22.10.19

Quem não os conhecer...


Não, esta crónica não é sobre a composição do 22º Governo que, até a alguns que queriam manter a coligação anterior, ouvi acusar de serem afinal os mesmos de que, ou por estarem mais sossegados, ou por esbracejarem mais, não gostavam. Esta crónica é sobre os resultados, ainda provisórios, dos Concursos Sustentados Bienais da DGArtes para Évora. Muito em particular, a indignação geral com o não financiamento ao CENDREV.

Sei do que falo por experiência anterior de quatro anos a lidar com agentes culturais profissionais que, naturalmente ainda que infelizmente, dependem exclusivamente de fundos públicos para existirem. Digo naturalmente, porque esta cultura a que temos direito não gera os recursos financeiros para se sustentar, e deve por isso o erário público assegurar que todos usufruamos dela. E digo infelizmente porque, houvesse públicos ávidos para dela usufruírem, já dinheiros privados acorreriam para as promover. Como aliás acontece com a cultura popular, por vezes apenas apreciada pelo seu lado de entretenimento. Injusta exclusividade de apreciação, que diz muito mais sobre a bolha em que vivem certas elites do que da falta ou da presença de qualidades, que muitos dos seus agentes têm e podem ser motivo de argumentação.

Quando comecei, no concelho de Évora, a lidar com este assunto do financiamento das estruturas culturais, e implementámos em 2011 um regulamento (que, apesar de muito criticado pela então oposição, continua em vigor, ao que julgo), deparei-me com três situações protagonizadas pelos chamados “conceituados agentes culturais da cidade”. Situações que não posso esquecer e que, parecendo ter regressado ao espírito e à forma de existência de então, em nada me levam a ficar admirada com os resultados do dito concurso. Chocada sim, continuo, pela inconsciência de si-próprio e pela alienação face ao mundo em que vivemos e que, mesmo não gostando e querendo mudá-lo, requer mais do que pergaminhos guardados num baú de décadas.

As três situações, relacionadas com apoios municipais, foram então as seguintes: a primeira, a de que qualquer apoio que não fosse em euros parecia irrelevante, como se ter “cama, mesa e roupa lavada” não aliviasse a sobrevivência de qualquer instituição ou indivíduo. A segunda foi a de perceber que se considerava normal que um apoio público não dependesse de uma política a enquadrar os destinos desse apoio, política essa com programas próprios de incentivo à criação artística ou de públicos em que quem paga gosta de ver o retorno desse investimento (e não, não falo de cenas popularuchas, falo de outras cenas que criem o interesse do público no que é diverso, com tudo o que o adjectivo implica). E finalmente, perceber que havia estruturas ou agentes que achavam que lhes bastava uma espécie de brasão ou estandarte para que os dinheiros públicos, o que é de todos nós e que deviam gerir, os financiassem. Sem necessidade de prestar contas e aferir com os financiadores programas regulares para além dos que “era costume”, sem se provar, para além das impressões dos amigos, o impacto que a sua actividade tinha na população que contribui para apoiar a sua existência. Como se estivessem acima de todos os outros, sobretudo os mais recentes ou mais periféricos, quer no sistema cultural, quer dentro da geometria geográfica que estava em causa. Sendo assim, quem não os conhecer que estranhe o resultado. Eu conheço-os. E, já agora, gostava de conhecer, a par da indignação, os argumentos do júri a justificar a decisão.

8.10.19

"Adivinha quem voltou..."


Foi muito tempo fora desta escrita em espaço público. Um acumular de assuntos que mereceriam a palavra que a DianaFm quer continuar a dar-me e os ouvintes/leitores vão tendo a paciência de ouvir/ler. Obrigada a ambos e vamos lá a mais uma série de crónicas, a partir desta cidade que se diz de toda a Humanidade. 

