9.7.19

Verão às listas

Esta é a última crónica da série 2018-19, antes da pausa para férias de Verão. Fico satisfeita por não ter falhado uma única vez este compromisso que assumi com a Rádio Diana. Nem nesta, nem noutra época. Estou agradecida à Rádio pela oportunidade de tornar pública a minha opinião sobre assuntos variados dos dias que correm, e sabe-me bem cumprir e “ficar de bem comigo” também. Ainda que esteja consciente de que nem sempre o resultado do esforço que ponho em cada uma das crónicas seja reflexo exacto desse esforço. Enfim, até quando fazemos autoavaliações, sobretudo quando fazemos autoavaliações, há que nem embandeirar em arco, nem nos armarmos com falsas modéstias. É que é um gosto que “me sai do pêlo”!…

Feito o intróito pessoal e intransmissível, resta adivinhar alguns acontecimentos que não leremos, ouvintes e eu, juntos, já que o regresso será só depois das eleições legislativas.

Haverá acontecimentos que monopolizem horas e horas de informação repetida até à náusea, acompanhadas de horas a fio de comentários gravitando em torno dos mesmos? E desse, ou desses acontecimentos, haverá lugar às chamadas “leituras políticas” que têm muito mais de leitura partidária do que de leitura sobre as opções possíveis nas circunstâncias? E os candidatos a deputados pelos diferentes círculos eleitorais, que entretanto serão conhecidos, terão a oportunidade de intervir e ser ouvidos nos diferentes lugares por que concorrem? Se assim fosse, podiam ir provando aos eleitores, logo pelo discurso, que merecem a aposta que os respectivos Partidos fizeram ao escolhê-los para as listas. É que serão esses os verdadeiros representantes dos eleitores na Assembleia da República, o lugar de onde, ficou finalmente provado, sai e é fortemente controlado o Governo que se segue. O PSD, que está a causar sensação nesta matéria, bem sabe o que lhe custou aquela luta entre os ocupantes da sua bancada parlamentar e o próprio Partido. Desde a inexpressiva votação do líder de bancada às falsas presenças, aquilo foi um inferno.

Veremos, então, se as listas que se apresentarem nos diferentes Partidos, normalmente captados de raspão pelas rádios e televisões nacionais atrás dos candidatos a PMs, é de gente que consegue demonstrar que sabe o que faz. Ou se serão só elementos de um cenário, como os das barracas das praias tradicionais portuguesas, que, como sabemos, são às listas. Isto é, têm um padrão designado normalmente por um sinónimo da expressão mais conhecida, “às riscas”.

2.7.19

À época ou à data como se não houvesse ontem


De repente, com a época dos exames de 12º ano à porta e prestes a darem-se os concursos de acesso ao Ensino Superior, as notícias não se limitam às vagas disponíveis ou aos cursos com mais licenciados empregados, mas espremem até ao pus o tema das desigualdades sociais na frequência das instituições de ensino superior.

Não posso deixar de pensar que isto se deve ao facto de o governo que caminha para o fim ter sido da esquerda democrática, apoiado pela esquerda radical. A esquerda vive do combate à desigualdade social como a direita vive do apelo à caridade individual, poderíamos generalizar. Isto é sempre um exercício perigoso e injusto, embora sirva para começos de conversas. Sim, porque depois haveria que dizer que, com a esquerda radical, o fim dos pobres representaria o fim de uma importante clientela e que, com os conservadores de direita, o fim das desigualdades representaria um perigo para o acesso exclusivo a determinados direitos elevados a mordomias.

Esta apreciação propositadamente simplória serve para nivelar a perspectiva ao patamar da novidade das não-notícias sobre cursos frequentados por gente da alta ou da arraia-miúda. Porque nesse estudo, ou melhor, para sermos honestos, na divulgação em massa para o público de alguns resultados desse estudo, não houve luz sobre a evolução dos últimos 40 anos. Importava que fosse coisa feita à época ou à data, como se não tivesse havido ontem. Como se viu, ouviu e leu em canais abertos “a escolha de um curso superior, em detrimento de outro, é uma repercussão das desigualdades sociais do país. (...) o acesso ao ensino superior está longe de ser justo. (...) é a principal conclusão a que chega o estudo "a equidade no acesso ao ensino superior", promovido pela Fundação Belmiro de Azevedo Edulog, com base em dois critérios: a qualificação dos pais e a percentagem de alunos que recebem bolsas da ação social.” (TVI24).

Há muito, dos meus quase 30 anos de ensino na Universidade de Évora, que assisto a grupos maioritariamente constituídos por alunos que são ou a primeira ou, menos, a segunda geração da família a frequentar uma Universidade. Há sempre o argumento da interioridade e periferia da minha Universidade, mas quando relembro a minha turma da outra minha Universidade na Avenida de Berna, não deixo de encontrar tantas semelhanças... Cada vez mais me convenço que as desigualdades estão actualmente muito mais à saída do que à entrada, que o abandono é muito mais importante, e por isso imprescindível que seja vigiado, estudado e acompanhado.

No que me toca, é com grande esperança que começo sempre um ano lectivo e o acabo a perceber o quão difícil é fazer com que percebam que não chega dizer-se que “andam na universidade”. É que o levo, ao ano, a dar conselhos ténues e pouco intrusivos, do estilo “digo-vos o que diria aos meus filhos”, porque não quero ser nem caridosa, nem “maternalista”, como nenhuma instituição democrática deve ser. E eu acredito no papel da Universidade para ajudar a melhorar a Democracia. Às vezes consegue-se por frequência, noutras tem de se ir a exame de recurso. Noutras ainda há que repetir até lá chegarmos. Era importante era não desistir, nem apregoar resultados de estudos que não servem para nada. Não os estudos, claro, mas só aqueles resultados que são apregoados como quem repete inchado que “já anda na universidade”. Não chega.

25.6.19

Miguel, o instinto e o século XXI

Dez jovens resolveram praticar, e não apenas apregoar, a solidariedade. Aderiram a uma causa, integraram uma ONG e lançaram-se ao Mediterrâneo para salvar vidas. Suponho que uma ONG não seja um clube de jovens de bairro que se reúne num pátio abrigado entre prédios e que cumpra uma série de regras, legalmente enquadradas, para actuar ao lado de instituições governamentais que, como todos sabemos, também fazem turnos com o mesmo objectivo naquele mesmo Mar. Esses jovens cumpriram a missão a que se propuseram e, suponho outra vez, que não terão andado pelo Mar Mediterrâneo a piratear nem a conviver alegremente com traficantes de matéria ilícita. Como já aconteceu, em histórias até passadas ao cinema em que endinheirados jovens aventureiros ocidentais se metiam em “filmes” pouco recomendáveis em qualquer parte do Mundo e duramente penalizados nesses cenários exóticos. Eis senão quando, o governo de um dos países que mais tem visto chegarem até si esses milhares de refugiados, o que cria sérios problemas de acolhimento a requererem outras acções solidárias ao mais alto nível, começa a resolver o problema que tem entre mãos da forma que normalmente ouvimos propor como solução a, por exemplo, frequentes comentadores das Redes Sociais. Falo dos desabafos ao estilo “deixá-los morrer”, que “ficassem na terra deles, porque na nossa já temos problemas que cheguem” e outras exclamações dissonantes de quem talvez até vá a pé a Fátima, ou qualquer outro santuário. E alguns até, devotamente, montarão o presépio dos refugiados mais adorados, pelo menos uma vez por ano por alturas do Natal.

