8.5.18

Sustentabilidade Comunicacional


Não vou falar de nomes e não é porque ache que sejam todos iguais os que partilham com os mais ouvidos, pelas piores razões, as actividades públicas. É antes porque sou de opinião de que os nomes toldam o verdadeiro assunto político, o que deveria merecer a atenção dos cidadãos interessados. E o assunto é: exercer cargos públicos continuando a tratar da sua vidinha. Seria, no entanto, ingénuo pensar que o facto de estes assuntos, por surgirem assim fulanizados, terem sido levantados e afanosamente mantidos em discussão e alarde por alguns, não só não os ilibe de se verem um dia na mesma situação, como ter unicamente como intenção repor a ordem das coisas. Ainda pensei em adjectivar essa ordem com, por exemplo, “normal” ou “natural”, mas nenhum deles me descansou sobre se lhe conferiria um sentido literal ou se alimentaria o mau uso do adjectivo ou até do próprio substantivo, “ordem”, usado neste contexto.

Não sendo, pois, uma crónica sobre casos de outros, está chegada a oportunidade de falar do meu caso (de resto, título de uma peça de teatro escrita por José Régio cuja leitura aconselho vivamente, para além da mais mediática adaptação feita por Manoel de Oliveira ao cinema, porque nos põe a todos a pensar nos papéis que ocupamos no teatro social). Queria pois contar-vos um pequeno detalhe do meu percurso enquanto vereadora com pelouros atribuídos. A nota que vos dou é propositadamente curta, permitindo-vos que retirem, das parcas palavras que usarei, as vossas conclusões.

Tive responsabilidades na empresa municipal que geria o estacionamento na Cidade. Várias vezes usei o meu próprio carro para me deslocar em representação oficial. Na impossibilidade de estacionar bem o carro,  deixei-o algumas vezes em situação não regular, tendo o cuidado de nunca o fazer em lugares destinados a utentes com mobilidade reduzida. Nunca fui, por isso, tão multada como quando era a gestora da empresa. Paguei todas as multas, com as mesmas diligências com que recebi e pedi que se respondesse a quem reclamava com as suas próprias multas. Com o aproximar das eleições autárquicas, estas reclamações tornaram-se mais e mais “em directo”. De cada vez que contava ou que contavam “o meu caso”, por mais do que uma vez, a resposta de quem reclamava foi:” Vocês, nem para vocês são bons! Vão perder as eleições!”. E mais não acrescento, porque o resto da história é pública.  

O termo “sustentabilidade” arrisca-se a cair na banalidade de outras expressões como o “populismo”, o “politicamente correcto” e até a “literacia”. Ainda assim, nestes tempos que parecem aproximar-se perigosamente de certos retrocessos das conquistas de 74, em meu entender por uso indevido e incompleto do sistema democrático, aconselho os meus ouvintes e leitores, com quem partilharei o gosto de poder ter acesso a todas as formas de comunicação de informação e expressão de opinião a iniciarem um processo de selecção – do tipo que se faz na reciclagem dos resíduos – no que por aí ouvem ou lêem, para continuarmos todos a ouvir e a ler. E, já agora, a estarem atentos a determinadas medidas legislativas que respondem a momentos e casos que enxameiam os vários canais de comunicação, em vez de se preocuparem com o que verdadeiramente interessa à Sociedade, à Política e, na minha convicção, ao progresso da Humanidade: a saúde da Democracia.

1.5.18

Do Contra ou A Favor


Ser-se casmurro é um direito numa sociedade progressista, aberta e democrática. O casmurro é aquele que persiste numa determinada ideia ou opinião. Pode dizer-se que coerência não deveria faltar a um casmurro. Isto para além da persistência, claro. Em termos práticos, o que pode acontecer é que o persistente vença mais pelo cansaço do que pelos argumentos e que o coerente deixe de o ser se o método de validação do argumentário for o comparativo e não o pontual e absoluto. Este normalmente aplica-se a quem tem alguma dificuldade, ou então uma agenda muito definida, em limitar as perspectivas que podem existir sobre as coisas que dizem respeito às pessoas e são, por isso e como o adjectivo indica, subjectivas.

Vem esta conversa a propósito do recente desvirtuamento da lei conhecida como a da “barriga de aluguer”, ou seja da gestação de substituição. Mas também sobre as outras polémicas como as da interrupção voluntária da gravidez, da procriação médica assistida, da mudança de género aos 16 anos e da sempre adiada eutanásia. Num lampejo, será fácil dizer que, a propósito de tudo, os conservadores de direita são contra e os radicais de esquerda a favor. Curiosamente, há um Partido que diz que dá liberdade de voto quando o momento do voto chegar – sabe-se lá quando – porque esta, diz ele, não é uma questão política. Não podia estar mais em desacordo, já que é uma questão que implica leis que regulam a sociedade. E se é certo que essa distinção de posições colectivas pode aproximar-se de ideologias, também é certo que os colectivos são feitos, pelo menos alguns progressistas e democráticos, de indivíduos com direito a opinião própria, sempre difícil de expressar, parece-me, quando essa posição individual vai contar para fazer e aprovar leis. Também por isso devemos conhecer muito melhor aqueles que elegemos para deputados à Assembleia da República.

