são as mesmas da matéria-prima de poetas que, no seu ofício, e como cavaleiros errantes, experimentam enquanto percorrem o caminho de as alinhar, organizam em pensamento sensações, emoções e tudo o que lhes parece indizível ou ainda por dizer. E é talvez por isso, gosto de pensar assim, que dou particular atenção à escolha dos poemas cujos versos são lidos por quem nos habitua a ouvir mais sobre números ou outros assuntos que não o do exercício da arte verbal ou do seu estudo. E que me faça dar ainda mais atenção a novos sentidos que possam acrescentar -se àqueles textos relidos em mais tempos e noutros contextos.
Vem isto a propósito do poema “Abandono” de David Mourão-Ferreira, conhecido como “Fado Peniche” em referência aos presos políticos do Estado Novo, citado parcialmente por Centeno, nestes momentos em que, suspensos, aguardamos, com um voto na mão, os destinos políticos próximos.
Enquanto estamos à espera da noite de 10 de Março do 50º ano da Democracia, talvez não seja desajuizado ir ouvindo com mais atenção o que nos dizem, não apenas os que terão nas mãos a gestão do País num futuro de quatro anos, mas quem os comente. E sobretudo, aproveitemos para recordar como sobrevivemos, nós neste cantinho, ao que assolou e assola o Mundo; mas também não esquecermos, na memória de curto prazo que parece ter arrastado 2020 e 2021 para um tempo fora da linha de Cronos, o que, apesar de tudo, se conquistou nos últimos oito anos. Por muito que os gritos de quem pouco ou nada contribuiu se façam ouvir em modo repetitivo, sem acrescentarem nada de concreto e de concretamente demonstrável. E, já agora, ir ouvindo os poetas que nos desafiam com a exigência de uma boa leitura que construa os sentidos dos versos mais enigmáticos.
21.11.23
Escolher lados
Enquanto simpatizante do Partido em cujos princípios me revejo, vou poder participar na eleição que decidirá qual o candidato do PS a PM do próximo Governo. É simpático: envolve-nos e compromete-nos, mas com os limites que respeitam as nossas próprias vontades em limitarmo-nos ao grau zero e basilar de participação numa associação de pessoas que se preparam para gerir um País. Os efeitos mais marcantes da militância, normalmente, implicam outro estilo de participação em que até acontece parecerem-se os militantes mais com antipatizantes; pelo menos é o que por vezes transparece para quem está de fora, mas atenta, a ouvir rádio ou ver televisão. Faz tudo parte de um padrão de comportamentos dos seres sociais que somos, mas, no caso, de que não tenho por livre vontade de fazer parte.
Não é fácil escolher lados, quando se partilha um chão comum com as duas pessoas adversárias que nele se movem e dele cuidam. Há que ler os respectivos programas com muita atenção e a partir deles, mais do que dizem os que em funções de militante, sejam claques ou senadores, avançam a argumentar vantagens e problemas de um ou outro, optar; é a partir dos programas e da actuação dos candidatos que me empenharei a accionar os princípios muito meus que pesarão na escolha. Felizmente, posso sentir-me à vontade com qualquer das decisões que o Partido tomar, o que também me descansa por ser o Partido que é o meu que, por um ou outro, não deixará cair as conquistas destes últimos oito anos.
São princípios que equacionam as exigências das experiências passadas, princípios que comparam reacções perante os homólogos dos concorrentes às legislativas, e princípios que percepcionem as capacidades que cada um terá quer em não deixar perder-se a memória de passados irrepetíveis, quer em atrair as novas gerações, as que ainda irão a tempo de despolarizar, para a participação no exercício de direitos e deveres conquistados com a Democracia.
Apesar destas ponderações, que dão o seu trabalho aos neurónios e agitam algumas sinapses, nada se compara com o aperto no coração e a revolta nas entranhas que cada vez mais me torna insuportável ouvir ou vislumbrar qualquer representante do governo israelita. Não há dúvidas, nesta altura, sobre que lado escolher. É que neles só se veem os algozes dos milhares de palestinianos mortos e encarcerados, com números que não páram de aumentar. Eles que arrastarão consigo a terra prometida do povo judeu que não merecia esta mancha na sua longa e triste história.
