19.2.19

Quando há guerra há os mercenários


Tudo quanto se assemelhe a um conflito de interesses entre duas ou mais facções parece extremar-se agora como se de uma declaração de guerra se tratasse. Não sei se porque a “palavra de honra” parece ser uma espécie em vias de extinção... Se porque quem se vê prejudicado pela falta desse tratamento com dignidade que respeite a honra aprende a fazer igual e replique esse tipo de comportamento... Não sei se esta ideia de que termos de ter autoestima passa por nos sentirmos todos únicos (e até somos!) e, com isso, no direito de tratar o “todos” como ninguém (não temos!)...

Certo é que contra aquele que os encostados à Direita chamam um Governo encostado às Esquerdas, extremistas e beligerantes, se têm assistido a inauditas propostas de guerra. Saltam das trincheiras que pareciam lugares relativamente mais seguros porque do outro lado a artilharia era, ainda assim, mais leve do que as cargas devastadoras que antes sofriam, para se assanharem contra quem, ainda que com algumas intermitências, por vezes partilharam objectivos comuns. Uma confusão para quem assiste e tenta arrumar na sua cabeça os lados de uns e outros e só consegue, às tantas, perceber que só há dois lados: o dos que estão no Poder e o dos que lá queriam estar. Sendo que alguns já só têm interesse em ter o Poder de estar a comandar os que não estão no Poder. Enfim, o ambiente social é de guerra e as ameaças à Vida chegam quando, neste contexto, as frentes se degladiam nos cenários em que salvar vidas começa a estar em perigo. Falo, está claro, da greve dos enfermeiros financiada por crowdfunding. Mas também das outras que, de arrastão, ameaçam aproveitar a poeira do elefante...

Esta modernaça forma de contestação laboral por parte de jovens sindicatos de enfermeiros instigados por velhas raposas de guerras intestinas e declaradas a tudo o que chateie e impeça a sua escalada social; ou seja, a greve cirúrgica dos enfermeiros, veio injustamente denegrir a imagem de uma classe. É que como nas guerras mesmo guerras, com tiros e mortos e devastação e tudo o que é mau, ser um combatente não é a mesma coisa que ser um mercenário. Se procurarem uma definição numa informal página da Internet, verão como essa palavra se aplica a estes novos guerreiros. De uma forma geral, um mercenário  é um soldado que trabalha a troco de soldos, ou seja pagamentos, sem ligações patrióticas ou aos ideais por que luta, que é o que quem faz greve em defesa dos seus direitos laborais é: não trabalha e não recebe para demonstrar o quão séria é a sua luta. E repararão que, numa extensão do sentido da palavra “mercenário”, esta também se aplica ao profissional que trabalha visando apenas o lucro, sem se importar com as regras, a ética ou os princípios impostos pela profissão que escolheu.
Eu não tenho nada contra “os” enfermeiros, mas tenho muito contra estes enfermeiros. Não enquanto técnicos, naturalmente, onde podem ser os melhores dos melhores, mas enquanto membros de uma sociedade em que se consome de acordo com o que se produz, e onde se nuns casos parece que produzimos mais do que aquilo que consumimos, noutros será o contrário. Tem graça que há muito que não oiço nenhum miúdo repetir como eu fui ensinada a pensar e a dizer que todas as profissões são importantes. Será que há quem agora já ache que não é assim? Parece-me um sinal de que o “todas” vai um dia mesmo transformar-se em “nenhuma”...

12.2.19

Lara não é nome de tempestade


Lara não é nome de tempestade, é o nome da menina de dois anos vítima mortal de violência doméstica, das nove que já se contabilizaram só este ano em Portugal. Como no anúncio que passa nas televisões, tão chocante quanto o tema e em que se encena um julgamento a um confesso criminoso por violência a uma idosa, muitos somos os cúmplices destas situações, com desfechos mais ou menos graves. Quem nunca ouviu dentro de uma casa vizinha, ou de um carro estacionado, uma discussão mais acesa entre duas pessoas e cuja, ainda assim, intimidade que as parecia proteger nos impediu que interrompêssemos a perguntar se estava tudo bem, quanto mais a comunicar eventual ocorrência à autoridade mais acessível? Quantas dessas discussões terão resultado numa escalada de violência que tenha causado danos irreparáveis nos seus intervenientes? Do aparentemente simples amarfanhar emocional capaz de condicionar possíveis futuras relações de um indivíduo, mulher ou homem, ao assassinato, tudo pode ter começado com essa discussão. Definir os limites parece não ser difícil até ao momento em que se tenha de passar à acção. “Meta-se na sua vida!” é a resposta que em público envergonha qualquer cidadão que só queira mesmo viver assim.


