4.6.19

Agustina


Passou definitivamente à eternidade Agustina Bessa-Luís. Agustina foi, talvez, o nome maior vivo que muitos de nós estudámos na escola. Ainda que ali, na escola, os escritores canónicos apareçam muitas vezes como gente sem existência real, tornados eles próprios figuras de uma ficção que é a vida daqueles que parece que não se cruzam nunca connosco, nas nossas vidas. A Sibila foi o seu romance que a popularizou entre os alunos, gostassem ou não da obra, o que muito depende, nestes casos, de quem é seu mediador. Tive a sorte com quem me ensinou a lê-la. Aprendi com ela, Agustina vertida em sibila naquele romance, o quanto o conhecimento do comportamento das pessoas é um dom que podemos adquirir se para isso estivermos predispostos. Adivinhar o que alguém vai dizer ou fazer resulta da capacidade de saber ler esse e outros alguéns. Não sendo uma feminista, a sua perspectiva sobre a realidade e os mundos que criou tinham essa marca do feminino. Dava força às personagens-mulher e isso era colocá-las num centro de valores maiores.

Vou deixar aqui o excerto dessa Sibila de 1954, não porque tenha sido o livro de que mais gostei, mas porque é a figura feminina que narrou, da sua galeria de personagens, que mais me marcou:
“Assim decorreu a noite, a vela ficou reduzida, queimou uma borda do seu encaixe de papel, para continuar depois a arder, imóvel, ovalada, como a chama do Espírito Santo. Quina abriu os olhos, e disse em voz audível algumas palavras que não eram delírio, nem oração, porque o tempo de oração estava no fim, e toda a sua alma se projectava num abismo inefável, se dispersava para entrar na composição magnífica do cosmos. Um sentido, nela, permanecia cintilante e que, portanto, sofria – era o amor, era a sua inesgotável dádiva de ternura, que sempre timidamente desviara da terra, para confiar ao mistério, ao que não é mesmo esperança, e que jamais trai e engana. Os passos ouvia-os agora mais sonoramente; eles vinham, e todas as portas se abriam à sua frente. Como repeli-los e como não amá-los também? Sentiu que os joelhos se lhe esfriavam e como que um banho de gelo a ia atingindo até à cinta, e subindo; as mãos guardavam algum calor, mas não as movia mais. Um sopro mais brusco do vento fez entreabrir as portadas da varanda, e Quina, num último olhar, abrangeu aquele céu esverdeado do amanhecer e que era imenso, e que, como em ondas do espaço, continuava mesmo através dos mundos, das estrelas vivas ou extintas. Os seus lábios emudeceram, e o som dos passos deteve-se, por fim, sobre o seu coração. A mão, um instante depois, deslizou e ficou fora do leito, com a palma voltada para cima, numa atitude toda confiante no seu abandono, cortando de través o bastãozinho de luz que escorria sempre, sereno, até à porta; via-se-lhe no pulso a mancha arruivada, que ela, no mais inviolável segredo de si própria, acreditara sempre uma marca de predestinação.”


28.5.19

O valor da Democracia

E lá fomos a votos, no primeiro acto de uma peça que conta nesta edição com mais dois (sim que a Madeira, apesar de ilha e pérola, não vive dentro de uma ostra e paga impostos e recebe financiamentos com impacto nacional). Depois do final do campeonato e da final da taça do desporto e do negócio mais idolatrados pelo povo português, o apelo para a governação da Europa voltou a não soar a cerca de 70% de portugueses.

É certo que não estamos sós, apesar de termos sido dos mais displicentes no uso da única arma de defesa que a Democracia distribui a todos os maiores de 18 anos indiscriminadamente, sem impedâncias de que tantas vezes ouvimos tantos queixarem-se: que é só para os amigos, que é só para os ricos, que os gordos não podem, que os brancos são ameaçados, que os negros são barrados, que os gays são ignorados, e por aí fora. Mas a desgraça dos outros não me consola. Nem a desgraça, nem a indiferença, nem a pobreza, nem a estupidez, já agora. Às vezes a única coisa que por desvairados mas concentrados e breves momentos me parece descansar é que essa percentagem de eleitores baldas não se dê nem sequer ao trabalho de ler, ou até só ouvir, as campanhas eleitorais onde se publicam e empunham as atrocidades que a coligação Basta! empenhadamente vomitou. Talvez o jejum eleitoral do povo e o resultado que esta camarilha obteve com os votos dos que aproveitaram a democracia para dizer que queriam acabar com ela, alerte certas elites de vários círculos que, normalmente por egoísmo, os ajude a enfardar até ao próximo acto eleitoral em que voltem a regurgitar mais do mesmo.

