19.3.19

À espera da Primavera

Março parece-me, agora mais do que nunca, mês de renascer: Primavera no hemisfério norte, Juventude em Portugal, e Mulher no mundo inteiro. Descansem os ouvintes/leitores que não vou fazer uma composição sobre a Primavera. Que foi o que fez um tio-avô meu, quando na sua actividade de jornalista entre outras, no Estado Novo, cansado de ver muitos dos seus artigos traçados a azul, resolveu um dia fazer uma redacção com esse tema ao pueril estilo da escola primária. Não conheci o tio António Ramos de Almeida mas sempre ouvi falar bem dele. Morreu novo e lutou com a palavra. Tenho de o visitar no Museu do Neo-Realismo, talvez esta Primavera...

Não consegui ficar indiferente ao movimento #climatestrike, que em Portugal se chamou #FazPeloClima. Acompanhei-os, aos muitos e muito jovens, aqui ao pé de mim. Respondi a quem perguntava o que era aquilo, assisti à reacção de quem é poder aqui, no local. Sobre esta reacção nem me apetece falar. Fazê-lo era como partilhar numa rede social o que achamos que não merece senão ser esquecido de tão ridículo que é. Mas adiante.

Fiquei curiosa com o impacto deste movimento, que não me parece que arrefeça tão cedo a nível mundial, pelo menos pelas grandes capitais europeias, que impacto terá na actividade politico-partidária. Será que votarão mais? E darão os seus votos a Partidos ou protestarão com os brancos e nulos? E a que Partidos? Juntar-se-ão ao Partido que parecia reflectir essas preocupações mas se perdeu em propostas ridículas ou que, pelos vistos, não conseguiram deixar de ser ridicularizadas? Criarão um Partido que se descole da divisão Esquerda-Direita, Liberais-Conservadores, Democratas-Republicanos? Ou integrar-se-ão, infiltrados mas de cara destapada, em alguns Partidos? E se o fizerem, aceitarão cair nas incoerências em que a Política com maiúscula não pode cair sem se tornar politiquice, trocando posições por questões de interesse pessoal e cortando aos poucos o cordão umbilical (e indelével como a vida nos ensina) com a Terra Mãe?

Gostava de assistir ao desenrolar desta revolução que parece estar a acontecer. Não sabemos se será muito lenta, se será como uma guerrilha ou se haverá grandes batalhas que ditarão o rumo das tropas. Como os jovens, também nós, os que já estamos oficialmente na curva descendente, temos sempre alguma pressa de ver as coisas acontecerem rapidamente. Às vezes as desilusões que tivemos retiram-nos alguma esperança, mas é de um enorme egoísmo retirar essa esperança aos jovens, se bem que seremos igualmente úteis se ficarmos por perto, sem paternalismos, em caso de vacilação ou de perigo previsível.

Não sei se terei esse tempo, mas enquanto cá estiver e sempre que quiserem o que lhes posso dar, e eu puder, esta geração será para mim a geração que não está perdida. E continuarei, mesmo no mais agreste Inverno, ali ao pé, à espera da Primavera.