14.11.23
Marcelismo vs Democracia
Parece-me que Marcelo Rebelo de Sousa ficará para a história como o PR que, em Democracia, pior fez à Democracia.
Curiosamente, foi em parte a posição de Marcello Caetano, padrinho deste Marcelo 2.0, a propósito da guerra, a colonial, que, mesmo com as promessas primaveris, deu origem a tempos tão ou mais obscuros que os do salazarismo. A conversa que o Marcelo de agora fez sobre o conflito israelo-palestiniano, com subsequente presença numa manifestação; tal como o caso da cunha para as gémeas, a ser revelada quando, precisamente nesta guerra comentada com aquela ligeireza, são as crianças que em maior número são suas vítimas; estas duas situações guiaram-no num caminho de cegueira para o qual arrastou a Justiça. E os estragos também terão a sua assinatura. O que aconteceu na semana passada foi mais um espectáculo para os meios de comunicação às massas, como tudo em que este PR está envolvido; um jogo “Marcelismo vs Democracia” da primeira mão de um importante campeonato: o do Centenário do Regime.
Explico a comparação: Marcelo agiu como o governante que mexe os seus cordelinhos sem pudor de, ao fazer bem a uns (as gémeas serão provavelmente um caso entre muitos), prejudicar o todo. Se sabemos que as “cunhas” são um pão nosso de cada dia mordiscado em todas as esferas, todas, também acabaremos por concluir, mais cedo ou mais tarde, que as influências, os conselhos e as negociações têm de ter base sólida de argumentação que aguente e sirva para melhorar práticas e resolver problemas sem criar outros, e até mais graves. Que se aconselhe alguém para um cargo para o qual seja efectivamente útil e competente; ou que se sugira um procedimento para outro alguém que melhore os procedimentos para todos os que vêm a seguir, melhorando um sistema que esteja montado e apresente falhas de eficiência, é exercer uma magistratura de influência; o resto são simulacros próprios da incompetência em lugares de poder.
E também não deixa de ser tristemente curioso que a crise política mais grave do regime tenha sido espoletada por palavras. Palavras proferidas, por escrito, por autor-sombra - o gabinete de comunicação da Procuradora - com o pior estilo de “innuendo” de mau jornalismo, revelando a mediocridade de quem deveria ter o sentido de Estado equivalente ao peso institucional do lugar que ocupa. Pôs-se a responsabilidade nas mãos de quem, com comportamentos de “influencers”, põe em causa um trabalho em curso de um projecto para o País que era bastante defensável, embora sempre democraticamente criticável.
Continuaremos, na segunda parte do Centenário, a percorrer o caminho que repare as brechas no Regime e o reforce? Ou voltaremos atrás, a achar muita piada, muita gracinha, a um Portugal dos Pequenitos dos tempos do padrinho de Marcelo? A estas perguntas, para além de tentarmos defender o que pensamos ou queremos, pouco mais poderemos responder do que lançando búzios.
7.11.23
O filme todo
Às vezes tento imaginar o que pensa quem tem mais que fazer do que assistir, vendo ou só ouvindo, às dezenas, senão centenas, de opiniões debitadas na bolha política, comentando as catadupas de casos quotidianos. Casos que se misturam sem hierarquia que, se bem nos levam a mais assuntos, tendem a dar a impressão de que da importância nuclear à espuma dos dias a via é livre e rápida. E sim, a concorrência das redes sociais sentida por uma comunicação social ameaçada, e revelando-se frágil ao não conseguir ser mais competente na investigação da informação que divulga, é a prova de que, em larga escala, a “má moeda” não faz circular a “boa moeda”: abafa-a.
