18.12.12

PREMIAR

Desde há quase sempre que há velhinhas e velhinhos a viverem sozinhos. Conhecemo-los até das histórias tradicionais do “era uma vez”. Também há muito que ouvimos contar ou conhecemos gente, pais e mães, que com muito sacrifício mandam os filhos para longe de casa dando-lhes uma oportunidade para construírem a sua vida melhor que a deles próprios. Estas histórias não são novas. O que é novo em Évora, e foi premiado pela Fundação Manuel António da Mota, é esta conjugação de esforços e trabalho de gente que em diversas instituições vão garantindo o funcionamento do Estado social, conquista de que todos nos devemos orgulhar.

Nascido de um desafio dos estudantes da Universidade de Évora à Câmara Municipal, o projeto «Laços para a Vida» tinha de ter a consistência, a segurança, o cuidado de ser pensado, construído e acompanhado como o deve ser qualquer medida que envolva as pessoas. E assim foi. Com quem está diariamente no terreno e conhece as fragilidades e particularidades dos idosos que se sentem sós – a Cáritas Diocesana e a Unidade de Cuidados na Comunidade; com que voluntariamente dá aos outros o seu tempo melhorando-o e melhorando o dos outros – os voluntários do Banco do Tempo; e com o Gabinete de Apoio ao Estudante da UÉ, a Câmara Municipal pôs mão à obra. A Fundação Montepio percebeu também a importância do projeto e apoia-o financeiramente na sua divulgação e em pequenos arranjos que as casas precisem para receber estes novos hóspedes.

Nós o sete estamos a fazer a nossa parte e a sensibilizar os nossos munícipes mais velhos para que, em seu próprio benefício, exerçam esse direito cheio de responsabilidades que é serem cidadãos participativos. Em prol da intergeracionalidade e da solidariedade entre gerações, todos estamos convocados para agir, nesta Cidade que sendo património da Humanidade é, não só dos Eborenses, mas de todos.

Este prémio reconhece-o e incentiva-nos a prosseguir, por isso este prémio está e estará sempre presente em cada “laço”, com casa e companhia, que um idoso e um jovem deem, e que ficará para a Vida. A deles e a nossa.

ATRACAR

Parece que o navio «Funchal», atracado em Lisboa, tem servido desde há dois anos de abrigo a sete homens que nele trabalharam e que agora, sem ordenados nem nenhuma espécie de finalização de contrato normal, lá continuam a viver. Tendo eu tido familiares no então chamado Ultramar, foram algumas as viagens que fiz em grandes navios, embora fosse tão pequena que só delas tenho alguns lampejos na memória. Mas a viagem no «Funchal» até à ilha da Madeira, onde fui fazer a 3ª classe porque foi lá que a minha mãe, professora, se efetivou, marcou-me como a minha primeira experiência de saídas e daquilo a que chamamos as “borgas”. Dois dias e duas noites de viagem, com a autoridade materna trancada no camarote vítima de um valente enjoo non-stop, o corrupio de uma assisada miúda de 8 anos, num espaço confinado mas cheio de propostas tão atraentes, foi memorável.

A imagem deste paquete, seguramente mais pequeno do que me parecia então, vazio do esplendor que estes barcos têm sempre, às escuras e ao frio, habitado por sete homens, parece-me um esboço de guião de filme do Kubrick, à escala do Shining. E “atracam-se” em mim uma catadupa de muitas outras imagens fantasmagóricas.

Como é possível num país com leis de trabalho bem claras deixar, aparentemente, ao abandono sete trabalhadores nestas condições. É que se não usufruíram de todos os direitos que lhes eram devidos em caso de despedimento, também não têm o direito de viver assim num paquete por conta deles. Não estou, obviamente, a invejar-lhes supostos luxos que não têm, mas parece-me isto muito pouco claro e mesmo inaceitável.

O sindicalista que falou em nome da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores do Mar disse que iam «tentar assegurar os salários e despesas das pessoas e, eventualmente, pedir indemnizações cíveis»; os proprietários, dois irmãos gémeos gregos não dizem nada; o comandante do navio diz que ficou sem cozinheiro desde 25 de Outubro, porque depois não forneceram mais mantimentos, que têm um subsídio diário, que também não é pago, que vão fazendo a alimentação do próprio bolso e que vão vivendo em comunidade, porque têm de estar todos juntos, desde o comandante até ao chegador da máquina; um reconhecido especialista em história naval considera que o "Funchal" vai acabar na sucata.

Que filme é este, pergunto eu? Que movimentos se seguem a esta notícia? Porque é que neste país tudo e mais alguma coisa que é notícia, exagero meu claro!, me parece agora cada vez mais saído de uma obra de ficção com contornos de qualidade duvidosos? Às vezes até fico à espera de acordar de um pesadelo… E se Portugal é um barco atracado na Europa à espera de ir para a sucata? Irra, que arrepio na espinha…

4.12.12

RESISTIR

Depois de dias de discussão, depois de aprovado o orçamento, o PM falou na TV e anunciou mais medo aos cidadãos. Os cidadãos já tinham começado a desconfiar que isto ia ficar pior, mas as palavras às vezes aliviam a dor antes dela aparecer com força e mascaram o mal que a causa. O medo começou a acentuar-se e aquilo que eu digo, em desabafo ao meu filho, é que vamos entrar numa guerra. Assustado, ele que se aproxima da idade de ir ao Dia da Defesa, manifesta o seu espanto. Não é guerra, guerra, de bombas, tanques, trincheiras e bombardeiros. Mas haverá um rasto de morte, mesmo que a morte seja o destino mais natural e certo que temos. Haverá um rasto de morte, mas os sobreviventes sairão mais fortes. Como nas guerras acontece aos que lhe sobreviveram. Mas aos mesmo vivos, não aqueles que respiram com a morte dentro deles.