12.3.19

O Pinto-Esperto


O rapaz tem um ar vivaço e aparece nas televisões lusas em cenário búlgaro com discurso fluido e com tom de que tudo quanto diz é óbvio para qualquer comum mortal. Não óbvio porque “poucochinho” e fácil de entender, mas porque, cheio dele mesmo, a mensagem que sai da sua boca oracular atinge os píncaros do bom-senso e só pode estar prenhe de razão.
Pela profissão que tenho, lido quotidianamente, e ano após ano, sobretudo com jovens. Tento fazer com que mantenham a vivacidade própria da idade e consigam encontrar o equilíbrio saudável, para eles e para os que com eles convivem, entre uma certa displicência que não os torne ansiosos e uma ansiedade que não os deixe passar ao lado do que pode ser-lhes importante. Por esta altura já terão percebido que falo do hacker do footballeaks que está em risco de ser extraditado para Portugal, se é que à hora a que me ouvem ou lêem não está já por cá.
Diz que se sente ligeiramente em perigo, agora que saiu da “nuvem” onde andou a espreitar pelo buraco da fechadura de portas que, para o bem ou para o mal, têm direito a estar fechadas. Se o rapaz de sotaque e divertida aparência (confesso a sincera graça que lhe acho ao look ) “Porto-Espinho” tivesse ouvido contar (e se calhar ouviu) o que acontecia às personagens que nas histórias tradicionais ouviam atrás da porta e espreitavam pelos buracos da fechadura, tinha razões para ter medo. Não porque lhe possam alguns “limpar o sebo” transformando-o, esse perigo iminente, naquele herói de filmes e jogos que deve frequentar nas horas em que não está a piratear e a violar a privacidade de gente a sério, seja gente mais ou menos séria. Mas porque essas etapas do herói bisbilhoteiro tantas vezes atrasavam o desenrolar da história e a chegada do final feliz.
É que este justiceiro do primeiro quartel do século XXI, que talvez já tenha quase nascido ligado à .net, representa o mau uso da acessibilidade ao mundo interconectado desejável para todos como sinónimo de progresso. E que a par da facilidade em aceder a mais informação, a obter agilmente soluções para problemas ou processos que nos roubam tempo de qualidade à vida, a par de tudo isto e mais algumas coisas, se mantenha o direito à privacidade. E dando-lhe o valor que não a transforme, por se lhe querer atribuir uma imagem banalizada de bas-fond. Aprenda, jovem, que o segredo tem muitas vezes boas razões para existir, e que atrás de uma porta não existem só malfeitores a conspirar. Se este princípio se acabar e se se banalizar a devassa sob a capa de uma justiça por acontecer, “descanse”, jovem, que quem “vier por mal” rapidamente encontrará alternativa para continuar. E pelo caminho muita vida íntima, integra, terá sido interrompida.

5.3.19

Hoje há palhaços!


Como é Carnaval e gosto pouco, ou nada, de me mascarar em qualquer altura que seja, lembrei-me de falar daquelas máscaras que são toleradas, e até acarinhadas felizmente, ao longo do ano em certos locais públicos. Falo dos palhaços, naturalmente, de que mais poderia falar?
Os palhaços servem para fazer rir, ponto final. O riso espontâneo, arrancado à ingenuidade que alguns já perderam e à emoção que outros ainda não aprenderam que têm. O que os palhaços fazem, e que leva ao riso, e às vezes às lágrimas de tão bonito que é ver o riso sair do que deixa de ser ridículo e passa a ser belo, dependerá consequentemente do público a que se apresentam e que os incentiva a fazerem as suas, cada vez melhores e mais divertidas, palhaçadas.
Não existe um palhaço sozinho em casa ao espelho. A não ser que se esteja a preparar para sair a público e receber os aplausos daqueles a quem vai entretendo. É acarinhado por todos os que lhe pedem que volte outra vez, tem o seu público fiel, que o faz continuar a ser palhaço. E não precisa de fazer muito em palco, o palhaço, basta fazer muito bem feito. Mesmo o muito bom palhaço, o que é muitíssimo famoso e aplaudido por multidões, só precisa de fazer, com muita arte, as chamadas palhaçadas. Não é um humorista que até percebe, e tem de demonstrá-lo, de uma retórica certeira, uma arte de usar o verbo para arrancar o riso das pessoas, por puxar-lhe pelas celulazinhas cinzentas. O palhaço normalmente faz também sair as emoções dos que assistem ao seu espectáculo mas sem que tenha que demonstrar que há um pensamento, uma certa lógica, enquadrada e contextualizada, com argumentação séria.
Quando num espectáculo para rir a argumentação é incoerente, desmontável, mesmo que, não sendo, pareça verdadeira, é uma falácia. E aí não temos um bom humorista, e talvez nem tenhamos sequer um bom palhaço. Porque se fosse mesmo bom, o palhaço sabia fazer outras coisas que fizessem rir só porque sim e não porque quisessem ser verdadeiras. Há no palhaço uma espécie de arte especializada em fazer sair o riso sem precisar de dizer porquê ou para quê. Os palhaços são como as cócegas. E é por isto que, quer para fazer, quer para entender o humor, é preciso usar as celulazinhas cinzentas que se tem. E que para fazer boas palhaçadas. que arranquem boas gargalhadas. é preciso tocar nos corações das pessoas.
Dito isto, até parece um bocado injusto que a de palhaço seja uma máscara tão associada ao Carnaval, essa época em que podemos ser o que não somos, e fingir sem enganar e sem nos enganarmos. A não ser que, na lógica do mundo ao contrário, do fazer de conta que se é não sendo, a máscara de palhaço seja a dos que não têm pingo de emoção, nem pescam nada da arte de fazer cócegas na alma e de nos pôr a rir. E aí, sim, é Carnaval a sério. 

