16.4.19

Os incrédulos

A Páscoa é a Festa judaico-cristã. Para os crentes não há festa como esta. É nela que se celebra a vida depois da morte. Haverá lá coisa mais reconfortante do que saber que se permanece vivo no fim da história e que o “foram felizes para sempre” afinal não é a fingir! Apesar destas certezas em algumas pessoas não afastarem medos, nem demoverem vontades de deixar nesta vida o que não podem levar para a próxima. Mas adiante, porque estes desconfortos são de quem procura uma ordem fora do coração e alojada apenas nos neurónios, o que não dá grande ambiente quando se convive com gente de quem se gosta e de coração e neurónios no sítio e a funcionar bem.

Há estas coisas da Religião que trazem a alegria a muitos e depois há também as coisas da Ciência que se agarram àqueles que, por definição, têm sempre poucas certezas e vivem cheios de dúvidas, à procura de provas. Às vezes, mais raras, convivem estas duas personae em espíritos abençoados que conseguem, de forma sublime na minha quase invejosa opinião, ir conciliando o mistério da Fé e a inquietação da Ciência. Uma felicidade que, talvez nos menos crentes em mistérios e mais ansiosos em poderem descansar perante a incerteza da Ciência, se consegue quando acontecem coisas como a primeira fotografia de um buraco negro. E assim como os incrédulos de Fé tendem a fazer chacota com as certezas dos crentes, assim também os houve quem, de espírito habituado à paródia, tratou logo de, no ambiente certo para isso, fazer piadas com fotografias semelhantes em lugares mais banais do que lá no meio do Universo.

O que não tem piada nenhuma, e é até um bocado triste, foi a notícia daquele bando de “cientoligiosos” que se puseram a caminh0 do Pólo Norte para provarem que a Terra não é redonda. Mas a eles também, como aos meus ouvintes, eu desejo uma boa Páscoa! Pode ser que lhes passe...

9.4.19

O logro da opinião pública

Eu sou do tempo do pós-25 de Abril em que toda a gente falava de Política. Muitas pessoas quase analfabetas discutiam a sua opinião fazendo ressalvas sobre o não perceberem nada daqueles assuntos, mas... E quando os interlocutores eram de uma elite que tinha passado os anos precedentes a 74 a ler e discutir clandestinamente sobre assuntos proibidos, invariavelmente a resposta a esse auto-apoucamento era de louvor à livre expressão de opinião. Louvava-se a forma como o estavam a fazer, argumentando em público sobre como gerir a coisa pública, já que em Democracia isso era fazer Política. Bem entendido que esse foi o tempo em que a percentagem dos que acorriam às urnas nas eleições fazia desses dias verdadeiros dias de romaria e festa. 

Era a infância da Democracia em Portugal. Essa idade de ouro que muitos olham com uma certa nostalgia. Uma nostalgia que se pode revestir de duas faces: a realisticamente pessimista que lhes retira as expectativas de que alguma vez a Democracia seja o adulto que tão feliz infância prometia; e a realisticamente oportunista que continua a dizer que dá voz a todos, mas que acaba por usar para si mais umas vozes que outras, resultando a habilidade que para calar umas as outras berrem desalmadamente. E isto, obviamente, não faz nada bem ao ambiente que se quer adulto, sem ser cinzento – ou vermelho, porque o que importa não são as cores mas a monotonia das mesmas. Quando se mistura tudo não se dá atenção a nada. Na mesma lógica, o que é de todos não é de ninguém. E isto, em Democracia, é muito perigoso.

Vir dizer que a opinião pública está mais exigente e escrutinadora é enganar as pessoas. Tal como chega dizer às pessoas o que é permitido ou proibido em Democracia, o que se despenaliza e o que se liberaliza, porque as pessoas exigem integridade e transparência. E depois esquecer-se que já houve momentos em que quem diz isto, como foi caricaturado, dizia que “é proibido, mas pode-se fazer”. Tudo isto para agradar a quem é a favor e a quem é contra e, numa chicana, vender-se a todos como se o todos fossem uma massa que se deseja informe e mais fácil de moldar. Populismo, é o que se chama a isto. 
Tratar a opinião pública assim como uma confusão de vozearias e, quando útil, promovê-la a fiel da balança de políticas públicas, usá-la usando os seus imponderados e epidérmicos argumentos, que tantas vezes lhe são injectados por elites bem organizadas e quando dá mais jeito, é um logro, uma intrujice, uma peta. Mas, hélas!, essa opinião pública, assim aconchegadinha, é a que, quiçá, se dará ao trabalho de ainda ir votar. E é por isso que o voto obrigatório já foi para mim uma realidade menos necessária e mais distante. 