Passamos o tempo a ver e ouvir banalizarem-se notícias, em “loop”, comentadas por opinadores com uma agenda que, não poucas vezes, é panfletária. Ver estes “filmes” até ao fim e quando já se transformaram em sagas (como as das reformas na saúde, no ensino ou na habitação, todas três dependentes de sistemas em que todos, repito todos, os envolvidos estão lá para servir cidadãos primeiro), ver até ao fim “estes filmes” também permite, a quem está na bolha e atenta, deparar-se com pessoas que fazem do discurso acções, ou propostas para essas acções, dizerem “tudo e o seu contrário”, ao longo dos “episódios”. Triste é quando isto se passa, também, com ou quem nos governa, ou nos representa na AR, órgão que legisla a nossa vida. Nem falo de Marcelo que está imparável naquilo que sempre fez muito bem: ser inconveniente para fingir, com prepotência paternalista, que não é a “gravitas” necessária ao lugar da responsabilidade que ocupa que afasta o Povo do Poder.
Se nunca conseguiremos saber como e quando estas sagas vão acabar, até porque o padrão diz-nos que são cíclicas e reclamam novos protagonismos, vale a pena ver o filme todo, mas desde o início mais disponível, para conversar com calma sobre assuntos complicados. E fazerem-se conversas que esclareçam públicos deixando-os formar uma opinião.
Naturalmente que, nesta torrente, ninguém, ou quase, o fará. As pessoas acabam por se limitar a ver trailers e cartazes, ou seja, soundbites e decibéis, piadolas e “trolices”. O resultado é termos alcateias que lutam entre si e que arrastam consigo rebanhos que as seguem, mais ou menos satisfeitos.
E para terminar com a metáfora de “ver o filme”: seja para assistir a um clássico, a uma pepineira ou a uma obra-prima, os espectadores que saem para ir ao cinema serão muito menos que os que ficam em casa, e assim se perdem cidadãos interessados para a causa pública. E se criam claques em vez de gente informada que pensa, conversa e vota.
31.10.23
Ouvir até ao fim
As reacções às declarações de António Guterres que as acusam de serem inapropriadas e até perigosas, são bem o espelho do pior que a leveza contemporânea faz com a comunicação, seja esta social ou individual. Ninguém parece ler ou ouvir nada até ao fim, muitos descontextualizam o que lêem ou ouvem quando retransmitem conteúdos acabando por distorcê-los para que caibam na sua opinião. Ou forçando, inclusivamente, a ideia de que perceber esses conteúdos de uma determinada maneira é estar a assumir uma trincheira.
Aprender a ouvir tudo até ao fim é um bom treino para começar a ler mais do que só saber juntar sílabas e tirar alguma informação a partir desses enunciados. Os textos têm contextos e pretextos e saber ouvi-los, mesmo lidos em silêncio, é fundamental quando se procuram os seus sentidos. Sobretudo quando se pretende criticá-los, ou aprender um pouco mais sobre o que nos dizem.
Saber contar histórias, as que soltam textos de livros ou os guardam na memória, é por isso ofício a considerar muito. Quem o faz sabe escolher o texto da história certa para o lugar, o tempo e os ouvintes que estão ao pé de si. Nem sempre consola, muitas vezes inquieta e desinquieta, deixa gente que, presa à voz que ouviu até ao fim, a pensar. Pensar a partir do seu lugar, mas também do lugar dos outros, assim se tenha vagar para escutar entre as palavras que se ouvem até ao fim. Para que não haja tresleituras, para que não se desrespeite quem fala para dizer e não para odiar.
Amanhã, dia da Universidade de Évora, há uma contadora de histórias que vai receber um Prémio na cerimónia anual que marca o início solene do ano lectivo. A Bru Junça sabe contar histórias, ó se sabe!, porque aprendeu a ouvir e a ver os outros e os lugares. A história da vida da Bru vai poder ser contada durante muito tempo pela Universidade que lhe reconheceu o talento e o valor. A história da Bru vai ter um início mais completo do que as das histórias que conta e que nos envolvem e ensinam a escutar até ao fim. A história da Bru vai começar assim: “Era uma vez, era uma voz…”.