A denúncia, em particular em Portugal onde há ainda tantas sombras pidescas a acusarem-na, é um procedimento preventivo. E é até uma das formas do controle social que funciona em sociedades cujas regras em público são mesmo para cumprir e não simulacros de que andamos a fazer as coisas de acordo com regulamentos que exigimos e aprovamos. Mas quando o que parece estar a correr mal acontece em privado mesmo, é difícil descobrir qual o limite que se ultrapassa e, muitas vezes, já só quando a violência é física e pesada se consegue percebê-lo para agir. E a violência física é mais do que o grau zero da violência. Esse, o grau zero, é por vezes tão silencioso quanto devastador e insultuoso. Erguer a voz para discutir acaloradamente um assunto, mesmo que pessoal, não é, no entanto, o mesmo que insultar. Mas o insulto, cada vez mais banal, e por vezes até em discussão pública, tende a ser cada vez menos penalizado. Por exemplo, em certas situações onde até aparece envolto em falinhas mansas ou de inspiração bíblica. E sim, uma sentença num caso de julgamento por violência que se transforma em julgamento por adultério, é uma situação cúmplice da defesa da violência.


A violência doméstica não é nem pode continuar a ser um monopólio das questões da igualdade de género, cuja promoção, temos obviamente de reconhecer, veio desempenhar um primordial papel na sua denúncia. É uma questão de saúde pública, de intervenção social, de educação. E não falo da educação do sistema de ensino, mas de um sistema composto, em que são intervenientes todos quantos por dever têm actuações em público e que têm de ter consciência que são modelos ou exemplos que outros vão seguir. E é por isso que, numa época em que em público se faz tanto ou mais do que se diz, já parece não chegar dizer para não se fazer. Os vícios e as virtudes descem sem vergonha à rua, pelo que não chega evocar ou fazer sentir a vergonha para punir. Ela é até já só mais um motivo para justificar a humilhação e, portanto, reprovável. Parece, então, que talvez tenhamos chegado à época em que a lei afinal tem mesmo de servir para moralizar. E, descomplexadamente, tentarmos limpar-lhe a patine dos credos para a revestirmos com o manto da dura realidade que a sociedade tem de enfrentar, sem ilusões de castigos adiados em nome de entidades supra-humanas. Uma espécie, mas a sério, do “cá se fazem, cá se pagam” com intermediários em campo, já que nem ninguém é bom juiz em causa própria, nem quem tem que defender causas deve julgá-las sem contraditório. Não é fácil, pois não, mas talvez esse acabar com o sentimento de impunidade tivesse evitado toda uma vida de um indivíduo que levou à morte de Lara.

5.2.19

A Caixa (dá música)


O assunto da Caixa Geral de Depósitos chegou à campanha eleitoral. Uma espécie de novo tom para hinos de campanha, de novo terreno a juntar-se aos mercados e feiras, onde pouco mais se diz aos potenciais eleitores do que qual o nome e os rostos dos Partidos. São sobretudo tournées, oportunidades de mais populares verem ao vivo, com direito a beijoca e selfie, aqueles que lhes entram em casa tacticamente todos os dias, a dizer quase sempre mais ou menos a mesma coisa - que já nem os ouvem!

Porque para quem lê, vê ou ouve, com atenção, como prática regular, debates e comentários, notícias que não queiram só vender o sangue pelo sangue - que é aquele que não se esvai de mim nem dos meus – para estes as novidades vindas a público são, em termos gerais e sem o detalhe da fotografia dos procurados e talvez quem sabe um dia condenados, novidades pouco novas.

Não quero obviamente dizer com isto que não se devia ter mexido no assunto da Caixa. Até já chega tarde!... e, espantem-se muitos exaltados, graças a um Governo do PS. Espero é que seja como uma vacina por que esperamos há muito e seja, como tal, profilática de práticas a perpetuarem-se. Bom mesmo era que se espalhasse a notícia com contornos ainda mais úteis à saúde da Democracia e que se fizesse perceber aos muitos frequentadores, quase residentes de feiras, mercados e programas da manhã, como, à escala, resultam os jeitinhos e favorzinhos que, em podendo, tantos milhares de pessoas gostariam de obter. Percebe-se que o façam porque não vivem bem, porque lhes faltam bens ou serviços essenciais, mais uns que outros, mas sem que pensem que enquanto for só por jeitinho ou favor, ao ser fora de um sistema que tenha que mudar, alguém ficará prejudicado. Se não for directamente, será porque nada mudou para melhor e que ajude o próximo, como diz o discurso religioso que alguns, que o proferem em modo ladainha, já nem entendem. Como se só soubessem entoar de ouvido...