Mais do que contente com o resultado continuo insatisfeita. O resultado nacional não se pode festejar sem ser no contexto do conjunto dos restantes Estados-Membro. E só com o desenrolar da acção desta nova composição veremos se um certo optimismo e uma pálida esperança na Europa se mantém. Recomecemos, portanto, ainda e mais outra vez.

7.5.19

Europeias, onde ou quem


Esta será a minha última crónica antes da pausa para a campanha eleitoral das eleições europeias, no próximo dia 26. A Europa parece-nos longe porque temos tendência a tomar pelo todo, a Europa, aqueles que são eleitos para a representar, os eurodeputados. Não sem alguma razão, bem entendido. Mas razão que se perde quando a abstenção atinge níveis altíssimos, o que faz com que haja uma enorme fatia de possíveis eleitores que se deixa governar por quem não elegeu ou, pelo menos e por outro lado, tentou que não governasse. E a Europa estará tão mais longe quanto mais nos afastarmos dela desta forma, convencidos de que estamos a votar em “deputados de luxo”, amparando conversas que acima de tudo despromovem a Democracia em vez de a tornar mais exigente. Se calhar também é por isso que para estas eleições há uma maior desmobilização daqueles que julgamos estarem verdadeiramente interessados na Política, mas que depois percebemos que é só a fingir, que só aparecem nas Autárquicas ou nas Legislativas na esperança, às vezes ânsia, de que algum cargo lhes caia no colo. Aí é vê-los a defender o Partido como se lhes defendessem os ideais mais do que outros interesses que nele se movem. Conversas!

Mas esta relação de pessoas, Partidos, empenho político e votos é precisamente o que mais me interessa focar a propósito das Europeias. Há apenas umas eleições em que se pede aos eleitores que votem em pessoas: as Presidenciais. Aí sim, votamos em quem para além da partilha dos ideais connosco se revele o que consideramos ser uma pessoa que desempenhe um cargo onde é só seu o crédito das acções que venha a ter. Nas outras eleições, cabe aos Partidos encontrarem as pessoas que melhor o representem e aos eleitores votar no Partido que se quis fazer representar por essas pessoas. Sobretudo nas Autárquicas e nas Legislativas. Nas Europeias parece-me até que, pese embora todas as qualidades, ou falta delas, dos futuros eurodeputados, importará perceber a que grupo de deputados se juntarão os que de cada País forem eleitos. E aí a distância desse Parlamento de que não conhecemos tão bem, ou quase nada, o funcionamento, pode ser um factor decisivo para cativar ou desmobilizar eleitores. Cumpriria talvez mais aos candidatos a difícil e pouco mediática tarefa de explicarem exactamente o que votaram na Europa que beneficiou Portugal, para além da própria Europa onde devemos ir buscar, e levar, muito mais do que financiamentos que ainda muitos acham que não são públicos nem dependem dos nossos impostos. Ai não que não dependem! Só no dia em que os eleitores conhecerem minimamente este funcionamento serão verdadeiramente cidadãos livres para votarem nas Europeias. Até lá sentir-se-ão provavelmente quase manipulados por Partidos que menosprezam dizendo “ser todos a mesma coisa” e não vão votar.

E é também por isso que nas Europeias importa mais pensar não em quem, mas onde vamos votar. Em qual dos oito grupos representados no Parlamento Europeu – o grupo dos Socialistas e Democratas, o do Partido Popular, o dos Conservadores e Reformistas Europeus, o da Aliança dos Democratas e Liberais, o grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, o dos Verdes/Aliança, o da Europa da Liberdade e da Democracia Direta e, finalmente, o da Europa das Nações e da Liberdade; para além dos deputados que não pertencem a nenhum grupo político e, nesse caso, fazem parte dos chamados Não Inscritos. Claro que também podemos encontrar nalguns candidatos, mais do que noutros, qualidades que gostaríamos de ver representadas no Parlamento Europeu e que não estão ainda vinculados a nenhum deles, mas talvez seja bom prever que alianças farão quando lá chegarem. Não é fácil e dá trabalho, para além daquela sempre ingrata sensação de que há um risco na escolha. Mas não são assim todas as escolhas deixadas ao quase fatal e ainda maior privilégio de poder exercer o livre arbítrio?
 