O Miguel Duarte foi um desses jovens. Só o conheci, provavelmente como a quase totalidade dos seus conterrâneos, por causa do vídeo no YouTube que circulou nas Redes Sociais, apelando em letras pequenas ao crowdfunding, suponho, mais uma vez, que para despesas com custas judiciais. Não podemos senão indignar-nos perante a ameaça que paira nos desenvolvimentos deste processo levantado por um Estado democrático da mesma União Europeia a que pertencemos (e mesmo isso devia ser só um detalhe), a Itália, a cidadãos que se organizaram para ajudar até iniciativas governamentais. Estranho apenas que a primeira vez que tenha ouvido falar do caso tenha sido através do Messenger. O que falhou entretanto? Ou não houve “entretanto” e o Miguel, como provavelmente ou não os outros nove elementos constituídos arguidos, lançou-se directamente para o YouTube? Será esta a nova forma para contornar burocracias na geração que “vive na nuvem”? A ser, e a par do bom humano instinto de salvar a vida do próximo em perigo, pode tornar-se num perigoso instinto de interacção com as instituições que se confunda e se nivele a outro tipo de iniciativas menos sujeitas a uma imperativa acção político-diplomática, como esta. 

O caminho aparentemente directo das Redes Sociais à Assembleia da República com bifurcação para o governo parece-me um curto-circuito perigoso e pouco recomendável. E sinal de que várias coisas, a vários níveis estão a falhar. E não apenas a eleição democrática dos “Salvinis” deste Mundo, supomos mais uma última vez, mesmo havendo ardilosas coincidências entre esses eleitores e certos utilizadores das Redes Sociais. 

18.6.19

O que realmente interessa no mês de Junho

Eu podia fazer uma crónica a propósito do congresso da Fenprof, que se realizou neste fim-de-semana, e se encheu de boas causas no seu programa dito normalmente social. Foi a angariação de fundos para um Moçambique vítima de furacão, passando por dar palco a organizações artísticas que acolhem crianças vindas de meios desfavorecidos. Ligá-lo-ia ao final das aulas que também se aproxima. E à pressão, toda em peso, que se atira para cima dos miúdos ao chegar a época de provas e exames, como se até agora tivessem estado só a brincar ao aprender. Ou, mais a propósito ainda, comentar o péssimo serviço que o eterno ex-professor Nogueira presta à democracia, em declarações à comunicação social, realçando com tom subliminarmente elogioso os que se deslocaram às urnas nas últimas eleições para anular os votos com um “942” escrito no boletim. Ou ainda a propósito dessa mesma pessoa, notar que recandidadar-se com o aviso de ser o último mandato é algo que pode ser lido ou como promessa de alívio para os que querem deixar de o ver dar a cara pela classe, ou como ameaça aos colegas com quem irá conviver na escola para onde for. O que quer que seja, é uma proposta eleitoral levada da breca, sim senhor!...
Podia falar de tudo isto que, numa sociedade contemporânea com a intervenção de agentes educadores, deveria ser consonante com uma formação de comportamentos. Mas não é. Se a propósito do congresso da Fenprof eu quisesse falar de educação não conseguiria, porque é um congresso sobre as preocupações de uma corporação, uma parte do plural sistema de ensino cujo centro é o cidadão. Um sistema onde actuam as famílias, e demais instituições governativas, das estruturas ministeriais às autarquias, passando pelos órgãos de gestão de agrupamentos e escolas.

Assim, porque Junho é também o mês internacional das questões LGBT, menciono o caso ocorrido em Londres há um par de semanas, onde duas raparigas, um casal, foram espancadas por serem lésbicas. Londres, uma capital onde a liberdade de orientação sexual se exprime na rua, às claras, há muito mais tempo que noutros países ocidentais, a violência exprimiu-se escolhendo estas vítimas. Estou em crer que foi um acto gratuito, ou seja, foi porque lhes apeteceu, aos agressores, zupar em alguém e aquelas duas raparigas estavam ali, e não porque era um casal de lésbicas. Podiam ser negros, orientais, hindus, judeus, gordos, velhos ou deficientes. Gente em situação vulnerável sobre quem se descarregou ódio. Os da causa LGBT indignaram-se, naturalmente, mas o episódio violento é, em absoluto, revoltante. As causas, quando crescem, deveriam, em meu entender, visar o benefício do todo e transbordar as margens do nicho em que necessariamente nasceram. Ou pelo menos não prejudicar o todo... E parece que sempre voltamos à actuação da Fenprof. Da minha parte, quando leio as declarações feitas pelo seu secretário-geral fico contente pelo facto do Ministério da Educação estar a começar a deixar de ser só o Ministério dos Professores. 

11.6.19

O bulldog francês

Por razões que agora não interessam nada, fiquei a saber mais sobre esta raça de ser canino (para abranger cão e cadela) recriada pelo ser humano. Convém irmos conhecendo as várias espécies de diversos géneros sobre os quais o lobby político ganhou certa relevância na sociedade portuguesa, agora que parece que se enterrou de vez o partido d’ Os Verdes, de Portugal para a Europa. Aliás, talvez não seja muito errado pensar, pelo menos enquanto exercício académico, que os votos perdidos da CDU tenham sido os dos invisíveis mas militantes verdes da coligação que encarnou a sua representação e que se mudaram para o PAN. É que na CDU foram manchados de vermelho sangue-de-boi, que é aquele tom concentrado da cor, o que é apropriado para um movimento armazenado dentro de um Partido quase centenário, a envelhecer desde 1982.
Mas voltemos ao bulldog francês. A criatura é esteticamente um animal controverso. Como toda a Arte com maiúscula, bem entendido. Fica toda a vida com ar de cachorro e em cachorro já vem amarfanhado como um velhinho. Ao estilo Benjamin Button, a personagem ficcional que demonstra, numa das várias possibilidades de interpretação, o horror de se concretizarem dois “wishfull thinking” suspirosos: “Ó tempo volta para trás!” e “Quem me dera ser novo e saber o que sei hoje!”.
Eu já conhecia as dificuldades respiratórias dos bichinhos que com a alegria, tão boa quanto inconsciente de quem agradece constantemente por estar vivo mesmo sofrendo horrores, estampada naquele focinho, arfa ruidosa e aflitivamente para quem não está habituado ao seu convívio. Apetece logo pregar-lhe com uma máscara de oxigénio, tal o sofrimento que aparenta. Só a sua alegria desmedida e aqueles olhinhos redondos e deslumbrados enquadrados pelas orelhitas pontiagudas nos acalmam, parecendo dizer: “Está tudo bem! Qual é o stress? Anda mas é brincar!”. 
O que fiquei a saber é que as companhias aéreas, que só admitem bichos até seis quilos junto dos donos, enviando os outros, os grandes e gordos que estão sempre tramados em qualquer género, espécie ou família de seres vivos ou minerais, para o inóspito porão da nave. Ora, com todas as dificuldades respiratórias que acompanha a pureza de pedigree de tão amado animal, parece que durante a viagem são mais que muitos os que caiem que nem tordos (outra espécie tão apreciada e perseguida pelo ser humano, o que dá aliás sentido à expressão idiomática).
Com o que aprendi de novo sobre a vida animal em sociedade (o resto conheço do convívio quotidiano de bichos que adoram os donos mesmo quando trocam entre si inexplicáveis “mimos” de amor), confirmei algo de que desconfiava há muito: é muito difícil, se não impossível, conciliar num mesmo grupo de identidades que se relacionam bem em determinado equilíbrio que a Natureza foi permitindo, alterando estatutos de cada um deles. Como Pessoas e Animais. Há associações que se esgotam nessa revisão estatutária e que se desequilibrarão. Serão quase espécies manipuladas geneticamente, forçando-se a criação de novas raças, até muito maneirinhas e bonitinhas, e muito amadas por muitos, e perde-se a oportunidade de tornar o mais saudáveis, sustentáveis e civilizados possível os exemplares já existentes da espécie - e refiro-me à humana. E que, quando vivia harmoniosamente com a restante Natureza foi ganhando, em pé de igualdade de oportunidade, o lugar que tem hoje. Isto, claro, salvaguardando o sempre presente risco de ela própria se auto-destruir, o que seria uma pena e levaria com ela outras espécies. Mas isso, por enquanto, é “sci-fi”.