Pois sobre o assunto da Caixa Geral de Depósitos só me lembrou a intervenção daquela senhora deputada do PSD, acusada de ter marcado a presença por outro, e que resolveu insultar, até quem só falou do assunto, de “virgens ofendidas”. Já estou a imaginar os mesmos que julgaram todos os deputados pelo mesmo padrão a acenarem ao ouvir as palavras na voz fina e frágil da senhora deputada. E, às tantas, sem se aperceberem do “coro que estava a bater-lhes”! É uma pena que a música se possa prestar a tantas metáforas que pouco tenham a ver com a Beleza. É como a ficção!

29.1.19

Racismo e violência: uma questão de escala(da)


No Jamaica ou na Venezuela, em Paris ou em Elvas, com ou sem coletes, com ou sem bandeiras, a violência estalou nos últimos tempos, em graus e relevâncias diferentes, regionais, nacionais ou internacionais. Uma questão de escala, portanto. Escala na consequência, mas também na causa, estou em crer, do lugar e da influência do discurso do ódio.

O discurso do ódio não é só o oposto do discurso do amor. Eles partilham o mesmo denominador das emoções irracionais e, por isso, não condenamos os discursos quando se limitam, a prazo portanto, à expressão íntima da paixão, da revolta, do luto. Expressão que, quando ponderada e filtrada pelo uso da razão, se vai esvaziando para permitir um convívio sustentável, um ambiente respirável. Se quiséssemos ser fundamentalistas – e às vezes bem precisamos de saber, ou de nos lembrar, por que é que não o somos – poderíamos afirmar que qualquer expressão que prometa luta a alguma coisa se bandearia para o lado do discurso do ódio. Mas depois temos as “lutas boas”: contra o cancro, contra a discriminação, contra a poluição... E a paradoxal luta contra a violência.

Quando com Abril, meia dúzia de anos depois do Maio, chegou o outro paradoxal “proibido proibir”, o verbo deixou de circular clandestino, cuidadoso porque perigoso para os dominadores e, efeito disso, para os dominados. Cantou-se em voz alta a ideologia que combatia a deformação de carácter que a outra ideologia ensinava. O combate, felizmente e apesar dos lutos – os reais, da morte, e não os figurados – o combate fez-se com palavras. A palavra, na canção, tornou-se uma arma. As paredes gritavam-nos aos olhos palavras que ditavam ordens contra a ditadura. Pois... quando mergulhamos assim devagarinho nas palavras, começamos a perceber as ratoeiras para a coerência, mesmo quando sabemos muito latim.

A escala em que usamos as palavras são como a escala musical, quer-me parecer, eu que não percebo nada de música e já quase não sei ler um dó ou um sol... Diz-me a enciclopédia do povo, a que alguns académicos já começaram a prestar atenção porque mais vale entrar no sistema para o melhorar do que ficar de fora a vê-lo degradar-se e contaminar tudo o resto, falo da wikipédia, bem entendido, diz-me que “as escalas musicais formam a base necessária para a formação de acordes e tonalidades”, que se pode “utilizar mais de uma escala para formar linhas melódicas sobre uma mesma tonalidade (...)ou ainda, explorando notas de tensão apropriadas sobre as cadências harmónicas da tonalidade.” A escala dá-nos a medida, pois claro. E é por isso que para refrear acções e reacções desmesuradas devemos medir as palavras. Para que a acção e a reacção, a de violência claro que é que traz a morte e o ódio, não se intensifique e se torne uma escalada.

Eu sou do tempo em que se dizia que os jovens já não liam nem escreviam. Também estou no tempo em que a ciência dos significados nos ensina a ler imagens para além de só olhar. Em que ver é ler, porque ler resulta em interpretar, em dar sentido a significados que lá estão, ou podem estar. Quando as pessoas olham mais do que só por olhar e vêem também lêem. É certo que às vezes treslêem e por isso há discursos, mesmo os das imagens, que não podem ser equívocos. E que não podem ser pronunciados, sejam ditos ou mostrados, por quem tem a responsabilidade de ser responsável. Se vamos dar a ler ou a ouvir a outros o que temos para dizer – a falar, a cantar, a filmar – teremos de contar com as reacções que provocamos, mesmo quando queremos ser contra. Porque o contra-poder também é poder. E é também por isso que erramos menos quando queremos, por facilitismo, generalizar conceitos usando-os no plural. (Pois, o que é de todos mais facilmente não é de ninguém se as coisas dão para o torto.) Nesta sequência lógica poderia parecer, então, que talvez já não haja racismo mas racismos. E ficaríamos todos muito mais aliviados porque cada um de nós já terá algum dia em algum lugar tê-lo sentido na pele e na alma, que estão ali tão próximas uma da outra como a sensação da emoção.  É uma espécie de remedeio. De dividir o mal pelas aldeias. Depois o que é mesmo uma maçada é quando o mal alastra. E ganha escala.


