E lá fomos a votos, no primeiro acto de uma peça que
conta nesta edição com mais dois (sim que a Madeira, apesar de ilha e pérola,
não vive dentro de uma ostra e paga impostos e recebe financiamentos com
impacto nacional). Depois do final do campeonato e da final da taça do desporto
e do negócio mais idolatrados pelo povo português, o apelo para a governação da
Europa voltou a não soar a cerca de 70% de portugueses.
É certo que não estamos sós, apesar de termos
sido dos mais displicentes no uso da única arma de defesa que a Democracia
distribui a todos os maiores de 18 anos indiscriminadamente, sem impedâncias de
que tantas vezes ouvimos tantos queixarem-se: que é só para os amigos, que é só
para os ricos, que os gordos não podem, que os brancos são ameaçados, que os
negros são barrados, que os gays são ignorados, e por aí fora. Mas a desgraça
dos outros não me consola. Nem a desgraça, nem a indiferença, nem a pobreza,
nem a estupidez, já agora. Às vezes a única coisa que por desvairados mas
concentrados e breves momentos me parece descansar é que essa percentagem de
eleitores baldas não se dê nem sequer ao trabalho de ler, ou até só ouvir, as
campanhas eleitorais onde se publicam e empunham as atrocidades que a coligação
Basta! empenhadamente vomitou. Talvez o jejum eleitoral do povo e o resultado
que esta camarilha obteve com os votos dos que aproveitaram a democracia para
dizer que queriam acabar com ela, alerte certas elites de vários círculos que,
normalmente por egoísmo, os ajude a enfardar até ao próximo acto eleitoral em
que voltem a regurgitar mais do mesmo.
Mais do que contente com o resultado continuo
insatisfeita. O resultado nacional não se pode festejar sem ser no contexto do conjunto
dos restantes Estados-Membro. E só com o desenrolar da acção desta nova
composição veremos se um certo optimismo e uma pálida esperança na Europa se
mantém. Recomecemos, portanto, ainda e mais outra vez.
Do latim cor (coração) "de cor e salteado": conhecer algo perfeitamente. Do latim color (cor) sensação produzida nos olhos por ondas eletromagnéticas de uma certa frequência.
28.5.19
7.5.19
Europeias, onde ou quem
Esta
será a minha última crónica antes da pausa para a campanha eleitoral das
eleições europeias, no próximo dia 26. A Europa parece-nos longe porque temos
tendência a tomar pelo todo, a Europa, aqueles que são eleitos para a
representar, os eurodeputados. Não sem alguma razão, bem entendido. Mas razão
que se perde quando a abstenção atinge níveis altíssimos, o que faz com que
haja uma enorme fatia de possíveis eleitores que se deixa governar por quem não
elegeu ou, pelo menos e por outro lado, tentou que não governasse. E a Europa
estará tão mais longe quanto mais nos afastarmos dela desta forma, convencidos
de que estamos a votar em “deputados de luxo”, amparando conversas que acima de
tudo despromovem a Democracia em vez de a tornar mais exigente. Se calhar
também é por isso que para estas eleições há uma maior desmobilização daqueles
que julgamos estarem verdadeiramente interessados na Política, mas que depois
percebemos que é só a fingir, que só aparecem nas Autárquicas ou nas Legislativas
na esperança, às vezes ânsia, de que algum cargo lhes caia no colo. Aí é vê-los
a defender o Partido como se lhes defendessem os ideais mais do que outros
interesses que nele se movem. Conversas!
Mas
esta relação de pessoas, Partidos, empenho político e votos é precisamente o
que mais me interessa focar a propósito das Europeias. Há apenas umas eleições
em que se pede aos eleitores que votem em pessoas: as Presidenciais. Aí sim,
votamos em quem para além da partilha dos ideais connosco se revele o que
consideramos ser uma pessoa que desempenhe um cargo onde é só seu o crédito das
acções que venha a ter. Nas outras eleições, cabe aos Partidos encontrarem as
pessoas que melhor o representem e aos eleitores votar no Partido que se quis
fazer representar por essas pessoas. Sobretudo nas Autárquicas e nas
Legislativas. Nas Europeias parece-me até que, pese embora todas as qualidades,
ou falta delas, dos futuros eurodeputados, importará perceber a que grupo de
deputados se juntarão os que de cada País forem eleitos. E aí a distância desse
Parlamento de que não conhecemos tão bem, ou quase nada, o funcionamento, pode
ser um factor decisivo para cativar ou desmobilizar eleitores. Cumpriria talvez
mais aos candidatos a difícil e pouco mediática tarefa de explicarem
exactamente o que votaram na Europa que beneficiou Portugal, para além da
própria Europa onde devemos ir buscar, e levar, muito mais do que
financiamentos que ainda muitos acham que não são públicos nem dependem dos
nossos impostos. Ai não que não dependem! Só no dia em que os eleitores
conhecerem minimamente este funcionamento serão verdadeiramente cidadãos livres
para votarem nas Europeias. Até lá sentir-se-ão provavelmente quase manipulados
por Partidos que menosprezam dizendo “ser todos a mesma coisa” e não vão votar.