4.6.19

Agustina


Passou definitivamente à eternidade Agustina Bessa-Luís. Agustina foi, talvez, o nome maior vivo que muitos de nós estudámos na escola. Ainda que ali, na escola, os escritores canónicos apareçam muitas vezes como gente sem existência real, tornados eles próprios figuras de uma ficção que é a vida daqueles que parece que não se cruzam nunca connosco, nas nossas vidas. A Sibila foi o seu romance que a popularizou entre os alunos, gostassem ou não da obra, o que muito depende, nestes casos, de quem é seu mediador. Tive a sorte com quem me ensinou a lê-la. Aprendi com ela, Agustina vertida em sibila naquele romance, o quanto o conhecimento do comportamento das pessoas é um dom que podemos adquirir se para isso estivermos predispostos. Adivinhar o que alguém vai dizer ou fazer resulta da capacidade de saber ler esse e outros alguéns. Não sendo uma feminista, a sua perspectiva sobre a realidade e os mundos que criou tinham essa marca do feminino. Dava força às personagens-mulher e isso era colocá-las num centro de valores maiores.

Vou deixar aqui o excerto dessa Sibila de 1954, não porque tenha sido o livro de que mais gostei, mas porque é a figura feminina que narrou, da sua galeria de personagens, que mais me marcou:
“Assim decorreu a noite, a vela ficou reduzida, queimou uma borda do seu encaixe de papel, para continuar depois a arder, imóvel, ovalada, como a chama do Espírito Santo. Quina abriu os olhos, e disse em voz audível algumas palavras que não eram delírio, nem oração, porque o tempo de oração estava no fim, e toda a sua alma se projectava num abismo inefável, se dispersava para entrar na composição magnífica do cosmos. Um sentido, nela, permanecia cintilante e que, portanto, sofria – era o amor, era a sua inesgotável dádiva de ternura, que sempre timidamente desviara da terra, para confiar ao mistério, ao que não é mesmo esperança, e que jamais trai e engana. Os passos ouvia-os agora mais sonoramente; eles vinham, e todas as portas se abriam à sua frente. Como repeli-los e como não amá-los também? Sentiu que os joelhos se lhe esfriavam e como que um banho de gelo a ia atingindo até à cinta, e subindo; as mãos guardavam algum calor, mas não as movia mais. Um sopro mais brusco do vento fez entreabrir as portadas da varanda, e Quina, num último olhar, abrangeu aquele céu esverdeado do amanhecer e que era imenso, e que, como em ondas do espaço, continuava mesmo através dos mundos, das estrelas vivas ou extintas. Os seus lábios emudeceram, e o som dos passos deteve-se, por fim, sobre o seu coração. A mão, um instante depois, deslizou e ficou fora do leito, com a palma voltada para cima, numa atitude toda confiante no seu abandono, cortando de través o bastãozinho de luz que escorria sempre, sereno, até à porta; via-se-lhe no pulso a mancha arruivada, que ela, no mais inviolável segredo de si própria, acreditara sempre uma marca de predestinação.”


28.5.19

O valor da Democracia

E lá fomos a votos, no primeiro acto de uma peça que conta nesta edição com mais dois (sim que a Madeira, apesar de ilha e pérola, não vive dentro de uma ostra e paga impostos e recebe financiamentos com impacto nacional). Depois do final do campeonato e da final da taça do desporto e do negócio mais idolatrados pelo povo português, o apelo para a governação da Europa voltou a não soar a cerca de 70% de portugueses.

É certo que não estamos sós, apesar de termos sido dos mais displicentes no uso da única arma de defesa que a Democracia distribui a todos os maiores de 18 anos indiscriminadamente, sem impedâncias de que tantas vezes ouvimos tantos queixarem-se: que é só para os amigos, que é só para os ricos, que os gordos não podem, que os brancos são ameaçados, que os negros são barrados, que os gays são ignorados, e por aí fora. Mas a desgraça dos outros não me consola. Nem a desgraça, nem a indiferença, nem a pobreza, nem a estupidez, já agora. Às vezes a única coisa que por desvairados mas concentrados e breves momentos me parece descansar é que essa percentagem de eleitores baldas não se dê nem sequer ao trabalho de ler, ou até só ouvir, as campanhas eleitorais onde se publicam e empunham as atrocidades que a coligação Basta! empenhadamente vomitou. Talvez o jejum eleitoral do povo e o resultado que esta camarilha obteve com os votos dos que aproveitaram a democracia para dizer que queriam acabar com ela, alerte certas elites de vários círculos que, normalmente por egoísmo, os ajude a enfardar até ao próximo acto eleitoral em que voltem a regurgitar mais do mesmo.

Mais do que contente com o resultado continuo insatisfeita. O resultado nacional não se pode festejar sem ser no contexto do conjunto dos restantes Estados-Membro. E só com o desenrolar da acção desta nova composição veremos se um certo optimismo e uma pálida esperança na Europa se mantém. Recomecemos, portanto, ainda e mais outra vez.

7.5.19

Europeias, onde ou quem


Esta será a minha última crónica antes da pausa para a campanha eleitoral das eleições europeias, no próximo dia 26. A Europa parece-nos longe porque temos tendência a tomar pelo todo, a Europa, aqueles que são eleitos para a representar, os eurodeputados. Não sem alguma razão, bem entendido. Mas razão que se perde quando a abstenção atinge níveis altíssimos, o que faz com que haja uma enorme fatia de possíveis eleitores que se deixa governar por quem não elegeu ou, pelo menos e por outro lado, tentou que não governasse. E a Europa estará tão mais longe quanto mais nos afastarmos dela desta forma, convencidos de que estamos a votar em “deputados de luxo”, amparando conversas que acima de tudo despromovem a Democracia em vez de a tornar mais exigente. Se calhar também é por isso que para estas eleições há uma maior desmobilização daqueles que julgamos estarem verdadeiramente interessados na Política, mas que depois percebemos que é só a fingir, que só aparecem nas Autárquicas ou nas Legislativas na esperança, às vezes ânsia, de que algum cargo lhes caia no colo. Aí é vê-los a defender o Partido como se lhes defendessem os ideais mais do que outros interesses que nele se movem. Conversas!