A opinião pública tem o seu quê de lirismo, e eu explico porquê. Quem não estuda literatura - um campo com técnicas, métodos, história e teoria próprios - poderia dizer que aquele menino que, quando a escola não era a tempo inteiro ao terminarem as aulas não tinha ninguém em casa com quem ficar, dizia que ficava “fechado na rua”, estava a fazer poesia. Não estava. A frase bonita que disse era apenas reveladora de uma incompetência linguística, um ainda imaturo uso da linguagem, facilmente confundido com a capacidade de metaforizar. Esta é própria dos Poetas, aqueles que tantas vezes, como eu já também tantas vezes disse e não me cansarei de repetir, olha para o Mundo com um olhar inaugural, como se fosse a primeira vez, e lhe descobre o que está escondido ou esquecido. Como também não me cansarei de, na medida das possibilidades que estão ao meu alcance, contribuir para que a opinião de um que se juntando a outros, e eventualmente contribuindo para a opinião pública, seja baseada no uso do siso, usando as faculdades da razão, com a liberdade de ter a sua forma de, precisamente, pensar por si.

2.4.19

Não, não é normal

Não sei se alguém já alguma vez vos pediu que metessem uma cunha para que fulano, que conhecem vagamente mas é sobrinho da prima do vizinho impecável, fosse desempenhar uma determinada função; e que o fulano tivesse conseguido por isso o cargo e tenha sido altamente incompetente e incapaz. Deve ser uma vergonha... para quem meteu a cunha. Mas há quem ache normal estas cunhas e anormal quem não lhes ceda e não ache que, ser aquela pessoa a quem se mete cunhas, é crescer alguns centímetros.

Pois é, as relações entre membros da mesma família no mesmo Governo não é normal, mas também não devia ser tema da conversa que para aí vai só porque sim. Elas, de facto, são também sinal de fechamento de certos grupos em determinadas funções, para além de serem resultado de crescer com interesses e conversas à mesa em comum. E dos cargos políticos em equipa terem de estar assentes em relações de uma confiança que só imagino que deva existir equiparável quando nos metemos nas mãos de um cirurgião.

Essas relações que existem em todos, repito, todos os Partidos, estendem-se a autarquias, mas também, por exemplo, a universidades (a famosa endogamia que compete com as chamadas “formações de aviário” e que acabam por desvalorizar as próprias instituições, independentemente do mérito de quem nelas corresponda a esse perfil), quando se tornam tão visíveis como agora, só terão, atrevo-me a alvitrar, solução compósita e de frentes várias e simultâneas: que os estranhos à família estejam particularmente atentos para que a relação familiar não seja prejudicial ao resultado do desempenho definido para a função; que se constituam mecanismos dentro das organizações em que o mérito seja previamente escrutinado, no caso de cargos por eleição, antes de os familiares se constituírem como única solução ou opção; e que ao mínimo deslize de alguém que esteja nessas condições se exonere a pessoa e que quem a substitua não possa estar nessa mesma condição. Obviamente que isto é ilegislável, mas assim como nada há a proibir a situação presente, estes termos seriam uma boa referência. E a Comunicação Social poderia, então, aprofundar muito mais os casos que deram para o torto, do que andar só a soprar a espuma dos dias para nos dar matéria para umas piadas, algumas bem divertidas, diga-se. São casos não normais, merecem mais atenção do que só serem faits-divers, que é o que vai acontecer quando, e se, se abrir mesmo este assunto assim transformado em Caixa de Pandora.

Quando me convidaram para um dos alguns cargos políticos que já exerci e o comuniquei passadas umas semanas a uma pessoa próxima da parte da minha família que sempre teve membros politicamente ativos desde há quase 100 anos, essa pessoa perguntou-me quem tinha dito a quem me convidou de que família eu era. A expressão da pessoa, por amizade estou em crer, quando lhe respondi que essa pessoa ainda não sabia, foi quase de desilusão. É o que temos, e não, não me parece que deva ser normal.