Bom, mas Carnaval é Carnaval até em Évora onde há tema obrigatório para ser Carnaval oficial, imagine-se. O deste ano foi um tema muito “à frente”, futurista mas muito sério: Évora, Capital Europeia da Cultura 2027. O desfile terá feito as delícias dos foliões, naturalmente, até porque Évora já foi capital em que os textos de Gil Vicente eram representações de referência onde o humor resiste ao Tempo. Neste Carnaval oficial em Évora a linguagem foi, no entanto, de fino recorte bolsonarista, já que se ouvia na Praça maior da cidade o Samba da terra de Jair, com versos tão sugestivos como: “sou casada, mas ele faz tão gostoso / dim, dim pode dar em cima de mim”.  Que arrojo, nossa!   


26.2.19

Era uma vez a ADSE


Era ainda o terceiro mês de 2018, mas já não era a primeira nem a segunda vez que, naquele ano, ela ia fazer aquela cirurgia urgente. O problema parecia estar a tornar-se, para além de agudo, crónico. As consultas, porque podia escolher mesmo sendo beneficiária do subsistema de saúde chamado ADSE, eram em hospitais particulares. As cirurgias, daquelas que se fosse numa sala de espera das Urgências do hospital público teriam direito a atendimento de  pulseira vermelha, também tinham sido assim, urgentes. Num ou noutro hospital privado, empresas diferentes, consoante o dia que o cirurgião tinha um ou outro na agenda. E esta cirurgia seguia a mesmo caminho, desta feita em hospital privado, muito antigo e modestinho de aparência, nada desses novos impérios da saúde com instalações que parecem aeroportos.

Também este, mesmo sendo mais modesto ao estilo hotel de charme, tinha a convenção que aligeirava os custos da “coisa”. Como ela já conhecia também o método da gestão desta parte burocrática, feita com o desespero de quem está fragilizada pela situação, sabia que uma quantia mais elevada era pedida à partida e que mais tarde viriam acertos para aliviar. Daquela vez, no entanto, espantou-se com o quão mais elevada era a quantia. Só mais tarde se deu conta da polémica que estava a começar a ouvir-se sobre a ADSE e os Privados quanto ao preço dos chamados “actos médicos”. Assinatura para aqui, depósito para ali, no meio dos papéis vinha uma novidade: uma tabela, em branco, que anunciava em cabeçalho tratar-se da lista dos materiais médico-cirúrgicos que seriam utilizados. Ela pediu desculpa à pessoa que a atendia, que não era nada de pessoal, mas que por princípio não assinava folhas em branco. Que não fazia mal, respondera a pessoa amavelmente, que quando viesse mais tarde acertar as contas que assinaria a tabela já preenchida com a listagem exacta do que tinha sido usado. Passadas poucas semanas assim o fez. Regressou para receber a quantia que lhe era devida pelo acerto. Ninguém lhe pôs nada à frente para assinar, mesmo depois de ter perguntado pelo dito papel e confirmado se estava tudo certo e acertado.

Meses depois, após vicissitudes várias que tornavam não só o seu caso num caso grave,  como a tinham tornado a ela própria numa quase especialista destas andanças de hospitais, consultas, cirurgias urgentes, num entra e sai, numa recibo-factura-original-duplicado, para cá e para lá, regressou a esse mesmo hospital para aquela que desejava mesmo muito que fosse a última das cirurgias àquele estupor daquele problema. O conflito ADSE-Privados ainda não se tinha extremado como está agora. Mas naquele mesmo hospital voltaram a fazer-lhe a mesma proposta – indecente, está bom de ver – para que assinasse uma folha em branco com a lista do material que usaria, etc., etc. Como se costuma dizer, o mesmo enredo.

Ora digam-me lá se esta história, que não é da carochinha, não senhor, apesar do “Era uma vez” porque não foi só uma vez, e que aconteceu mesmo que eu sei, não nos deixa a magicar sobre o quanto material médico-cirúrgico a utilizar terá ido parar a contas de beneficiários da ADSE?... Como diria o Fernando Peça, aqui há muitos anos, na televisão: “- E esta, hein?”