Mas esta relação de pessoas, Partidos, empenho político e votos é precisamente o que mais me interessa focar a propósito das Europeias. Há apenas umas eleições em que se pede aos eleitores que votem em pessoas: as Presidenciais. Aí sim, votamos em quem para além da partilha dos ideais connosco se revele o que consideramos ser uma pessoa que desempenhe um cargo onde é só seu o crédito das acções que venha a ter. Nas outras eleições, cabe aos Partidos encontrarem as pessoas que melhor o representem e aos eleitores votar no Partido que se quis fazer representar por essas pessoas. Sobretudo nas Autárquicas e nas Legislativas. Nas Europeias parece-me até que, pese embora todas as qualidades, ou falta delas, dos futuros eurodeputados, importará perceber a que grupo de deputados se juntarão os que de cada País forem eleitos. E aí a distância desse Parlamento de que não conhecemos tão bem, ou quase nada, o funcionamento, pode ser um factor decisivo para cativar ou desmobilizar eleitores. Cumpriria talvez mais aos candidatos a difícil e pouco mediática tarefa de explicarem exactamente o que votaram na Europa que beneficiou Portugal, para além da própria Europa onde devemos ir buscar, e levar, muito mais do que financiamentos que ainda muitos acham que não são públicos nem dependem dos nossos impostos. Ai não que não dependem! Só no dia em que os eleitores conhecerem minimamente este funcionamento serão verdadeiramente cidadãos livres para votarem nas Europeias. Até lá sentir-se-ão provavelmente quase manipulados por Partidos que menosprezam dizendo “ser todos a mesma coisa” e não vão votar.

E é também por isso que nas Europeias importa mais pensar não em quem, mas onde vamos votar. Em qual dos oito grupos representados no Parlamento Europeu – o grupo dos Socialistas e Democratas, o do Partido Popular, o dos Conservadores e Reformistas Europeus, o da Aliança dos Democratas e Liberais, o grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, o dos Verdes/Aliança, o da Europa da Liberdade e da Democracia Direta e, finalmente, o da Europa das Nações e da Liberdade; para além dos deputados que não pertencem a nenhum grupo político e, nesse caso, fazem parte dos chamados Não Inscritos. Claro que também podemos encontrar nalguns candidatos, mais do que noutros, qualidades que gostaríamos de ver representadas no Parlamento Europeu e que não estão ainda vinculados a nenhum deles, mas talvez seja bom prever que alianças farão quando lá chegarem. Não é fácil e dá trabalho, para além daquela sempre ingrata sensação de que há um risco na escolha. Mas não são assim todas as escolhas deixadas ao quase fatal e ainda maior privilégio de poder exercer o livre arbítrio?
 
Boa campanha a quem for na campanha, bons votos a todos os eleitores e até depois de dia 26.

30.4.19

À sombra de uma azinheira

As crónicas da Diana não são espaço de crítica de livros. Antes pressupõem, e muito bem, a visão política e sobre a Política. Mas eu, que por feitio profissional, me movo no mundo dos livros que são feitos por e para pessoas, não consigo deixar de usar amiúde os vasos comunicantes que ligam a Política às Literaturas. Utilizo o plural numa, porque o sistema cultural em que a arte verbal acontece é também plural. Mas mantenho o singular noutra, pois ela é aqui sinónimo de uma visão de princípio para a governação do Mundo, independentemente das particularidades que há, bem entendido, nas diversas circunstâncias em que é preciso actuar para que “a Cidade” se organize e funcione o mais harmoniosamente possível. Posto isto, a crónica de hoje que prepara Maio, mês também do trabalhador, é crónica inspirada em livro.

Motivos vários quiseram que atrasasse a leitura de um certo livro até há uma semana, apesar da amizade e consideração que me liga ao seu autor. O propósito da sua escrita foi por si bem enquadrado quer de viva voz comigo, quer aos microfones desta Diana. Após a leitura fica-me o lamento que o trabalho de quem se diz Editora seja igual a zero. Uma negociata, a destas “editoras-vaidade” como a Literatura a sério bem lhes chama, que tende a atirar para o lixo o que não é. Só vêem até ao seu bolso e desmerecem o valor, sobretudo simbólico, que o livro tem e deverá continuar a ter para autores e leitores. Uma questão de respeito, seriedade, cuja ausência não consigo ultrapassar nem calar. É tantas vezes assim que se mata à nascença algo que podia ter uma longa e boa vida para além do circuito que se deixa ficar pequenino e pouco faz em prol do público. Enfim, avancemos.

Logo a abrir a prosa que nasce da memória, entramos precisamente num mês de Maio, Alentejo geograficamente profundo, debaixo de um daqueles calores que, inenarráveis, encontram nesta escrita as imagens (com cheiro, som e temperatura) certas e próprias de quem as sentiu mesmo. Através das páginas do livro vamos entrando num mundo simultaneamente conhecido e ficcionado, íntimo e colectivo, próprio e de tantos outros de uma geração que nasceu na segunda metade do chamado Século do Povo. Se a vila alentejana é o lugar paradisíaco da infância, como são todos os das infâncias felizes, é também o lugar de purgatório para os que não têm ou a sorte ou a oportunidade de fazer a sua própria sorte, seja por que motivo for, pessoal, familiar, social. E quase tudo ao ritmo do comboio, esse símbolo do progresso que para alguns está só de passagem e pouco adianta às vidas. Pouco mais que um relógio, um calendário, uma carta ou uma carroça que leva e traz notícias e gente dentro.

O que me sensibilizou neste retrato ficcionado e tão realista de um Alentejo foi o quão paradigmático é deste lugar ao Sul. A galeria de personagens tão autenticamente atraentes, o que não tem só a ver com os modelos inspiradores, mas sobretudo com o afecto genuíno de quem verte memórias na escrita e homenageia lugar e almas. Ficamos a perceber melhor por que um homem dedica uma vida a querer partilhar esforços e sucessos com o “seu” colectivo. E como o lugar da escrita, e desta literatura autobiográfica e memorialista, é um comovente momento e monumento de homenagem a um certo povo não tornado massa informe e manipulável a que muitas vezes, hipocritamente, se dá o nome de Povo, assim com maiúscula.

Se o livro traz “a peso” o progresso que o comboio representa, o que impressiona é como nada disso parece, até aos dias de hoje, arredar das pessoas dali que é também o aqui, para o bem e para o mal, uma mentalidade que tem dificuldade, ou que em sentido contrário tem é mesmo vontade e faz por isso, em deixar de querer viver a vida “à sombra de uma azinheira”. Que o progresso não precise que um dia se lhes arranque a azinheira, e que a vida fora da sua sombra lhes dê a força, só e muito sua, para de lá sair, desse tempo mítico da infância também de uma sociedade democrática construída por todos e não só por, e consequentemente para, alguns. Que Maio também sirva para pensarmos nisto.