E
é também por isso que nas Europeias importa mais pensar não em quem, mas onde
vamos votar. Em qual dos oito grupos representados no Parlamento Europeu – o
grupo dos Socialistas e Democratas, o do Partido Popular, o dos Conservadores e
Reformistas Europeus, o da Aliança dos Democratas e Liberais, o grupo da
Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, o dos Verdes/Aliança, o da Europa
da Liberdade e da Democracia Direta e, finalmente, o da Europa das Nações e da
Liberdade; para além dos deputados que não pertencem a nenhum grupo político e,
nesse caso, fazem parte dos chamados Não Inscritos. Claro que também podemos
encontrar nalguns candidatos, mais do que noutros, qualidades que gostaríamos
de ver representadas no Parlamento Europeu e que não estão ainda vinculados a
nenhum deles, mas talvez seja bom prever que alianças farão quando lá chegarem.
Não é fácil e dá trabalho, para além daquela sempre ingrata sensação de que há
um risco na escolha. Mas não são assim todas as escolhas deixadas ao quase
fatal e ainda maior privilégio de poder exercer o livre arbítrio?
Boa
campanha a quem for na campanha, bons votos a todos os eleitores e até depois
de dia 26.
30.4.19
À sombra de uma azinheira
As crónicas da Diana não são espaço de crítica de livros. Antes pressupõem, e muito bem, a visão política e sobre a Política. Mas eu, que por feitio profissional, me movo no mundo dos livros que são feitos por e para pessoas, não consigo deixar de usar amiúde os vasos comunicantes que ligam a Política às Literaturas. Utilizo o plural numa, porque o sistema cultural em que a arte verbal acontece é também plural. Mas mantenho o singular noutra, pois ela é aqui sinónimo de uma visão de princípio para a governação do Mundo, independentemente das particularidades que há, bem entendido, nas diversas circunstâncias em que é preciso actuar para que “a Cidade” se organize e funcione o mais harmoniosamente possível. Posto isto, a crónica de hoje que prepara Maio, mês também do trabalhador, é crónica inspirada em livro.
Motivos vários quiseram que atrasasse a leitura de um certo livro até há uma semana, apesar da amizade e consideração que me liga ao seu autor. O propósito da sua escrita foi por si bem enquadrado quer de viva voz comigo, quer aos microfones desta Diana. Após a leitura fica-me o lamento que o trabalho de quem se diz Editora seja igual a zero. Uma negociata, a destas “editoras-vaidade” como a Literatura a sério bem lhes chama, que tende a atirar para o lixo o que não é. Só vêem até ao seu bolso e desmerecem o valor, sobretudo simbólico, que o livro tem e deverá continuar a ter para autores e leitores. Uma questão de respeito, seriedade, cuja ausência não consigo ultrapassar nem calar. É tantas vezes assim que se mata à nascença algo que podia ter uma longa e boa vida para além do circuito que se deixa ficar pequenino e pouco faz em prol do público. Enfim, avancemos.
Logo a abrir a prosa que nasce da memória, entramos precisamente num mês de Maio, Alentejo geograficamente profundo, debaixo de um daqueles calores que, inenarráveis, encontram nesta escrita as imagens (com cheiro, som e temperatura) certas e próprias de quem as sentiu mesmo. Através das páginas do livro vamos entrando num mundo simultaneamente conhecido e ficcionado, íntimo e colectivo, próprio e de tantos outros de uma geração que nasceu na segunda metade do chamado Século do Povo. Se a vila alentejana é o lugar paradisíaco da infância, como são todos os das infâncias felizes, é também o lugar de purgatório para os que não têm ou a sorte ou a oportunidade de fazer a sua própria sorte, seja por que motivo for, pessoal, familiar, social. E quase tudo ao ritmo do comboio, esse símbolo do progresso que para alguns está só de passagem e pouco adianta às vidas. Pouco mais que um relógio, um calendário, uma carta ou uma carroça que leva e traz notícias e gente dentro.