Boa campanha a quem for na campanha, bons votos a todos os eleitores e até depois de dia 26.

30.4.19

À sombra de uma azinheira

As crónicas da Diana não são espaço de crítica de livros. Antes pressupõem, e muito bem, a visão política e sobre a Política. Mas eu, que por feitio profissional, me movo no mundo dos livros que são feitos por e para pessoas, não consigo deixar de usar amiúde os vasos comunicantes que ligam a Política às Literaturas. Utilizo o plural numa, porque o sistema cultural em que a arte verbal acontece é também plural. Mas mantenho o singular noutra, pois ela é aqui sinónimo de uma visão de princípio para a governação do Mundo, independentemente das particularidades que há, bem entendido, nas diversas circunstâncias em que é preciso actuar para que “a Cidade” se organize e funcione o mais harmoniosamente possível. Posto isto, a crónica de hoje que prepara Maio, mês também do trabalhador, é crónica inspirada em livro.

Motivos vários quiseram que atrasasse a leitura de um certo livro até há uma semana, apesar da amizade e consideração que me liga ao seu autor. O propósito da sua escrita foi por si bem enquadrado quer de viva voz comigo, quer aos microfones desta Diana. Após a leitura fica-me o lamento que o trabalho de quem se diz Editora seja igual a zero. Uma negociata, a destas “editoras-vaidade” como a Literatura a sério bem lhes chama, que tende a atirar para o lixo o que não é. Só vêem até ao seu bolso e desmerecem o valor, sobretudo simbólico, que o livro tem e deverá continuar a ter para autores e leitores. Uma questão de respeito, seriedade, cuja ausência não consigo ultrapassar nem calar. É tantas vezes assim que se mata à nascença algo que podia ter uma longa e boa vida para além do circuito que se deixa ficar pequenino e pouco faz em prol do público. Enfim, avancemos.

Logo a abrir a prosa que nasce da memória, entramos precisamente num mês de Maio, Alentejo geograficamente profundo, debaixo de um daqueles calores que, inenarráveis, encontram nesta escrita as imagens (com cheiro, som e temperatura) certas e próprias de quem as sentiu mesmo. Através das páginas do livro vamos entrando num mundo simultaneamente conhecido e ficcionado, íntimo e colectivo, próprio e de tantos outros de uma geração que nasceu na segunda metade do chamado Século do Povo. Se a vila alentejana é o lugar paradisíaco da infância, como são todos os das infâncias felizes, é também o lugar de purgatório para os que não têm ou a sorte ou a oportunidade de fazer a sua própria sorte, seja por que motivo for, pessoal, familiar, social. E quase tudo ao ritmo do comboio, esse símbolo do progresso que para alguns está só de passagem e pouco adianta às vidas. Pouco mais que um relógio, um calendário, uma carta ou uma carroça que leva e traz notícias e gente dentro.

O que me sensibilizou neste retrato ficcionado e tão realista de um Alentejo foi o quão paradigmático é deste lugar ao Sul. A galeria de personagens tão autenticamente atraentes, o que não tem só a ver com os modelos inspiradores, mas sobretudo com o afecto genuíno de quem verte memórias na escrita e homenageia lugar e almas. Ficamos a perceber melhor por que um homem dedica uma vida a querer partilhar esforços e sucessos com o “seu” colectivo. E como o lugar da escrita, e desta literatura autobiográfica e memorialista, é um comovente momento e monumento de homenagem a um certo povo não tornado massa informe e manipulável a que muitas vezes, hipocritamente, se dá o nome de Povo, assim com maiúscula.

Se o livro traz “a peso” o progresso que o comboio representa, o que impressiona é como nada disso parece, até aos dias de hoje, arredar das pessoas dali que é também o aqui, para o bem e para o mal, uma mentalidade que tem dificuldade, ou que em sentido contrário tem é mesmo vontade e faz por isso, em deixar de querer viver a vida “à sombra de uma azinheira”. Que o progresso não precise que um dia se lhes arranque a azinheira, e que a vida fora da sua sombra lhes dê a força, só e muito sua, para de lá sair, desse tempo mítico da infância também de uma sociedade democrática construída por todos e não só por, e consequentemente para, alguns. Que Maio também sirva para pensarmos nisto.