23.4.19

Os Democratas

A viagem era curta e pouco amiga do ambiente. Curta porque foram muitos quilómetros feitos em pouco mais de 30 minutos. Pouco amiga do ambiente porque parece que, afinal, tudo o que vai para além do ritmo natural de um ser vivo pode ter um impacto negativo no que está à sua volta. Embora, depois da histeria gasolineira da semana passada, comece a pensar que antes de que a Natureza alguma vez retalie sobre o ser humano, já os seres humanos, de uma forma ou outra, se tramaram uns aos outros, aos poucos. E tudo bastante ajudado pela estupidez de muitos mais do que só aqueles que, nada tendo de estúpidos, apuram, com o aplauso desses, o dom da manipulação. Mas voltemos ao dia daquele vôo.

A revista mensal de Abril da transportadora aérea que nasceu nacional trazia, como é agora costume neste mapa contemporâneo em que aparentemente têm lugar de destaque todos os ofícios humanos que possam ser transaccionados, um texto de autor de literatura. Gonçalo M. Tavares, em formato edição bilingue, ocupava a página ímpar de um par delas que se enchia com título, autor e imagens trabalhadas. E o que me chamou a atenção, não fosse só o nome do autor que se reconhece com gosto, foi o título do texto: “Conversa sobre democracia, num banco de jardim”.

Quem conhece o Gonçalo M. Tavares reconhece sem estranheza a sua maneira de arrumar os sons nas palavras, as palavras nas frases, as frases no texto que criam ali no papel a imagem do que se vê e ouve naquele mundo imaginado. Mas ouvir uma conversa de jardim sobre Democracia em Abril, nas nuvens, pode ser surpreendente. Agradavelmente surpreendente. Depois recorda-se que, de um dos livros folheados do autor, aquele texto não era afinal estranho. O livro de onde saía era sobre uma viagem também, com conversas entre um eu e outro eu, parecia-me. Mas ali, numa revista que vende como destino de fugas paradisíacas lugares onde, apesar disso, vive e se governa gente, parecia estranho.

É o mês de Abril em Portugal e soa-me muito bem aquele pedaço de boa prosa em português a misturar-se com personagem de nome estrangeiro de referência mítica e a dizer coisas tão acertadas como só os que conhecem o poder das palavras sabem dizer e ler. E cito a frase que encerra o texto e que me acorda a por vezes tão dormente boa esperança ao aterrar em Portugal no cabo da viagem: “A decisão política de um democrata, diz Jonathan, é o ato do corpo que envolve mais sentidos humanos: além dos cinco habituais, ainda o sentido de justiça.” 

E eu apercebo-me de que não é com abraços, beijinhos e olhos em alvo numa máscara de lírio pendente na cara que se fazem os democratas. E que é o tempo de perceber porque, ainda assim, teremos de continuar a repetir: “25 de Abril sempre!”

16.4.19

Os incrédulos

A Páscoa é a Festa judaico-cristã. Para os crentes não há festa como esta. É nela que se celebra a vida depois da morte. Haverá lá coisa mais reconfortante do que saber que se permanece vivo no fim da história e que o “foram felizes para sempre” afinal não é a fingir! Apesar destas certezas em algumas pessoas não afastarem medos, nem demoverem vontades de deixar nesta vida o que não podem levar para a próxima. Mas adiante, porque estes desconfortos são de quem procura uma ordem fora do coração e alojada apenas nos neurónios, o que não dá grande ambiente quando se convive com gente de quem se gosta e de coração e neurónios no sítio e a funcionar bem.

Há estas coisas da Religião que trazem a alegria a muitos e depois há também as coisas da Ciência que se agarram àqueles que, por definição, têm sempre poucas certezas e vivem cheios de dúvidas, à procura de provas. Às vezes, mais raras, convivem estas duas personae em espíritos abençoados que conseguem, de forma sublime na minha quase invejosa opinião, ir conciliando o mistério da Fé e a inquietação da Ciência. Uma felicidade que, talvez nos menos crentes em mistérios e mais ansiosos em poderem descansar perante a incerteza da Ciência, se consegue quando acontecem coisas como a primeira fotografia de um buraco negro. E assim como os incrédulos de Fé tendem a fazer chacota com as certezas dos crentes, assim também os houve quem, de espírito habituado à paródia, tratou logo de, no ambiente certo para isso, fazer piadas com fotografias semelhantes em lugares mais banais do que lá no meio do Universo.

O que não tem piada nenhuma, e é até um bocado triste, foi a notícia daquele bando de “cientoligiosos” que se puseram a caminh0 do Pólo Norte para provarem que a Terra não é redonda. Mas a eles também, como aos meus ouvintes, eu desejo uma boa Páscoa! Pode ser que lhes passe...

9.4.19

O logro da opinião pública

Eu sou do tempo do pós-25 de Abril em que toda a gente falava de Política. Muitas pessoas quase analfabetas discutiam a sua opinião fazendo ressalvas sobre o não perceberem nada daqueles assuntos, mas... E quando os interlocutores eram de uma elite que tinha passado os anos precedentes a 74 a ler e discutir clandestinamente sobre assuntos proibidos, invariavelmente a resposta a esse auto-apoucamento era de louvor à livre expressão de opinião. Louvava-se a forma como o estavam a fazer, argumentando em público sobre como gerir a coisa pública, já que em Democracia isso era fazer Política. Bem entendido que esse foi o tempo em que a percentagem dos que acorriam às urnas nas eleições fazia desses dias verdadeiros dias de romaria e festa. 

Era a infância da Democracia em Portugal. Essa idade de ouro que muitos olham com uma certa nostalgia. Uma nostalgia que se pode revestir de duas faces: a realisticamente pessimista que lhes retira as expectativas de que alguma vez a Democracia seja o adulto que tão feliz infância prometia; e a realisticamente oportunista que continua a dizer que dá voz a todos, mas que acaba por usar para si mais umas vozes que outras, resultando a habilidade que para calar umas as outras berrem desalmadamente. E isto, obviamente, não faz nada bem ao ambiente que se quer adulto, sem ser cinzento – ou vermelho, porque o que importa não são as cores mas a monotonia das mesmas. Quando se mistura tudo não se dá atenção a nada. Na mesma lógica, o que é de todos não é de ninguém. E isto, em Democracia, é muito perigoso.

Vir dizer que a opinião pública está mais exigente e escrutinadora é enganar as pessoas. Tal como chega dizer às pessoas o que é permitido ou proibido em Democracia, o que se despenaliza e o que se liberaliza, porque as pessoas exigem integridade e transparência. E depois esquecer-se que já houve momentos em que quem diz isto, como foi caricaturado, dizia que “é proibido, mas pode-se fazer”. Tudo isto para agradar a quem é a favor e a quem é contra e, numa chicana, vender-se a todos como se o todos fossem uma massa que se deseja informe e mais fácil de moldar. Populismo, é o que se chama a isto. 
Tratar a opinião pública assim como uma confusão de vozearias e, quando útil, promovê-la a fiel da balança de políticas públicas, usá-la usando os seus imponderados e epidérmicos argumentos, que tantas vezes lhe são injectados por elites bem organizadas e quando dá mais jeito, é um logro, uma intrujice, uma peta. Mas, hélas!, essa opinião pública, assim aconchegadinha, é a que, quiçá, se dará ao trabalho de ainda ir votar. E é por isso que o voto obrigatório já foi para mim uma realidade menos necessária e mais distante. 