22.1.19

A importância da pergunta



Entre o nacional alarido com a crise no PSD e a internacional preocupação com o modo de concretização do Brexit, assim decorreu a passada semana noticiosa. Quer uma, quer outra circunstância foram consequência de processos de auscultação democrática. Num caso, quase familiarmente íntimo de escolher entre candidatos a chefes de família; no outro, a opção de um reino composto por várias famílias se manter ou não ligado a um conjunto de outros países, reinos e repúblicas.

Em ambos os casos as opções de escolha não foram muitas, antes quase só em alternativa. Se no caso do Brexit essas duas únicas opções de resposta à pergunta eram inevitáveis, no caso do Partido português as perguntas ao “Quem quer, quem quer liderar o PSD?” poderiam ter sido, de facto, de escolha múltipla, ainda que com resposta única, bem entendido. Nem no Brexit, nem no último congresso do PSD foram feitas perguntas retóricas. Ou não deviam ter sido...

As perguntas retóricas são aquelas que não têm como objectivo obter uma resposta mas sim, das duas, uma: ou estimular a reflexão sobre o assunto sobre o qual se pergunta; ou ser sarcástico. Este tipo de perguntas é muito interessante em discussões conceptuais, em conversas de salão ou em reuniões de “partir pedra”, esse coloquialismo que designa os processos em que se colocam hipóteses, se traçam cenários, uma espécie de rascunho para uma versão definitiva e pública o mais atinada possível. A pessoa que faz uma pergunta retórica já sabe ou imagina a resposta. Mas isto também só se a pergunta, ainda que retórica, for bem feita, pois arrisca-se, quem pergunta, num momento de “rodriguinhos”, a levar como resposta uma outra pergunta, até mais embaraçosa.

Mas voltemos às perguntas em Democracia, sejam elas em forma de eleições ou referendos. O sistema político democrático exige esforço por quem se propõe geri-lo de forma a que ponha, de facto, os cidadãos a quem serve a participarem assumindo a centralidade do mesmo. Inclusive, exige um esforço, talvez o mais hercúleo, de explicar o uso da Democracia pelos seus próprios beneficiários. E este é um trabalho constante e interminável, que quando desleixado apenas serve para que uns se sirvam da Democracia em vez de a servir. Escolher é estar preparado para responder a uma pergunta. Perguntar é estar preparado para receber as diferentes possibilidades de resposta escolhidas. Como dizia o título de um antigo programa de rádio entre um psicanalista e um pedagogo, e que virou livro: “se não sabe porque é que pergunta?” Uma pergunta mal feita, ou feita na altura errada, significa falta de capacidade de quem a faz. Ou então, lá está, revela que a vontade de fazer a pergunta ao abrigo da definição de Democracia é só mais um instrumento tacticista de manipulação de quem responde. Como exemplos temos precisamente os dois casos noticiados que vos trago: não fazer parte da resposta a uma pergunta numas eleições, só para tentar voltar a fazer a pergunta mais tarde, em altura mais oportuna para o próprio, se não foi o que aconteceu no PSD, parece ter sido; ou por outro lado, fazer uma pergunta não se medindo as consequências da resposta, como quando convocou o referendo do Brexit David Cameron no Reino Unido, e, ao contrário, Mariano Rajoy não o validou na Catalunha. Na Catalunha já se calaram as vozes dos que, para se servirem do momento mais oportuno, o seu momento mais oportuno, criaram um ambiente de guerrilha. No Reino Unido, o imbróglio é grande e repetir o referendo parece contribuir pouco para o prestígio da Democracia, como se tivessem estado a brincar com ela até que a melhor resposta fosse dada. Aos britânicos, mais do que ter feito a prematura pergunta de resposta “sim ou não” importava ter apresentado todo um caderno dos encargos que as mudanças com a saída da UE impunham. É que perguntar pode mesmo ofender.