O que me sensibilizou neste retrato ficcionado e tão realista de um Alentejo foi o quão paradigmático é deste lugar ao Sul. A galeria de personagens tão autenticamente atraentes, o que não tem só a ver com os modelos inspiradores, mas sobretudo com o afecto genuíno de quem verte memórias na escrita e homenageia lugar e almas. Ficamos a perceber melhor por que um homem dedica uma vida a querer partilhar esforços e sucessos com o “seu” colectivo. E como o lugar da escrita, e desta literatura autobiográfica e memorialista, é um comovente momento e monumento de homenagem a um certo povo não tornado massa informe e manipulável a que muitas vezes, hipocritamente, se dá o nome de Povo, assim com maiúscula.
Se o livro traz “a peso” o progresso que o comboio representa, o que impressiona é como nada disso parece, até aos dias de hoje, arredar das pessoas dali que é também o aqui, para o bem e para o mal, uma mentalidade que tem dificuldade, ou que em sentido contrário tem é mesmo vontade e faz por isso, em deixar de querer viver a vida “à sombra de uma azinheira”. Que o progresso não precise que um dia se lhes arranque a azinheira, e que a vida fora da sua sombra lhes dê a força, só e muito sua, para de lá sair, desse tempo mítico da infância também de uma sociedade democrática construída por todos e não só por, e consequentemente para, alguns. Que Maio também sirva para pensarmos nisto.
23.4.19
Os Democratas
A viagem era curta e pouco amiga do ambiente. Curta porque foram muitos quilómetros feitos em pouco mais de 30 minutos. Pouco amiga do ambiente porque parece que, afinal, tudo o que vai para além do ritmo natural de um ser vivo pode ter um impacto negativo no que está à sua volta. Embora, depois da histeria gasolineira da semana passada, comece a pensar que antes de que a Natureza alguma vez retalie sobre o ser humano, já os seres humanos, de uma forma ou outra, se tramaram uns aos outros, aos poucos. E tudo bastante ajudado pela estupidez de muitos mais do que só aqueles que, nada tendo de estúpidos, apuram, com o aplauso desses, o dom da manipulação. Mas voltemos ao dia daquele vôo.
A revista mensal de Abril da transportadora aérea que nasceu nacional trazia, como é agora costume neste mapa contemporâneo em que aparentemente têm lugar de destaque todos os ofícios humanos que possam ser transaccionados, um texto de autor de literatura. Gonçalo M. Tavares, em formato edição bilingue, ocupava a página ímpar de um par delas que se enchia com título, autor e imagens trabalhadas. E o que me chamou a atenção, não fosse só o nome do autor que se reconhece com gosto, foi o título do texto: “Conversa sobre democracia, num banco de jardim”.
Quem conhece o Gonçalo M. Tavares reconhece sem estranheza a sua maneira de arrumar os sons nas palavras, as palavras nas frases, as frases no texto que criam ali no papel a imagem do que se vê e ouve naquele mundo imaginado. Mas ouvir uma conversa de jardim sobre Democracia em Abril, nas nuvens, pode ser surpreendente. Agradavelmente surpreendente. Depois recorda-se que, de um dos livros folheados do autor, aquele texto não era afinal estranho. O livro de onde saía era sobre uma viagem também, com conversas entre um eu e outro eu, parecia-me. Mas ali, numa revista que vende como destino de fugas paradisíacas lugares onde, apesar disso, vive e se governa gente, parecia estranho.
É o mês de Abril em Portugal e soa-me muito bem aquele pedaço de boa prosa em português a misturar-se com personagem de nome estrangeiro de referência mítica e a dizer coisas tão acertadas como só os que conhecem o poder das palavras sabem dizer e ler. E cito a frase que encerra o texto e que me acorda a por vezes tão dormente boa esperança ao aterrar em Portugal no cabo da viagem: “A decisão política de um democrata, diz Jonathan, é o ato do corpo que envolve mais sentidos humanos: além dos cinco habituais, ainda o sentido de justiça.”
E eu apercebo-me de que não é com abraços, beijinhos e olhos em alvo numa máscara de lírio pendente na cara que se fazem os democratas. E que é o tempo de perceber porque, ainda assim, teremos de continuar a repetir: “25 de Abril sempre!”
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