A opinião pública tem o seu quê de lirismo, e eu explico porquê. Quem não estuda literatura - um campo com técnicas, métodos, história e teoria próprios - poderia dizer que aquele menino que, quando a escola não era a tempo inteiro ao terminarem as aulas não tinha ninguém em casa com quem ficar, dizia que ficava “fechado na rua”, estava a fazer poesia. Não estava. A frase bonita que disse era apenas reveladora de uma incompetência linguística, um ainda imaturo uso da linguagem, facilmente confundido com a capacidade de metaforizar. Esta é própria dos Poetas, aqueles que tantas vezes, como eu já também tantas vezes disse e não me cansarei de repetir, olha para o Mundo com um olhar inaugural, como se fosse a primeira vez, e lhe descobre o que está escondido ou esquecido. Como também não me cansarei de, na medida das possibilidades que estão ao meu alcance, contribuir para que a opinião de um que se juntando a outros, e eventualmente contribuindo para a opinião pública, seja baseada no uso do siso, usando as faculdades da razão, com a liberdade de ter a sua forma de, precisamente, pensar por si.

2.4.19

Não, não é normal

Não sei se alguém já alguma vez vos pediu que metessem uma cunha para que fulano, que conhecem vagamente mas é sobrinho da prima do vizinho impecável, fosse desempenhar uma determinada função; e que o fulano tivesse conseguido por isso o cargo e tenha sido altamente incompetente e incapaz. Deve ser uma vergonha... para quem meteu a cunha. Mas há quem ache normal estas cunhas e anormal quem não lhes ceda e não ache que, ser aquela pessoa a quem se mete cunhas, é crescer alguns centímetros.

Pois é, as relações entre membros da mesma família no mesmo Governo não é normal, mas também não devia ser tema da conversa que para aí vai só porque sim. Elas, de facto, são também sinal de fechamento de certos grupos em determinadas funções, para além de serem resultado de crescer com interesses e conversas à mesa em comum. E dos cargos políticos em equipa terem de estar assentes em relações de uma confiança que só imagino que deva existir equiparável quando nos metemos nas mãos de um cirurgião.

Essas relações que existem em todos, repito, todos os Partidos, estendem-se a autarquias, mas também, por exemplo, a universidades (a famosa endogamia que compete com as chamadas “formações de aviário” e que acabam por desvalorizar as próprias instituições, independentemente do mérito de quem nelas corresponda a esse perfil), quando se tornam tão visíveis como agora, só terão, atrevo-me a alvitrar, solução compósita e de frentes várias e simultâneas: que os estranhos à família estejam particularmente atentos para que a relação familiar não seja prejudicial ao resultado do desempenho definido para a função; que se constituam mecanismos dentro das organizações em que o mérito seja previamente escrutinado, no caso de cargos por eleição, antes de os familiares se constituírem como única solução ou opção; e que ao mínimo deslize de alguém que esteja nessas condições se exonere a pessoa e que quem a substitua não possa estar nessa mesma condição. Obviamente que isto é ilegislável, mas assim como nada há a proibir a situação presente, estes termos seriam uma boa referência. E a Comunicação Social poderia, então, aprofundar muito mais os casos que deram para o torto, do que andar só a soprar a espuma dos dias para nos dar matéria para umas piadas, algumas bem divertidas, diga-se. São casos não normais, merecem mais atenção do que só serem faits-divers, que é o que vai acontecer quando, e se, se abrir mesmo este assunto assim transformado em Caixa de Pandora.

Quando me convidaram para um dos alguns cargos políticos que já exerci e o comuniquei passadas umas semanas a uma pessoa próxima da parte da minha família que sempre teve membros politicamente ativos desde há quase 100 anos, essa pessoa perguntou-me quem tinha dito a quem me convidou de que família eu era. A expressão da pessoa, por amizade estou em crer, quando lhe respondi que essa pessoa ainda não sabia, foi quase de desilusão. É o que temos, e não, não me parece que deva ser normal.

26.3.19

Embirrações e Birras

Vou voltar à “manif” do #FazPeloClima no dia da greve às aulas dos miúdos das escolas. Não que pretenda fazer deste assunto uma série, género tão do gosto leitor juvenil, mas normalmente de desgaste nas qualidades literárias entre o primeiro sucesso e as sequelas. Vou antes espreitar rapidamente algumas reacções, e acções, dos crescidos. É que as houve desde quem achou - e sim o “achismo” é uma deformação do direito à opinião tão popular como deseducativa – que o Ministério da Educação devia ter dado “tolerância de ponto” para que os alunos não tivessem que faltar a testes, o que é ou revelador de inconsciência sobre o papel das instituições e das funções de cada um num sistema, ou de um paternalismo socialmente lamentável; desde este “eu acho” até às declarações em artigos e crónicas de opinião em órgãos de Comunicação Social de impacto nacional, como o fizeram Vasco Pulido Valente e Manuela Ferreira Leite.

Respeito estes dois seniores do mundo público e político português, com quem pontualmente cruzo opiniões semelhantes, sobretudo quando expressam uma certa mundividência do comportamento humano (embora isso não garanta que se comportem efectivamente de acordo com o que dizem. o que é até pouco comprovável). Um ridicularizou a possível manipulação destes miúdos pelos adultos, a outra achou a iniciativa deseducativa, ambos alegando que os comportamentos desta jovem geração contradizem as palavras de ordem e, aqui até concordarei com Ferreira Leite, acusam terceiros antes de exercitarem e tirarem as devidas consequências do “mea culpa” obrigatório quando usamos o pronome pessoal “nós”. Esquecem-se, os sábios seniores, que não é da posição instalada de quem tem um megafone sempre à disposição, mesmo tendo vivido em épocas e eras onde o uso da palavra em público lhes era vedado, que podem ditar as formas de muitos outros expressarem o seu descontentamento e reclamarem os seus direitos. Bem sei que a alguns, e não só seniores asseguro-vos, chocará o uso de um certo palavreado que, dizem e eu percebo, descredibilizam as razões sérias da luta, mas habituem-se os que julgam que é fácil “educar as massas” sem que, em troca dos princípios tidos como bons, se conceda nalguma patine mal espalhada de efeito menos requintado. Destas opiniões críticas e bem argumentadas ficou certamente uma pista para o futuro e com que a geração que se manifestou no passado dia 15 vai ter que lidar: estão “entalados” quanto aos vossos comportamentos, com que se comprometeram ao afirmarem que estão disponíveis para “fazer pelo clima”. A palavra simpática seria “convocados”, a que resulta das opiniões dos sábios seniores foi mesmo “entalados”.        