Voltando à casmurrice, tantas vezes associada ao “ser do contra”, queria apenas terminar dizendo que nenhuma das chamadas leis fracturantes, de que acima elenquei exemplos, obriga quem quer que seja a praticar qualquer dos actos legislados. Aos que são seus beneficiários é-lhes dada uma oportunidade, aos profissionais que os assistem a possibilidade de fazerem objecção de consciência.  Quanto a mim e aos meus, o que queria mesmo, mesmo era não termos necessidade de utilizar nenhuma delas para termos direito a ser felizes. E eu estou sempre à espera que uma legislação, progressista e democraticamente discutida e aferida, contribua para essa felicidade também.  

E já agora, porque a felicidade em sociedade também é feita de equilíbrios entre direitos e deveres e hoje se assinalam os direitos dos trabalhadores, envio daqui uma saudação a mais um 1º de Maio!

24.4.18

Entre Livros e Liberdade

Ditou o calendário deste ano que a crónica de hoje saísse entre o Dia Mundial do Livro e o 25 de Abril. Não sei o que é viver sem ambos e acho estranho que passados 44 anos ainda haja quem diga que não tem acesso, apesar de uma irreprimível vontade, nem a um nem a outra. Ter acesso não quer dizer ser obrigado a, significa escolher do que nos colocam à disposição. Ora isso dá muito mais trabalho e exige de um cidadão, quanto mais não seja perante si próprio e a sua consciência, responsabilidade. Aquela que não evita o erro, mas diminui o seu risco e, porque elas acontecem, nos justifica os porquês do que se fez e não deu certo. Permite-se a correcção da rota, com ou sem ajuda. Como num Livro que se pode ler de enfiada, ou em diagonal, ou intermitentemente, ou recorrentemente, ou aleatoriamente. Como numa Democracia, em que se pode reclamar com quem podemos escolher para nos gerir os destinos colectivos e depois dizer-lhes que não, que não os elegeremos outra vez. Se num Livro a emoção pode justificar, sem perigo de maior, as mudanças de rumo, já na vida em sociedade, a Política portanto, é da atenção que depende justificarem-se os usos que fazemos da Liberdade que Abril nos trouxe. E como é doce e quase justificável a tentação de andarmos todos distraídos. E abusarmos das palavras que nos oferecem, ao desbarato como restos de colecção.    

Já dizia o Jorge Palma, esse poeta-cantor de imagem desregrada, que Portugal, ai Portugal!, confundiu amor com pornografia. Também nos mundos do Livro e da Liberdade há muita confusão. Confusão não é sinónimo de diversidade e pluralismo. (Podia era ser sinónimo de populismo, sim, essa ameaça de que, feliz ou infelizmente, se ouve cada vez falar mais. E oxalá que não aconteça como no poema “Adeus” de Eugénio de Andrade, o que diz “E no entanto, antes das palavras gastas, /tenho a certeza /que todas as coisas estremeciam /só de murmurar o teu nome /no silêncio do meu coração. “)

Desta confusão não se livra a palavra “todos”. Esse plural de que o género masculino assume na Língua Portuguesa, a materna, a responsabilidade paternal de significar “elas e eles”. Mas vamos lá descer ao concreto. Um concreto onde tenho interesses próprios, um direito que me assiste, um dever de o dizer a quem, quer me oiça ou leia, tem direito de saber. Não basta ensinar todos a ler, importa alertar para que a leitura, ainda que de um mesmo Livro, não é igual para todos. E que ela exige atenção, concentração, tempo, esforço. Nós, os da Literatura, não andamos só a ler se respeitarmos e devolvermos à Literatura a razão da sua existência. Andamos, por exemplo, a experimentar cenários de Vida e de vidas. A concreta, a que se representa na ficcional. E até parece vice-versa. E também não basta dizer que se defende o serviço público e os seus funcionários – operacionais, técnicos, decisores – e desconsiderar alguns, por se achar que são elite (ó que mania esta de me contrariar o que aprendi, até mesmo antes de 74, de que sendo todas diferentes, sendo os vários esforços reconhecidos financeiramente de forma diferente, todas as profissões merecem a sua dignidade!).