Parabéns, Bru. E obrigada por me ter dado a oportunidade de fazer a proposta que, ao dar-lhe justamente o Prémio, deixa na nossa Universidade a sua marca: a que nos ensina a ouvir até ao fim, com vagar, a pensar com critério, sem que nos deixe esquecer que aqui temos de aprender também com o coração. Como faz quem tem à sua frente 193 pessoas-histórias a quem tem de dar voz para que não se desmorone tudo, como numa turma, ou uma plateia, irrequieta e belicosa.
24.10.23
Sem vagar para mudar
Assisti à última Assembleia Municipal de Évora, que foi extraordinária, convocada para se discutir sobre uma alteração ao PDM. Muito brevemente, estas siglas referem-se a um plano estratégico que dita onde se pode ou não construir num concelho. Estava bom de ver, para quem está atenta, tratar-se de assunto que facilmente cairia no tema, tão discutido no momento que atravessamos, da habitação. Para não falar de como este instrumento técnico condiciona opções políticas, no sentido literal de projectar e ordenar a cidade. Só revela que quem chegou àquela sessão sem perceber que assim seria ou sofre de falsa ingenuidade, ou da arrogância do absolutismo sonhado (até moral) que, mesmo sem maioria absoluta, pauta a governação.
O que saiu das discussões que ali aconteceram foi muito claro: Évora só muda quando alguém lá de cima manda mudar, o que é uma chatice porque dá trabalho; e não há nenhuma ambição, nem visão de futuro, por parte destes que estão no poder em Évora.Talvez por isso não haja grande interesse em mexer muito no assunto da habitação quando a oposição nacional é poder local.
Confrontados com esta evidência do problema da habitação, foi com muita alegria de quem dá lições, e “enfiando-nos Lisboa pelos olhos dentro”, que a força política que apoia o governo local se entusiasmou. Fugindo com o dito à seringa, lá o chutou para cima, chegando ao argumento de que os problemas da habitação até já chegaram ao Québec. Curiosamente, ao chutar tão alto e tão longe deixa-me à espera de na outra Assembleia, a da República, ouvir da bancada desse mesmo Partido que não vale a pena aborrecerem mais o Governo português ou a Europa. Pois se até já chegou ao Québec…
O que, no final, foi simultaneamente espantoso e revelador, uma espécie de cereja cristalizada em cima de um bolo de arroz, foi ouvir alguém comunista assumir que, afinal, há inevitabilidades. Basta irem lá espreitar ao canal do YouTube da Assembleia Municipal de Évora para confirmarem. E deixem-me citar o Jerónimo de Sousa do princípio da Geringonça que, ao concluir a sua intervenção na AR sobre o programa político de governo, afirmava e cito: “Houve uma derrota que ainda aqui não foi falada, a da ideologia das inevitabilidades, que tudo justificava e tudo impunha.”
Nunca pensei…
17.10.23
A política e a religião entram num bar…
10.10.23
Ditos e datas
3.10.23
A emergência climática e o chão comum
26.9.23
Levar a sério
19.9.23
Todos, todos, todos!
Apesar de nos parecer ter sido há muito tempo e de até já ter havido coisas da bola, entre outras, a darem que falar, não adianta arranjar desculpas e fazer de conta que durante esta pausa estival não foi a visita de Estado do Papa a Portugal o evento nacional mais importante. A meu ver ultrapassou o êxito das Jornadas e as críticas que suscitaram, até no debitar de comentários e opiniões sobre tudo em todo o lado ao mesmo tempo. E apesar das desastrosas intervenções de muitos jornalistas e comentadores, com excepções evidentes, dando mais argumento à necessidade de se reverem as práticas de formação, e talvez até os princípios de referência, da imprescindível comunicação social.
Do tanto que se ouviu, e entretanto se foi talvez esquecendo, houve uma certeza relativamente óbvia que diz respeito, espante-se, a questões de identidade individual com impacto social relacionadas com a intimidade e a sexualidade. Nos tempos que correm, estas são variáveis importantíssimas na redefinição do, chamemos-lhe assim, índice médio de felicidade. Os tempos mudam, em termos gerais a violência contra os seres humanos tem vindo a decrescer, mas não poderemos descansar se quisermos passar pela Vida com algum contributo nesse sentido. E a conclusão que pudemos retirar sobre esta questão concreta que decorre das outras pregadas há séculos, e se o colectivo católico estiver realmente empenhado em avaliar e contribuir, é a de que entre os crentes, mesmo praticantes fiéis e assíduos dos rituais, é muito necessário continuarem a investir na sua formação de acordo com o que é expresso pela actual figura mais importante da instituição. Espero sinceramente que, lá nas cimeiras, os sucessores não descurem o património que Jorge Bergoglio deixará. Todos, todos, todos.