Destas embirrações com a turba ululante dos miúdos, gostava ainda de mencionar três espécies do “género birra” de indivíduos graúdos com direito a holofotes directos, e a que assistimos na última semana. E todas elas pouco educativas e edificantes para a jovem geração que esteja a aprender o que é o comportamento em política, que foi o que fizeram quando saíram à rua organizados. Uma de transmissão mundial, outra nacional e a terceira, uma hipótese de birra talvez só leitura dos mais atentos ao mundo dos Partidos. A primeira vem do Parlamento britânico, na figura da senhora May, e que com o grave imbróglio do Brexit põe de rastos o que é o dever de honrar compromissos, quanto mais não seja o do respeito pelos prazos de “entrega de trabalhos” e que deixou de ser, afinal, um “deadline” que deixa incumpridores impunes. A segunda vem, da que foi mesmo chamada “birra”, do Primeiro Ministro português no último debate quinzenal na Assembleia da República, quando tentava explicar o óbvio a quem, obviamente, não soube lidar enquanto oposição, a não ser comportando-se como insurrectos que não querem saber do que se passa na aula, e provocando só porque sim. Como os alunos engraçadinhos, que põem o dedo no ar para fazer uma pergunta que nem é retórica, serve apenas o seu público, e que não pede resposta do professor mas gargalhadas e malabarices dos colegas. A terceira possível birra desconfio que aconteceu no CDS, com o jovem e promissor político Adolfo Mesquita Nunes, que se calhar zangado por não ter sido escolhido para lugar elegível na lista dos Eurodeputados às próximas eleições, saiu com o estrondo elegante – ele é elegante! – de quem diz “se não me escolheram vou ali e já volto, fazer a minha tropa para quando a guerra recomeçar”.

Enfim, três birras que aconteceram, ao contrário daqueles com quem alguns embirraram por causa da manif do ambiente, em meios onde circula gente que tem a voz sempre projectada por um megafone que anda ali por perto, e que bem devia pensar que todos estão a assistir e que “alguém” os está mesmo a ver. Para os primeiros tão deseducativas, para os outros, infelizmente mais raros, tão elucidativas.


19.3.19

À espera da Primavera

Março parece-me, agora mais do que nunca, mês de renascer: Primavera no hemisfério norte, Juventude em Portugal, e Mulher no mundo inteiro. Descansem os ouvintes/leitores que não vou fazer uma composição sobre a Primavera. Que foi o que fez um tio-avô meu, quando na sua actividade de jornalista entre outras, no Estado Novo, cansado de ver muitos dos seus artigos traçados a azul, resolveu um dia fazer uma redacção com esse tema ao pueril estilo da escola primária. Não conheci o tio António Ramos de Almeida mas sempre ouvi falar bem dele. Morreu novo e lutou com a palavra. Tenho de o visitar no Museu do Neo-Realismo, talvez esta Primavera...

Não consegui ficar indiferente ao movimento #climatestrike, que em Portugal se chamou #FazPeloClima. Acompanhei-os, aos muitos e muito jovens, aqui ao pé de mim. Respondi a quem perguntava o que era aquilo, assisti à reacção de quem é poder aqui, no local. Sobre esta reacção nem me apetece falar. Fazê-lo era como partilhar numa rede social o que achamos que não merece senão ser esquecido de tão ridículo que é. Mas adiante.

Fiquei curiosa com o impacto deste movimento, que não me parece que arrefeça tão cedo a nível mundial, pelo menos pelas grandes capitais europeias, que impacto terá na actividade politico-partidária. Será que votarão mais? E darão os seus votos a Partidos ou protestarão com os brancos e nulos? E a que Partidos? Juntar-se-ão ao Partido que parecia reflectir essas preocupações mas se perdeu em propostas ridículas ou que, pelos vistos, não conseguiram deixar de ser ridicularizadas? Criarão um Partido que se descole da divisão Esquerda-Direita, Liberais-Conservadores, Democratas-Republicanos? Ou integrar-se-ão, infiltrados mas de cara destapada, em alguns Partidos? E se o fizerem, aceitarão cair nas incoerências em que a Política com maiúscula não pode cair sem se tornar politiquice, trocando posições por questões de interesse pessoal e cortando aos poucos o cordão umbilical (e indelével como a vida nos ensina) com a Terra Mãe?

Gostava de assistir ao desenrolar desta revolução que parece estar a acontecer. Não sabemos se será muito lenta, se será como uma guerrilha ou se haverá grandes batalhas que ditarão o rumo das tropas. Como os jovens, também nós, os que já estamos oficialmente na curva descendente, temos sempre alguma pressa de ver as coisas acontecerem rapidamente. Às vezes as desilusões que tivemos retiram-nos alguma esperança, mas é de um enorme egoísmo retirar essa esperança aos jovens, se bem que seremos igualmente úteis se ficarmos por perto, sem paternalismos, em caso de vacilação ou de perigo previsível.

Não sei se terei esse tempo, mas enquanto cá estiver e sempre que quiserem o que lhes posso dar, e eu puder, esta geração será para mim a geração que não está perdida. E continuarei, mesmo no mais agreste Inverno, ali ao pé, à espera da Primavera.

12.3.19

O Pinto-Esperto


O rapaz tem um ar vivaço e aparece nas televisões lusas em cenário búlgaro com discurso fluido e com tom de que tudo quanto diz é óbvio para qualquer comum mortal. Não óbvio porque “poucochinho” e fácil de entender, mas porque, cheio dele mesmo, a mensagem que sai da sua boca oracular atinge os píncaros do bom-senso e só pode estar prenhe de razão.
Pela profissão que tenho, lido quotidianamente, e ano após ano, sobretudo com jovens. Tento fazer com que mantenham a vivacidade própria da idade e consigam encontrar o equilíbrio saudável, para eles e para os que com eles convivem, entre uma certa displicência que não os torne ansiosos e uma ansiedade que não os deixe passar ao lado do que pode ser-lhes importante. Por esta altura já terão percebido que falo do hacker do footballeaks que está em risco de ser extraditado para Portugal, se é que à hora a que me ouvem ou lêem não está já por cá.
Diz que se sente ligeiramente em perigo, agora que saiu da “nuvem” onde andou a espreitar pelo buraco da fechadura de portas que, para o bem ou para o mal, têm direito a estar fechadas. Se o rapaz de sotaque e divertida aparência (confesso a sincera graça que lhe acho ao look ) “Porto-Espinho” tivesse ouvido contar (e se calhar ouviu) o que acontecia às personagens que nas histórias tradicionais ouviam atrás da porta e espreitavam pelos buracos da fechadura, tinha razões para ter medo. Não porque lhe possam alguns “limpar o sebo” transformando-o, esse perigo iminente, naquele herói de filmes e jogos que deve frequentar nas horas em que não está a piratear e a violar a privacidade de gente a sério, seja gente mais ou menos séria. Mas porque essas etapas do herói bisbilhoteiro tantas vezes atrasavam o desenrolar da história e a chegada do final feliz.
É que este justiceiro do primeiro quartel do século XXI, que talvez já tenha quase nascido ligado à .net, representa o mau uso da acessibilidade ao mundo interconectado desejável para todos como sinónimo de progresso. E que a par da facilidade em aceder a mais informação, a obter agilmente soluções para problemas ou processos que nos roubam tempo de qualidade à vida, a par de tudo isto e mais algumas coisas, se mantenha o direito à privacidade. E dando-lhe o valor que não a transforme, por se lhe querer atribuir uma imagem banalizada de bas-fond. Aprenda, jovem, que o segredo tem muitas vezes boas razões para existir, e que atrás de uma porta não existem só malfeitores a conspirar. Se este princípio se acabar e se se banalizar a devassa sob a capa de uma justiça por acontecer, “descanse”, jovem, que quem “vier por mal” rapidamente encontrará alternativa para continuar. E pelo caminho muita vida íntima, integra, terá sido interrompida.