E neste dia, entre o Dia do Livro, de que alguns, onde curiosamente não são os Autores os mais numerosos, se acham donos e convencem “en passant” os outros de que ler é, contraditoriamente, fácil e obrigatório; e o Dia da Liberdade, que algumas corporações confundem com incoerência, vou citar o Presidente de um Partido político de que sou insuspeita ser simpatizante: “Se a política do Governo foi acabar com todos os cortes, não tenho nada a opor a que se acabem com todos os cortes mesmo”. Ora aqui está um bom uso da palavra “todos”. 25 de Abril sempre! Unidos ou não, com empenho e coerência, todos venceremos!

17.4.18

Crónica vintage AO90

Corria o ano de 1990 quando cheguei a Évora e comecei a leccionar também Língua Portuguesa a futuros Professores Primários, como então ainda se dizia. Recordo de, com os alunos, discutirmos as primeiras notícias sobre essa possibilidade de haver um acordo para uniformizar a ortografia entre os PALOP. As discussões, confesso que um pouco dirigidas, acabavam sempre com o argumento de que as diferenças entre os usos do Português iam muito para além da ortografia, pelo que o acordo não serviria, provavelmente, nem alguns interesses económicos. Passados 28 anos, cada vez me convenço mais que o assunto, um problema (e por isso com resolução) de alguns nos quais me incluo, é substancialmente da responsabilidade da comunidade académica. O elefante está no meio da sala da Academia e vou, por causa do seu tamanho, tratá-lo hoje (não me lembro se já terei feito alguma crónica sobre o tema, nestes oito anos que levo delas) cortado em duas fatias que poderão sempre ser discutidas depois, dissecadas em meios, ou quartos, ou pedaços ainda mais pequenos por quem o quiser fazer, e o souber, melhor do que eu. Julgo até que daria um estudo muito interessante percorrer as várias posições públicas de académicos e políticos ao longo destes anos. Cumpre-me apenas dizer que não gosto nem sei usar o AO90. Tentei e não consigo fazê-lo naturalmente, o que me leva sempre o dobro do tempo cada vez que tenho de escrever um documento oficial.

Primeira fatia: Tenho para mim que este é um assunto que ficou durante anos nas mãos de quem quis, no meio dos estudos linguísticos, ganhar a eternidade. Os que queriam ser eternos porque fizeram um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, os que queriam ser eternos por terem combatido esse movimento revolucionário. Para quem não é de áreas nem tangenciais ao assunto e fica sentado à espera que os académicos e cientistas da Linguagem cheguem à melhor solução para o que podia ser um problema (seria mesmo?) a resposta chegou, como imposição, ao fim de duas décadas de possibilidades de alteração de legislação que veio, naturalmente, uniformizar uma prática. Terá havido muita gente descontente ao longo destas duas décadas em que o AO90 “marinou” antes de ir para o forno “assar” um dos maiores elementos de um sistema cultural e que é a Língua usada por mais do que uma Nação. A pergunta que se me impõe é saber onde estariam os que, agora, se unem em petições e lutas constantes, depois de o “assado” estar pronto e apresentado como prato único aos que, como eu, têm dificuldade em engoli-lo. Esperaram pela legislação (quase) definitiva para tentar fazer de cada inculto nesta nova forma de escrever em Português um fora da lei? Lamento, mas não me parece uma prática ela própria moralmente legítima. Legítimo, intelectualmente, teria sido enfrentar em tudo quanto era fórum e júri de provas académicas os que, mais graduados, defendiam o AO90 sem medo do “chumbo” ou da não promoção na carreira. Isso sim era de resistente e lutador. Mas a imagem deixada à sociedade em geral é a de que se foi deixando passar o assunto, como se este tivesse sido feito pela calada.

E passamos à segunda fatia. As mais recentes intervenções do PCP, que votou contra a lei no início e nunca mais mexeu uma palha sobre o assunto de forma eficiente e talvez até eficaz, são oportunistas. Não sendo nenhuma novidade para mim, vem mais uma vez pôr a nu o simulacro da importância que sobre a Língua Portuguesa e as Políticas culturais dizem ter e defender. O habitual monopólio da Cultura de que se acham únicos detentores, legitimada por certos have been da praça público-política, actuais comentadores de bancada. Parece que o que disto resultou terá sido devolver-se o problema à Academia que, já agora, talvez devesse de facto ter a coragem para o discutir em termos de Política e não com interesses corporativos e pessoais. Não sei quanto tempo durará a discussão, mas prevejo-a longa e que o resultado chegue quando eu já cá não estiver e fique na “minha história” como a que confiou no mundo das Ciências da Linguagem e morreu a desconfiar dessa confiança. Oxalá me engane, quer na solução quer, já agora, no tempo de vida que me resta.