26.3.19

Embirrações e Birras

Vou voltar à “manif” do #FazPeloClima no dia da greve às aulas dos miúdos das escolas. Não que pretenda fazer deste assunto uma série, género tão do gosto leitor juvenil, mas normalmente de desgaste nas qualidades literárias entre o primeiro sucesso e as sequelas. Vou antes espreitar rapidamente algumas reacções, e acções, dos crescidos. É que as houve desde quem achou - e sim o “achismo” é uma deformação do direito à opinião tão popular como deseducativa – que o Ministério da Educação devia ter dado “tolerância de ponto” para que os alunos não tivessem que faltar a testes, o que é ou revelador de inconsciência sobre o papel das instituições e das funções de cada um num sistema, ou de um paternalismo socialmente lamentável; desde este “eu acho” até às declarações em artigos e crónicas de opinião em órgãos de Comunicação Social de impacto nacional, como o fizeram Vasco Pulido Valente e Manuela Ferreira Leite.

Respeito estes dois seniores do mundo público e político português, com quem pontualmente cruzo opiniões semelhantes, sobretudo quando expressam uma certa mundividência do comportamento humano (embora isso não garanta que se comportem efectivamente de acordo com o que dizem. o que é até pouco comprovável). Um ridicularizou a possível manipulação destes miúdos pelos adultos, a outra achou a iniciativa deseducativa, ambos alegando que os comportamentos desta jovem geração contradizem as palavras de ordem e, aqui até concordarei com Ferreira Leite, acusam terceiros antes de exercitarem e tirarem as devidas consequências do “mea culpa” obrigatório quando usamos o pronome pessoal “nós”. Esquecem-se, os sábios seniores, que não é da posição instalada de quem tem um megafone sempre à disposição, mesmo tendo vivido em épocas e eras onde o uso da palavra em público lhes era vedado, que podem ditar as formas de muitos outros expressarem o seu descontentamento e reclamarem os seus direitos. Bem sei que a alguns, e não só seniores asseguro-vos, chocará o uso de um certo palavreado que, dizem e eu percebo, descredibilizam as razões sérias da luta, mas habituem-se os que julgam que é fácil “educar as massas” sem que, em troca dos princípios tidos como bons, se conceda nalguma patine mal espalhada de efeito menos requintado. Destas opiniões críticas e bem argumentadas ficou certamente uma pista para o futuro e com que a geração que se manifestou no passado dia 15 vai ter que lidar: estão “entalados” quanto aos vossos comportamentos, com que se comprometeram ao afirmarem que estão disponíveis para “fazer pelo clima”. A palavra simpática seria “convocados”, a que resulta das opiniões dos sábios seniores foi mesmo “entalados”.        

Destas embirrações com a turba ululante dos miúdos, gostava ainda de mencionar três espécies do “género birra” de indivíduos graúdos com direito a holofotes directos, e a que assistimos na última semana. E todas elas pouco educativas e edificantes para a jovem geração que esteja a aprender o que é o comportamento em política, que foi o que fizeram quando saíram à rua organizados. Uma de transmissão mundial, outra nacional e a terceira, uma hipótese de birra talvez só leitura dos mais atentos ao mundo dos Partidos. A primeira vem do Parlamento britânico, na figura da senhora May, e que com o grave imbróglio do Brexit põe de rastos o que é o dever de honrar compromissos, quanto mais não seja o do respeito pelos prazos de “entrega de trabalhos” e que deixou de ser, afinal, um “deadline” que deixa incumpridores impunes. A segunda vem, da que foi mesmo chamada “birra”, do Primeiro Ministro português no último debate quinzenal na Assembleia da República, quando tentava explicar o óbvio a quem, obviamente, não soube lidar enquanto oposição, a não ser comportando-se como insurrectos que não querem saber do que se passa na aula, e provocando só porque sim. Como os alunos engraçadinhos, que põem o dedo no ar para fazer uma pergunta que nem é retórica, serve apenas o seu público, e que não pede resposta do professor mas gargalhadas e malabarices dos colegas. A terceira possível birra desconfio que aconteceu no CDS, com o jovem e promissor político Adolfo Mesquita Nunes, que se calhar zangado por não ter sido escolhido para lugar elegível na lista dos Eurodeputados às próximas eleições, saiu com o estrondo elegante – ele é elegante! – de quem diz “se não me escolheram vou ali e já volto, fazer a minha tropa para quando a guerra recomeçar”.

Enfim, três birras que aconteceram, ao contrário daqueles com quem alguns embirraram por causa da manif do ambiente, em meios onde circula gente que tem a voz sempre projectada por um megafone que anda ali por perto, e que bem devia pensar que todos estão a assistir e que “alguém” os está mesmo a ver. Para os primeiros tão deseducativas, para os outros, infelizmente mais raros, tão elucidativas.