O prato principal da semana será, para além do fenómeno não inesperado mas sempre alarmante da abstenção, a constituição do 22º Governo de Portugal. Prato regado com pipas de liquidez verbal jorrada por comentadores e cenaristas. Desde 2015 que os Portugueses tiveram a oportunidade de perceber a importância da AR na governação e não apenas no contrapoder que em 2011 teve o seu exemplo mais recente. Tiveram a oportunidade, mas só metade dos eleitores lhe reagiram, o que exige mudanças, que tardam, por parte dos Partidos que constituirão a AR, sob pena de o sentido da Democracia se perder. Mesmo que mais três Partidos, por muito bizarros que aparentem ser, seja um sinal de maturidade democrática.

De qualquer forma, foi graças a uma chamada “geringonça” que isto aconteceu, o que certamente alegrará os manuais de História daqui a alguns séculos.  O inadvertido padrinho nunca terá imaginado o bem que fez a sua inspiração no momento da discussão acalorada, sobretudo porque tendo submergido de novo, qual submarino, para longe das luzes da Política nacional, não deve ter imaginado o favor que fez aos adversários e em que doca-seca deixou os  seus correligionários. 

Porque as geringonças já cá andam há muito tempo, sem que, só quem nunca esteve em nenhuma organização em que é preciso fazer e submeter a escrutínio propostas de governação, a qualquer nível e em qualquer actividade, o pudesse imaginar. Um jogo de forças díspares mas sem que a mais leve seja dispensável; uma arte em fazer rodar as personagens da sombra para o centro do palco; uma técnica em escolher a banda sonora que concentra os olhos nos bailarinos ou os fecha para que só se ouça a música e se esqueça o baile. Enfim, muitas outras habilidades para as quais haveria outras tantas metáforas ou alegorias. 

O que não falta, aliás, são geringonças, nesta sociedade em que as dinâmicas são democraticamente sujeitas a forças de sentidos vários e com desígnios tão misteriosos a olho nú. A ver vamos no que vai dando, sentidos bem alerta para lermos as mudanças, os regressos, e irmos fintando  essa impressão de que somos só espectadores desatentos da vida que nos condiciona o percurso no sistema.  Usemos todos os sentidos de que dispomos para alimentarmos as sinapses a que temos direito. Vão ver como, no fim, mesmo que não tenhamos gostado do espectáculo, sairemos contentes por termos a nossa própria opinião e sermos donos da vontade de assistir, talvez até noutro lugar, à sequela. 


9.7.19

Verão às listas

Esta é a última crónica da série 2018-19, antes da pausa para férias de Verão. Fico satisfeita por não ter falhado uma única vez este compromisso que assumi com a Rádio Diana. Nem nesta, nem noutra época. Estou agradecida à Rádio pela oportunidade de tornar pública a minha opinião sobre assuntos variados dos dias que correm, e sabe-me bem cumprir e “ficar de bem comigo” também. Ainda que esteja consciente de que nem sempre o resultado do esforço que ponho em cada uma das crónicas seja reflexo exacto desse esforço. Enfim, até quando fazemos autoavaliações, sobretudo quando fazemos autoavaliações, há que nem embandeirar em arco, nem nos armarmos com falsas modéstias. É que é um gosto que “me sai do pêlo”!…

Feito o intróito pessoal e intransmissível, resta adivinhar alguns acontecimentos que não leremos, ouvintes e eu, juntos, já que o regresso será só depois das eleições legislativas.

Haverá acontecimentos que monopolizem horas e horas de informação repetida até à náusea, acompanhadas de horas a fio de comentários gravitando em torno dos mesmos? E desse, ou desses acontecimentos, haverá lugar às chamadas “leituras políticas” que têm muito mais de leitura partidária do que de leitura sobre as opções possíveis nas circunstâncias? E os candidatos a deputados pelos diferentes círculos eleitorais, que entretanto serão conhecidos, terão a oportunidade de intervir e ser ouvidos nos diferentes lugares por que concorrem? Se assim fosse, podiam ir provando aos eleitores, logo pelo discurso, que merecem a aposta que os respectivos Partidos fizeram ao escolhê-los para as listas. É que serão esses os verdadeiros representantes dos eleitores na Assembleia da República, o lugar de onde, ficou finalmente provado, sai e é fortemente controlado o Governo que se segue. O PSD, que está a causar sensação nesta matéria, bem sabe o que lhe custou aquela luta entre os ocupantes da sua bancada parlamentar e o próprio Partido. Desde a inexpressiva votação do líder de bancada às falsas presenças, aquilo foi um inferno.