5.3.19

Hoje há palhaços!


Como é Carnaval e gosto pouco, ou nada, de me mascarar em qualquer altura que seja, lembrei-me de falar daquelas máscaras que são toleradas, e até acarinhadas felizmente, ao longo do ano em certos locais públicos. Falo dos palhaços, naturalmente, de que mais poderia falar?
Os palhaços servem para fazer rir, ponto final. O riso espontâneo, arrancado à ingenuidade que alguns já perderam e à emoção que outros ainda não aprenderam que têm. O que os palhaços fazem, e que leva ao riso, e às vezes às lágrimas de tão bonito que é ver o riso sair do que deixa de ser ridículo e passa a ser belo, dependerá consequentemente do público a que se apresentam e que os incentiva a fazerem as suas, cada vez melhores e mais divertidas, palhaçadas.
Não existe um palhaço sozinho em casa ao espelho. A não ser que se esteja a preparar para sair a público e receber os aplausos daqueles a quem vai entretendo. É acarinhado por todos os que lhe pedem que volte outra vez, tem o seu público fiel, que o faz continuar a ser palhaço. E não precisa de fazer muito em palco, o palhaço, basta fazer muito bem feito. Mesmo o muito bom palhaço, o que é muitíssimo famoso e aplaudido por multidões, só precisa de fazer, com muita arte, as chamadas palhaçadas. Não é um humorista que até percebe, e tem de demonstrá-lo, de uma retórica certeira, uma arte de usar o verbo para arrancar o riso das pessoas, por puxar-lhe pelas celulazinhas cinzentas. O palhaço normalmente faz também sair as emoções dos que assistem ao seu espectáculo mas sem que tenha que demonstrar que há um pensamento, uma certa lógica, enquadrada e contextualizada, com argumentação séria.
Quando num espectáculo para rir a argumentação é incoerente, desmontável, mesmo que, não sendo, pareça verdadeira, é uma falácia. E aí não temos um bom humorista, e talvez nem tenhamos sequer um bom palhaço. Porque se fosse mesmo bom, o palhaço sabia fazer outras coisas que fizessem rir só porque sim e não porque quisessem ser verdadeiras. Há no palhaço uma espécie de arte especializada em fazer sair o riso sem precisar de dizer porquê ou para quê. Os palhaços são como as cócegas. E é por isto que, quer para fazer, quer para entender o humor, é preciso usar as celulazinhas cinzentas que se tem. E que para fazer boas palhaçadas. que arranquem boas gargalhadas. é preciso tocar nos corações das pessoas.
Dito isto, até parece um bocado injusto que a de palhaço seja uma máscara tão associada ao Carnaval, essa época em que podemos ser o que não somos, e fingir sem enganar e sem nos enganarmos. A não ser que, na lógica do mundo ao contrário, do fazer de conta que se é não sendo, a máscara de palhaço seja a dos que não têm pingo de emoção, nem pescam nada da arte de fazer cócegas na alma e de nos pôr a rir. E aí, sim, é Carnaval a sério. 

Bom, mas Carnaval é Carnaval até em Évora onde há tema obrigatório para ser Carnaval oficial, imagine-se. O deste ano foi um tema muito “à frente”, futurista mas muito sério: Évora, Capital Europeia da Cultura 2027. O desfile terá feito as delícias dos foliões, naturalmente, até porque Évora já foi capital em que os textos de Gil Vicente eram representações de referência onde o humor resiste ao Tempo. Neste Carnaval oficial em Évora a linguagem foi, no entanto, de fino recorte bolsonarista, já que se ouvia na Praça maior da cidade o Samba da terra de Jair, com versos tão sugestivos como: “sou casada, mas ele faz tão gostoso / dim, dim pode dar em cima de mim”.  Que arrojo, nossa!   


26.2.19

Era uma vez a ADSE


Era ainda o terceiro mês de 2018, mas já não era a primeira nem a segunda vez que, naquele ano, ela ia fazer aquela cirurgia urgente. O problema parecia estar a tornar-se, para além de agudo, crónico. As consultas, porque podia escolher mesmo sendo beneficiária do subsistema de saúde chamado ADSE, eram em hospitais particulares. As cirurgias, daquelas que se fosse numa sala de espera das Urgências do hospital público teriam direito a atendimento de  pulseira vermelha, também tinham sido assim, urgentes. Num ou noutro hospital privado, empresas diferentes, consoante o dia que o cirurgião tinha um ou outro na agenda. E esta cirurgia seguia a mesmo caminho, desta feita em hospital privado, muito antigo e modestinho de aparência, nada desses novos impérios da saúde com instalações que parecem aeroportos.

Também este, mesmo sendo mais modesto ao estilo hotel de charme, tinha a convenção que aligeirava os custos da “coisa”. Como ela já conhecia também o método da gestão desta parte burocrática, feita com o desespero de quem está fragilizada pela situação, sabia que uma quantia mais elevada era pedida à partida e que mais tarde viriam acertos para aliviar. Daquela vez, no entanto, espantou-se com o quão mais elevada era a quantia. Só mais tarde se deu conta da polémica que estava a começar a ouvir-se sobre a ADSE e os Privados quanto ao preço dos chamados “actos médicos”. Assinatura para aqui, depósito para ali, no meio dos papéis vinha uma novidade: uma tabela, em branco, que anunciava em cabeçalho tratar-se da lista dos materiais médico-cirúrgicos que seriam utilizados. Ela pediu desculpa à pessoa que a atendia, que não era nada de pessoal, mas que por princípio não assinava folhas em branco. Que não fazia mal, respondera a pessoa amavelmente, que quando viesse mais tarde acertar as contas que assinaria a tabela já preenchida com a listagem exacta do que tinha sido usado. Passadas poucas semanas assim o fez. Regressou para receber a quantia que lhe era devida pelo acerto. Ninguém lhe pôs nada à frente para assinar, mesmo depois de ter perguntado pelo dito papel e confirmado se estava tudo certo e acertado.

Meses depois, após vicissitudes várias que tornavam não só o seu caso num caso grave,  como a tinham tornado a ela própria numa quase especialista destas andanças de hospitais, consultas, cirurgias urgentes, num entra e sai, numa recibo-factura-original-duplicado, para cá e para lá, regressou a esse mesmo hospital para aquela que desejava mesmo muito que fosse a última das cirurgias àquele estupor daquele problema. O conflito ADSE-Privados ainda não se tinha extremado como está agora. Mas naquele mesmo hospital voltaram a fazer-lhe a mesma proposta – indecente, está bom de ver – para que assinasse uma folha em branco com a lista do material que usaria, etc., etc. Como se costuma dizer, o mesmo enredo.

Ora digam-me lá se esta história, que não é da carochinha, não senhor, apesar do “Era uma vez” porque não foi só uma vez, e que aconteceu mesmo que eu sei, não nos deixa a magicar sobre o quanto material médico-cirúrgico a utilizar terá ido parar a contas de beneficiários da ADSE?... Como diria o Fernando Peça, aqui há muitos anos, na televisão: “- E esta, hein?”