Achei logo graça ao lema escolhido, a referência bíblica, - “Maria levantou-se e partiu apressadamente” - por ser o oposto do lema eborense do ano 2027 - o Vagar - que por aqui temos ouvido mais. Mas adiante, que lema não empata lema, e importam-me mais comentar outras questões de conteúdo. Desde logo a azáfama de Marcelo, a roçar já o preocupante, não só com o que diz, mas com o que faz: então não é que no dia da Via Sacra no Parque Eduardo VII, o senhor chegou com três horas de antecedência para o banho de multidão? Julgará que nós não o estamos a ver? A ele e à sua desmesura toda? E desde aí os episódios de falta de noção não têm abrandado. Regressando ao Papa: muitas vezes ouvi que o mais importante nalguns momentos, a mensagem a sublinhar foi a própria fragilidade do Papa. Que as adaptações para essa fragilidade possam contaminar quem desenha os acessos públicos dos lugares comuns a todos, todos, todos.
Já agora, a outra mensagem do Papa aos jovens foi que não tivessem medo. Eu bem sei que os crentes, por princípio, não temem a morte, e há medos que causam mais cobardes do que bondosos; mas parece-me que há cautelas que o medo provoca que também não fazem mal a ninguém e podem ser tomadas por todos, todos, todos.
O ritual que nasceu do improviso de, em frente à Nunciatura, as famílias pedirem que o Papa tocasse nos seus bebés foi, talvez, o que mais me enterneceu, por razões várias. Primeiro, o à vontade de quem confiou os seus bebés a um segurança que com a desenvoltura de um enfermeiro-pediatra fazia girar a criança. Cada uma daquelas crianças representou para mim, e certamente para este Papa, este Padre que nunca se furtou ao assunto, o oposto do que aconteceu às crianças confiadas a membros da Igreja que foram por eles criminosamente abusadas. Mas também porque nessa mesma semana soubemos a sentença para os que torturaram e mataram a Jéssica. Os requintes de malvadez precisam da denúncia de todos, todos, todos.
Quanto à bagunça expectável em que Lisboa viveu, e que eu escolhi provar brevemente, pareceu-me muito bem. Como também me pareceu bem ao passar pelas filas para o concerto do Harry Styles em Algés, sem insultar ou desdenhar quem escolheu a bagunça. Ou os festejos no Marquês, outro exemplo. Fico sempre mais contente por viver num País que permite estas “loucuras” de felicidade.
Sobre dinheiro, esse deus, amo e senhor que se não criou o Universo faz girar o astro e agarra os humanos à Terra, para além dos números de retorno que foram o que foram, deverá ter uma contabilidade de difícil equação: as horas de felicidade de muitos, de publicidade a Lisboa e de como se poderá confirmar que Portugal é o país que, não sendo uma ilha como a Islândia e a Nova Zelândia que são os dois primeiros, está em sexto lugar no ranking dos países mais seguros. E são 163, os países. O que não vale isto para todos, todos, todos?
Dito isto, prossigamos para mais uma temporada de crónicas na DianaFm, a quem volto a agradecer a confiança. “Ultreia et Suseia!”, como se diziam antigamente, entre eles e elas, os peregrinos.
27.6.23
No fim do mês de santos e pecadores (é sobre LGBT+)
Esta crónica foi escrita não apenas, como sempre, para quem calhe a ouvi-la ou lê-la, mas desta vez imaginando ouvintes ou leitores para quem a causa LGBT+ cause incómodo e estranheza. Quem não “lhes quer nada de mal” e que, desde que não venham tentar que “se ache tudo normal”, que “façam lá o que quiserem, mas não me chateiem”. São fiéis seguidores da postura “Don’t Ask, Don’t Tell”, isto é, “Não Perguntes, Não Contes”, que vigorou até final do século passado sobre a manutenção de soldados homossexuais nas Forças Armadas norte-americanas. Postura que evitava chatices, no fundo, e mantinha as tropas vitoriosamente numerosas e fortes. Sempre metidos em guerras, precisavam de todos, apesar de...
