19.11.19

Uma vez são vezes a mais

“Uma vez são vezes a mais” é o slogan que corre por aí, e que desconstrói a expressão idiomática bem conhecida, para convencer os cidadãos a reciclar o lixo. É um bom slogan para nos alertar sobre os riscos dos precedentes. E a situação ficou clara no recente embrulho em que o incumprimento das regras na AR colocou quem, só uma vez, as quebrou. Falo naturalmente da possibilidade de deputados únicos que, por definição, não constituem um grupo parlamentar, terem intervenção em debates quinzenais.

Convém lembrar que estes debates foram uma criação do socialista António José Seguro, em 2007 (em plena maioria absoluta do PS, portanto) que desagradou a muitos , nomeadamente a António Costa. Afirmava então que os debates quinzenais no Parlamento condicionavam, e cito, “a possibilidade da eficácia da consensualização política". Já o seu ideólogo, Seguro, argumentava que os debates quinzenais permitiriam uma "maior centralidade do Parlamento no debate político".

Chegados a 2015, não só a AR se tornou o epicentro de uma nova perspectiva de lidar com a constituição democrática de Governos, como se deu a quase novidade (tínhamos tido já e pelo menos a UDP e Mário Tomé) de haver um DURP, isto é um deputado único representante do partido. Por ser um Partido que, como os chinelos de borrego alentejanos, não tinha pés esquerdo ou direito pré-definidos, todos os outros foram “fofinhos” e acharam que “uma vez não são vezes” e deixaram André ser o PAN.

Agora, em 2019, e mantendo a linguagem figurativa na mesma zona que permite que se tenham os pés bem assentes na terra, parece que ficaram com uma bota difícil de descalçar. É que se a divisão de um tempo razoável para que dure um debate ordinário entre a AR e o Governo é feito por ponderação de número de deputados por grupos parlamentares, estas excepções tornam estes deputados, os “minuto-e-meio”, nuns privilegiados, afinal.

Se se dividir o que é o tempo de cada grupo pelo número de deputados que o compõe (a representatividade é isto também), nenhum deles tem os 90 segundos que os três DURPs têm. São assim, os precedentes que, como o próprio nome indica, não são só uma vez. Como vemos, e aqui chegados, mais do que manter os holofotes todos sobre o Governo, estes debates vão permitir que os parlamentares dividam as atenções de quem se dá ao trabalho de assistir ao funcionamento das instituições que nos dirigem o destino público. Pena que sejamos tão poucos e que mesmo alguns de nós os vejam como um circo a pegar fogo, ou como quem assiste a corridas de automóveis para ver acidentes. Quando se assiste a sessões também ordinárias das diferentes Comissões, o calibre dos parlamentares - e já agora dos membros do Governo - é ainda mais legível e escrutinável. Mas quer-me parecer que a ARTv tenha “shares” miseráveis.

Até para a semana.

12.11.19

Não há webfesta como esta!


Terminou mais uma web summit e, também mais uma vez, houve quem procurasse desmerecer o evento. Confesso que não percebo este espírito de implicar com o que é, ou até mesmo que ainda só possa vir a ser, bom para o país. Consigo entender por parte de indivíduos, em conversa de café, embirrações geracionais com certas “modernices”. Até as que, elevando o tom ao apocalíptico anúncio do Armagedeão, nas entrelinhas podem servir para arrefecer exaltações precoces que, no lado oposto, endeusam certas figuras e veneram outras tantas práticas, inquestionavelmente.

A web summit começou por ameaçar a paz dos lisboetas, ao alvitrar-se que iria lançar a confusão na cidade. Estive por lá, na cidade, desta vez, e só a notei com cuidados redobrados em informação pública, o que até me beneficiou, a mim que não fui à festa. Quando da edição em que se lançou o programa de voluntariado, conheci jovens que o aproveitaram (sim, isso mesmo, aproveitaram) e estou em crer que lhes abriu horizontes vários. Um dos quais precisamente a tal relativização sobre este mundo ser “do outro mundo” e se reger pelas mesmas regras que todos temos vindo a construir, há umas décadas, para irmos vivendo mais confortavelmente.

O voluntariado não é uma solução óptima para a realização profissional de jovens, não senhor. Nem me parece que o queira ser. Também não me parece que seja a solução desejável para uma empresa que queira ter sucesso. A menos que a empresa, instituição ou associação de índoles várias, dependa de pessoas que não se empenhem por forma a obter dividendos directos do seu funcionamento, mas que só indirectamente se sintam beneficiados e se predisponham a colaborar pontualmente. Sem vínculos ou comprometimento mais sério, como um contrato de trabalho deve ser. Um risco calculado, imagino. Confundir o voluntariado com isto, em qualquer das perspectivas, e reclamar com a sua existência resistindo ao seu sucesso é de quem ou não aprendeu nada com as novas gerações, ou de quem acha que certas festas partidárias não são simultaneamente ócio e negócio, para uns e/ou para outros. Era bom que tratassem estas questões sem tentarem enfiar-nos olhos dentro falsos moralismos sociais.