Veremos, então, se as listas que se apresentarem nos diferentes Partidos, normalmente captados de raspão pelas rádios e televisões nacionais atrás dos candidatos a PMs, é de gente que consegue demonstrar que sabe o que faz. Ou se serão só elementos de um cenário, como os das barracas das praias tradicionais portuguesas, que, como sabemos, são às listas. Isto é, têm um padrão designado normalmente por um sinónimo da expressão mais conhecida, “às riscas”.

2.7.19

À época ou à data como se não houvesse ontem


De repente, com a época dos exames de 12º ano à porta e prestes a darem-se os concursos de acesso ao Ensino Superior, as notícias não se limitam às vagas disponíveis ou aos cursos com mais licenciados empregados, mas espremem até ao pus o tema das desigualdades sociais na frequência das instituições de ensino superior.

Não posso deixar de pensar que isto se deve ao facto de o governo que caminha para o fim ter sido da esquerda democrática, apoiado pela esquerda radical. A esquerda vive do combate à desigualdade social como a direita vive do apelo à caridade individual, poderíamos generalizar. Isto é sempre um exercício perigoso e injusto, embora sirva para começos de conversas. Sim, porque depois haveria que dizer que, com a esquerda radical, o fim dos pobres representaria o fim de uma importante clientela e que, com os conservadores de direita, o fim das desigualdades representaria um perigo para o acesso exclusivo a determinados direitos elevados a mordomias.

Esta apreciação propositadamente simplória serve para nivelar a perspectiva ao patamar da novidade das não-notícias sobre cursos frequentados por gente da alta ou da arraia-miúda. Porque nesse estudo, ou melhor, para sermos honestos, na divulgação em massa para o público de alguns resultados desse estudo, não houve luz sobre a evolução dos últimos 40 anos. Importava que fosse coisa feita à época ou à data, como se não tivesse havido ontem. Como se viu, ouviu e leu em canais abertos “a escolha de um curso superior, em detrimento de outro, é uma repercussão das desigualdades sociais do país. (...) o acesso ao ensino superior está longe de ser justo. (...) é a principal conclusão a que chega o estudo "a equidade no acesso ao ensino superior", promovido pela Fundação Belmiro de Azevedo Edulog, com base em dois critérios: a qualificação dos pais e a percentagem de alunos que recebem bolsas da ação social.” (TVI24).

Há muito, dos meus quase 30 anos de ensino na Universidade de Évora, que assisto a grupos maioritariamente constituídos por alunos que são ou a primeira ou, menos, a segunda geração da família a frequentar uma Universidade. Há sempre o argumento da interioridade e periferia da minha Universidade, mas quando relembro a minha turma da outra minha Universidade na Avenida de Berna, não deixo de encontrar tantas semelhanças... Cada vez mais me convenço que as desigualdades estão actualmente muito mais à saída do que à entrada, que o abandono é muito mais importante, e por isso imprescindível que seja vigiado, estudado e acompanhado.

No que me toca, é com grande esperança que começo sempre um ano lectivo e o acabo a perceber o quão difícil é fazer com que percebam que não chega dizer-se que “andam na universidade”. É que o levo, ao ano, a dar conselhos ténues e pouco intrusivos, do estilo “digo-vos o que diria aos meus filhos”, porque não quero ser nem caridosa, nem “maternalista”, como nenhuma instituição democrática deve ser. E eu acredito no papel da Universidade para ajudar a melhorar a Democracia. Às vezes consegue-se por frequência, noutras tem de se ir a exame de recurso. Noutras ainda há que repetir até lá chegarmos. Era importante era não desistir, nem apregoar resultados de estudos que não servem para nada. Não os estudos, claro, mas só aqueles resultados que são apregoados como quem repete inchado que “já anda na universidade”. Não chega.