O Mundo avançou, o bem-estar acrescentou-se de outros valores para além dos materiais, e agora até parece, a mim parece-me, razoável que quando acreditamos nas intenções benévolas de algumas causas que pensam a felicidade de mais alguns de nós, nem nos importemos, e até cheguemos a agradecer, que haja quem se empenhe por nós, a tempo inteiro, nelas. Imagino, inclusivamente, que possa acontecer, por exemplo, o que acontece com a minha causa de fazer crescer leitores literários. E onde, para além dos momentos (que são quase todos) em que “prego para convertidos”, tento convencer que ser leitor literário é poder ler melhor o mundo. Mas digo também a quem queira ouvir que, para alguns dos já bons leitores literários, e alguns são famosos por outras razões, essa leitura do mundo eventualmente fruto de muitas leituras de bons textos levou a péssimas acções. Outro exemplo, mais próximo do fracturante, é o do bem-estar animal: por mim, agradeço muito a quem para ele contribua, empenhadamente, e conheço pessoas que o fazem sem nos tentar obrigar a todos a repensar a nossa cadeia alimentar, também ela, de resto, cheia de interditos atávicos; ou então a apropriarmo-nos das vidas dos bichinhos com modelos de condições de vida próprias dos seres humanos. (Ou até melhores…)
Entretanto, pensei em destinatários desta crónica dedicados à causa LGBT+ que estão conscientes da dureza que é a revolução das mentalidades instaladas há muitos séculos. Quando as “estranhas formas de vida” eram, e são, varridas para debaixo do tapete. Não pensei, enquanto escrevia, que seria ouvida por quem transforma o desconforto em agressividade, por quem transforma os seus próprios limites em arames farpados para ferir os outros, por quem transforma a sua insegurança em ghettos de acesso impossível e onde quem calhe a entrar inadvertidamente é abatido. É muito disto que é feito quem prega a “ideologia de género” como sendo um “monstro”, colando-a ao movimento, que é causa, LGBT+. Será difícil explicar a quem pensa assim, porque é que à comunidade LGBT+ devemos muito no caminho da felicidade.
Há tanta “ideologia de género” na causa LGBT+, como há “ideologia religiosa” promovida por crentes, nas diferentes orientações da cristã à islâmica, passando pela judaica. Há adultos que educam as suas crianças para vidas em comunidades com que se identificam, seja em workshops e festas em que convivem com pessoas que não são criminosas por assumirem, sem esconder, que se sentem mais identificadas com sinais exteriores de um género do que de outro, ou de todos os géneros (será que toda a gente sabe o que foi na sociedade ocidental as mulheres usarem calças?). E, com a mesma convicção, há adultos que levam as suas crianças a escolas dominicais, madraças, procissões, peregrinações, ou Jornadas Mundiais de juventude. E estas até defendem, fundamentalmente, o amor e a solidariedade, sobretudo com os mais fracos e oprimidos na e pela sociedade.
Não podemos ignorar que há quem tenha adaptado a forma de estar e agir “woke” - que inclui a causa LGBT+ (até porque, nesta comunidade, uma pessoa negra e/ou pobre continua a ser ainda mais discriminada do que outra branca e/ou rica) - e o tenha transformado, ao “woke”, num alvo fácil por confundir o fim da invisibilidade de muitas pessoas que têm os mesmos direitos à dignidade das outras, com tendência a comportarem-se daquela forma a que se aplica a expressão “ser mais papista que o Papa”. Entra-se no disparate, ou seja, naquilo que é contrário à razão, à sensatez.