5.11.19

Primeira Jornada



Ouvi com alguma atenção os discursos das primeiras transmissões da nova legislatura da AR. Não fiquei particularmente deslumbrada com nenhum, gostei mais de uns do que outros, naturalmente. Sofri com as dificuldades da deputada de quem todos, pior que melhor, falam, mas consegui reeducar o meu ritmo e ouvi-la mesmo.
Fiquei também com pena de que, depois da performance ao vivo que a fragiliza e com as ainda excentricidades que fizeram rodar os holofotes sobre si e o seu assessor, o que tenha dito por escrito, nos suportes mais acessíveis a uma comum cidadã interessada como eu, não tivesse elaborado mais sobre a agenda dos que ali na AR está a representar. Vou continuar a acompanhar para ver se o rumo muda. É que senão arrisca-se a apenas cair no lado diametralmente oposto ao do chegadiço popular deputado anti-deputados, e que, a propósito de qualquer tema, questão ou oportunidade de contributo, mais não faz que “passar a cassette”. Essa prática está mais elaborada por certa equipa decana, que a faz já há décadas com a mestria de canção de embalar, ao ponto de nos distrair de a ouvir com mais atenção quando sai das bancadas da oposição para os lugares de governo. E é pena.
Aguardo as próximas jornadas com alguma curiosidade e não deixo de ficar espantada com a espécie de elevação a assunto politico da gracinha, normal e injustamente dedicada ao género masculino, de disfarçar a eficácia e a eficiência começando e limitando a discussão a se “o tamanho importa”.

29.10.19

Luzes! Câmara! Fogo!


O tempo entre saber-se quem seriam os próximos ministros e a sua tomada de posse proporcionou o habitual vazio como rampa de lançamento para o início das contestações. E por isso, se aquecem motores e concertações entre oponentes ao Governo e uma certa Comunicação Social, à volta dos que, não fosse o vazio, seriam, se calhar, fait-divers. Desta feita com casos na Educação, graves sem dúvida, e empolados, de violência entre professores e alunos, nos dois sentidos. E na Saúde, o caso absolutamente dramático do bebé de Setúbal. Curiosamente holofotes em assuntos de dois ministérios que muitos julgavam que iriam mudar de responsável.

Se no caso da Saúde o “esterco na ventoinha” foi direitinho para a desmascarada inutilidade, ou mau-uso o que é ainda pior, da Ordem dos Médicos e do seu mediático bastonário, ávido de um protagonismo fora da sua corporação; no caso das Escolas, a contenção com que a tutela cautelosamente reagiu perante casos-crime, fez do sindicalista de serviço protagonista, e a, mais uma vez, ajudar a denegrir a imagem dos professores, hierarquizando-os até entre os de primeira e os de segunda.

O que estes dois casos realçaram, para além de darem notícia do que é de facto notícia e que a CS tem como função divulgar, foi sobretudo o aproveitamento que deles fizeram outros implicados no mesmo sistema. Figuras institucionais, nas Ordens ou nos Sindicatos, que, nas suas funções, podem e devem servir para defender o bom nome dos profissionais que representam. E este aproveitamento não só contamina, pela sua enviesada agenda, uma certa CS que vive só destes casos mal explicados, como prejudica a relação destes profissionais com a restante sociedade.

Lido quotidianamente com jovens saídos da escola enquanto alunos e que escolheram estudar para regressarem à escola como professores. Toda a conversa do envelhecimento do corpo docente das escolas e da falta destes profissionais lhes abrem expectativas de uma entrada mais fácil no mercado de trabalho. Sabem qual é o ambiente das escolas por que passaram e escolheram voltar para lá. A imagem de caos que estes casos empolam presumo que não lhes apagará a vocação, mas impressiona certamente todos os outros cidadãos que terão de contactar com a Escola, imaginando-as antros infrequentáveis. E essa parece ser a agenda escondida à vista de todos em horário nobre.

Esta exploração mediática apocalíptica, a que assistimos sobretudo no canal que na minha TV está na posição oito, lembra-me sempre as reportagens sobre algumas cidades no Verão de 2013, e que contribuíram para que nelas os executivos mudassem de partidos no Outono seguinte. E no entanto, como vi acontecer para o caso que conheço, mal o Inverno tinha começado e já liamos guias de sugestões de cidades a visitar, onde Évora sobressaía pelo bom que por cá se fazia. E o novo executivo ainda nem sequer tinha aquecido as cadeiras em que confortavelmente tinha acabado de se sentar. A continuarem estes meios a usar esta linguagem para passar certas mensagens, talvez não fosse mal pensado irmos tratando de aprender a ler o mundo assim codificado, em que depois das técnicas que ditam “luzes! câmara!” a ordem seja mesmo “acção!” e não “fogo!”.