Esta esperança da sobrevivência não é verde como a esperança normal. Não podia ser, porque senão seria o mesmo contentamento a que eu assisti expresso por um militante histórico comunista perante um movimento reivindicativo de uma classe – a dos empresários dos restaurantes. Nunca pensei ouvir isso da voz de um ser humano que lidera, ou liderou, opiniões com palavras como liberdade, justiça e outras que sabem a bom e a bem. Como a alegria. Estar contente porque há quem se reúna em torno de uma causa que é sinónimo de sofrimento? Ficou, de novo e mais uma vez, tudo explicado para mim. Tudo é aquela coisa do “quanto pior, melhor”.

Mas volto à esperança de sobrevivência, a minha esperança de sobrevivência. Essa esperança passa por tentar arranjar força para resistir. Para resistir à fome, ao desemprego, à mingua. Resistir à reação violenta que fará aumentar a fraude, o crime, a luta. Sim, porque a luta dói e magoa. Não estou também a falar no bíblico dar a outra face, nada disso. Resistir implica ter a força para mudar a forma de pensarmos, agirmos, relacionarmo-nos uns com os outros e reclamar os nossos direitos sem entrarmos na fraca posição de não cumprirmos os nossos deveres. Não podermos exigir quando não cumprimos parece um bom princípio de vida em comum. Mas, na circunstância de não conseguirmos cumprir e nos tornamos mais fracos para exigir, também não podemos cair no caos que só dá vantagem a quem, oportunisticamente, age de má-fé.

Resistir tem de ser fazermos opções, criar alternativas que nada têm a ver com a “imaginação”, como o senhor de Belém sugeria. Tem a ver com a união, com a cooperação, com o deixar de lado o espírito do constante competir que tantas vezes promove a exaustão. Resistir vai ter que ser cada um reorientar essas forças, que vão diminuindo é verdade, e juntá-las às de outros. É não perder nenhuma oportunidade para exigir direitos de cidadão e exercer deveres de cidadania. Resistir tem de começar, em cada um de nós, por mudar.

27.11.12

RECORDAR

O verbo “recordar” vem nesta crónica a propósito de fotografias. Havia até o slogan da Kodak, passo a publicidade, que dizia que «recordar é viver». Não me referirei apenas a imagens em fotografias, mas também a imagens que os textos têm o poder de nos fazer criar nas nossas cabeças – imaginar, portanto - quando nos descrevem ou narram determinadas situações. Tenho até um amigo ilustrador que diz que se os fotógrafos afirmam que uma imagem vale mil palavras, um ilustrador afirmará que uma palavra vale mil imagens.

Vem então este “recordar” e esta crónica a propósito das imagens da miséria. Eu, que ainda sou do tempo das imagens da fome no Biafra, que passei pela onda das campanhas de solidariedade com os Etíopes, assim todos metidos no mesmo “saco”, assisto agora à produção caseira, nacional, de crónicas e textos volantes com descrições escancaradas da miséria, dos quais o menino das bolachas parece ser um best-seller. Apetece-me, face a este fenómeno que, nalguns casos, é de óbvio marketing para mais visualizações e venda de “exemplares”, falar de duas coisas: das fotografias do Sebastião Salgado, que já uma vez, ou mais, evoquei, e da memória das pessoas. Das pessoas comuns que veem televisão ou leem jornais ou, já agora, ouvem rádio.

As fotografias desse grande artista brasileiro, Sebastião Salgado, marcadas por um discurso, ainda que visual, de intervenção política e social, de denúncia de situações de desigualdade e de exploração humana, nunca colocaram num lugar rasteiro as pessoas. Denunciam, sim, denunciam, mas sem retirar a dignidade aos explorados e às vítimas. Aliás denunciam porque são belos e a beleza, ou a bondade, incomoda os cínicos, muito mais do que o discurso miserabilista que vai direitinho ao encontro dos objetivos de quem parece gostar de ver os outros amarfanhados.

Ao contarem histórias de desgraçadinhos e divulgarem imagens de miseráveis parece que o assunto é coisa nova. Parece que nunca houve, ou que já alguma vez deixou de haver, gente explorada. Não é a expor sem dignidade as pessoas que se faz algo por essas mesmas pessoas ou se evita que outras pessoas a estas se juntem. E aqui, quase me estava a pôr em posição de defender a senhora de nome Isabel… E punha, não fora ela alinhar no discurso dos que acham que esta miséria é uma mortificação necessária à ressurreição da espécie humana, portuguesa, e desalinhar do sentido cívico e cooperativo de que os Bancos Alimentares, enquanto parceiros de uma rede social efetivamente cooperante, devem e podem ser.

Não estou, longe disso, a falar de esconder as vítimas da miséria, porque também há quem o faça para vender a imagem de que ela não existe. Mas estou a falar em protegê-las de quem usa e abusa delas no seu discursozinho choramingueiro. Mais eficaz que tudo isto é, por exemplo, denunciar as toneladas de peixes deitadas fora por não cumprirem os pesos e as medidas comunitárias e, na mesma notícia, revelar o aumento do número de refeições fornecidas por instituições de solidariedade social que há largos anos, mesmo quando parece que eramos todos ricos e vivíamos acima das nossas possibilidades, já faziam da solidariedade um valor muito para além do mero discurso retórico e que serve bem e ajuda à festa de quem acha que os que sofrem são todos uns piegas.