Com o Junho a chegar ao fim, mês de Santos Populares e dos pobres pecadores que somos, nós as criaturas, perante a perfeição divina, espero que as pessoas para quem imaginei escrever esta crónica ajudem a acabar com a escalada do discurso de ódio contra a causa LGBT+ a que temos assistido. Então até Julho, mês da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Ou seja, até para a semana.
20.6.23
P(N)S
13.6.23
Análise do discurso
6.6.23
Desporto e malformação de carácter
Nada tenho contra, e até incentivei sempre enquanto eduquei filhos, a prática de desporto. Também considero que a competição é uma fase muito importante dessa prática. E até alguns dos argumentos para a sua relevância são os que, afinal, revelam as falhas na formação de carácter de muitos que levam algumas modalidades do desporto de competição até a um patamar de importância social, nem que seja como espectadores. Não esquecendo as outras, como o futebol é, parece-me, a modalidade imperial no planeta que nos calhou, também é com ele mais visível que não basta ser-se espectador e adepto para se ser um nobre cidadão exemplar.
Já se começa, na Comunicação Social, a ter laivos de denúncia sobre o comportamento dos familiares da criançada que joga à bola nas equipas de formação em escalão lúdico. Mas o assunto está longe de chegar às cada vez mais desinteressantes “breaking news” que bem podem apregoar-se como o último grito da informação, mas não são senão um pipilar na formação de cidadãos mais conscientes. Até o que fazem aos comentadores é, muitas vezes, transformá-los em lançadores de búzios, pedindo-lhes que, na falta de assunto, se deitem a adivinhar sobre o futuro de casos que já foram espremidíssimos. Mas adiante.
Agora que se entrou em pausa no desporto dito rei, talvez seja uma boa oportunidade para os clubes com equipas de pequeninos, se debruçarem sobre soluções para fazer um real “shaming” aos adultos que, em treinos ou jogos à séria, se comportam como trogloditas, ofendendo os seus próprios filhos. Para já não falar da perpétua tradição de insultar o árbitro. É um espectáculo muito, muito triste, que revela e contamina a malformação de caracteres, como um ciclo geracional que teima em não se quebrar.
Quando, num outro escalão e a outro nível, a malformação de carácter assume contornos de posição ideológica, e se confunde com a liberdade de expressão e o direito à opinião, é o momento de intervenção do poder público. É a altura de ser implacável na aplicação dos procedimentos judiciais à séria. Até para que se evitem situações oportunistas de alegar crime como primeira tentativa de certos cidadãos adultos se desenvencilharem de situações pouco claras em que se envolvem e das quais, só quando não corre de feição, apelam “aqui d’el-rei”.
O escândalo dos comportamentos racistas dos adeptos de equipas de futebol que voltaram a ser notícia quase só de rodapé, para além de mexerem com as entranhas de quem foi educado com os princípios do civismo que permitem o progresso com humanismo, merecem acções que, de facto, levem quem apresenta sinais evidentes de malformação de carácter a fazer a terapia mais eficaz. Pelos vistos, não chegam as belas e comoventes acções preventivas que as instituições públicas e algumas iniciativas privadas tão bem têm empreendido.
Só assim a competição revela que os melhores possam ganhar e os que não ganham persistam no esforço de o conseguir. E que uns e outros continuem a comportar-se com o “espírito desportivo” que, de tão esquecido, parece ter abandonado os princípios de socialização, de respeito pelo adversário, de empenho na superação que eram as suas virtudes. E, ao abandono, se torne um lugar propício a gente que não defende, com desportivismo, a equipa do coração, porque está bom de ver que coração não mora ali.
30.5.23
É urgente
Quando se fala de Eugénio de Andrade, cujo centenário está a ser assinalado este ano, talvez se reconheçam melhor dois dos seus poemas: o que tem como verso inicial “Já gastámos as palavras, meu amor”, e se chama “Adeus”, e o “Urgentemente”. Este segundo poema, que repete as palavras “É urgente” no efeito estilístico que alguns se lembrarão designar-se, tecnicamente, anáfora, aparece-me sempre que as oiço em manifestações políticas, seguidas de reivindicações várias ou genéricas. Mesmo sabendo que o primeiro verso, “É urgente o amor”, é de uma banalização inquietante e requer ler-se o poema até ao fim, e mais além, para lhe reconhecer o que não é nele banal. O cânone escolar tem esta força, já que são, ou foram, estes os poemas que mais se citaram do Poeta nos manuais.
Toda esta conversa não é sobre o sistema nacional de Educação, veio antes inspirada pelas mudanças anunciadas noutro Sistema e visam retirar das urgências dos hospitais doentes que não são urgentes. Os hospitais que se confirmou tratarem-se, como todos reparámos na pandemia da Covid-19, lugares onde se deve praticar, com condições diferentes bem entendido, aquele princípio afixado em alguns sítios de diversão: “É reservado o direito de admissão.” E, neste caso em concreto, a admissão ao que é urgente.
As medidas requerem não apenas mudanças de recursos que, normalmente, são sinónimo de investimento financeiro, como de práticas e procedimentos. Sobre todas estas nada direi, por falta de tempo e, sobretudo, de informação concreta. Apenas assinalo aqui que à mudança corresponde quase sempre a reacção de resistência, mesmo por parte de quem também quer mudança. Para já assim, sem artigo definido ou indefinido. As reacções das corporações envolvidas nas mudanças parecem-me, muitas vezes, as reacções genéricas do “Que chatice, lá vou ter que mudar a minha vidinha” ou “Que boa oportunidade para me livrar de chatices desta vidinha”. Esta última, provavelmente muito mais rara, sendo o ser humano um animal de hábitos.
Os artigos definidos - “a” mudança ou “uma” mudança - são tão difíceis de analisar, desmontar ou, como agora é moda dizer, desconstruir, como dá trabalho, e requer perspectivas que considerem vários pontos de vista, fazer uma escolha entre várias opções que se nos apresentam. Há que hierarquizar, prever e/ou inferir a partir de várias hipóteses de que apenas saberemos concretização benéfica quando já estiver em andamento ou, até, quando se chegar a alguma meta.
A hierarquização também é o mais difícil de fazer quando nos deparamos com a abundância, ou, vá lá, com a vantagem de termos por onde escolher. Na hierarquização das possibilidades, na mudança, cria-se a oportunidade de criar conflito e perpetuar a reivindicação. Não tendo a função de criar as opções, mas tendo a possibilidade de ciclicamente escolher quem o faça, é importante que os eleitores relembrem aos eleitos de que há quem esteja e continue atento. É por isso que eu gosto de acreditar (sim é uma questão de fé) que as marchas - não as dos populares Santos - são lugares repletos de eleitores. Mesmo quando as marchas que têm acontecido pelo nosso país, e em todas as democracias de resto, sejam inevitavelmente apropriadas pelos Partidos.
É quase norma, destas organizações, estarem atentas a oportunidades e imitar o molusco Paguro, também conhecido por Casa Alugada (aqueles que, quando encontram uma concha maior vazia, vão, direitinho, ocupá-la). De assinalar que na Marcha por mais SNS, no passado dia 20, organizada pelos sindicatos, ficou bem evidente quais são as conchas e quem é o Paguro. E parece que também chegámos àquela fase da Democracia em que as organizações começam a perceber que a sociedade civil é maior que a soma das corporações que se constituem em lobbies e que as Manifs passem a chamar-se Marchas. E é bom que as associações cívicas, as que de facto organizam e convocam Marchas e Paradas, e ambas só podem crescer na terra democrática e fértil, persistam o seu trabalho de encontrar, no calendário cíclico, a pluralidade para continuarem a não deixar cair as suas causas e procurarem interlocutores com quem vão ter a oportunidade de hierarquizar as suas críticas ou reivindicações e escolher o melhor caminho a propor para o colectivo que é soma das partes. Mesmo sabendo que, para umas partes, será uma chatice e, para outras, uma boa oportunidade.
O que me parece ser urgente é mesmo dar tempo ao Tempo a quem sabemos qual a meta para que corre, urgentemente. Como no poema, o último verso conclui em aparente paradoxo que se, e cito-o, “É urgente o amor, é urgente permanecer.”